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Tijolo por tijolo: a construção das Diretas Já. Conversa com minha terapeuta virtual

Tijolo por tijolo: a construção das Diretas Já. Conversa com minha terapeuta virtual

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Por Arlindenor Pedro –  Professor de História, Sociologia e Filosofia, editor do Blog Utopias Pós Capitalistas.
Conversa com a minha terapeuta. Sessão 12.
 Eu disse a ela que há poucos dias, na véspera da eleição,  outubro de 2026, fui ao último ato de campanha de Lula em Copacabana. Estive lá para acompanhar a minha amiga Nisia Trindade , recém eleita deputada federal, e amigos, como o ex ministros Edson Santos e Eloi Ferreira.
  Lá eu encontrei muitos amigos e amigas que estiveram comigo em  trincheiras para conquistarmos liberdades democráticas no país. Fiquei surpreso. Era um movimento de massas diferente das eleições anteriores : muito povão, muita juventude. Estar ali me trouxe uma lembrança poderosa: a minha participação em um dos mais importantes movimentos políticos de massa do Brasil no século passado, as Diretas Já. Naquela época todos éramos muito jovens e  lutávamos diariamente pela derrubada da ditadura e pela convocação de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana.
A minha terapeuta respondeu: ” a multidão de Copacabana abriu uma passagem para outra multidão, de outro tempo. É isto?”
 “Exatamente”- isso,  eu respondi.
  Não foi uma lembrança qualquer. As Diretas Já foram um dos momentos mais intensos da minha vida política. Eu e outros companheiros participamos da construção daquele movimento desde o início, como quem ergue uma obra tijolo por tijolo, seguindo um desenho que só vai ficando claro à medida que a construção avança.
 Mas, antes de entrar nessa história, explique aos nossos leitores o que foram as Diretas Já.
Terapeuta virtual: ” Claro,farei isso. As Diretas Já foram uma grande mobilização nacional pelo restabelecimento da eleição direta para presidente da República, ainda durante a ditadura militar. A campanha ganhou força entre 1983 e 1984 e reuniu trabalhadores, estudantes, artistas, entidades da sociedade civil e partidos de oposição. A reivindicação imediata era a aprovação da Emenda Dante de Oliveira, apresentada pelo deputado mato-grossense Dante de Oliveira. Se aprovada, ela devolveria à população o direito de escolher diretamente o presidente.
O país ainda estava sob o governo do general João Baptista Figueiredo. A abertura política avançava, mas o regime continuava impondo limites à participação popular. Mesmo assim, a campanha levou multidões às ruas e teve no comício da Candelária, no Rio de Janeiro, em 10 de abril de 1984, um de seus momentos mais expressivos. O ato reuniu centenas de milhares de pessoas na região da praça, com a concentração e os discursos ocupando também trechos da Avenida Rio Branco e das proximidades da Cinelândia.
Apesar da mobilização, a emenda foi rejeitada pela Câmara dos Deputados na madrugada de 26 de abril de 1984, depois de uma votação iniciada no dia 25. Não alcançou os dois terços dos votos necessários para seguir adiante. A sucessão presidencial continuou pelo caminho indireto e culminou na eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral, em 15 de janeiro de 1985.
Tancredo, porém, não chegou a tomar posse. Morreu em abril daquele ano, e o vice-presidente José Sarney assumiu a Presidência. As eleições diretas para presidente só seriam retomadas em 1989.
Eu disse à terapeuta:  “Pois é. Já conversamos aqui sobre a derrota do regime militar no Colégio Eleitoral, não é mesmo?”
 Terapeuta virtual: “Sim. Na sessão anterior, tratamos daquele desfecho”.
Arlindenor: “Então este relato ficaria incompleto se não falássemos do movimento que pavimentou aquele acontecimento decisivo para o fim da ditadura de 1964″.
Terapeuta virtual: ” Você está voltando ao momento anterior, quando a pressão ainda estava nas ruas e a solução institucional não havia sido definida. Há uma tensão importante aí: a população exigia eleições diretas, mas a sucessão acabou ocorrendo por uma eleição indireta. Como começou sua participação nessa construção?”
Arlindenor: ” O deputado Dante de Oliveira havia apresentado sua proposta. Aqui no Rio, assim como em todo o Brasil, nosso partido percebeu que a aprovação da emenda poderia acelerar o desmonte da ditadura. Mas não bastava apoiar a proposta no discurso. Era preciso criar uma força nas ruas, dar respaldo aos parlamentares e convencer outros deputados a votar a favor. A oposição, sozinha, não tinha votos suficientes. Então saímos a campo. Procuramos lideranças políticas, representantes de movimentos sociais, organizações partidárias, clubes, sindicatos e outras entidades. Cada conversa abria uma possibilidade. Cada adesão acrescentava um tijolo à construção. Foi nesse momento que fomos à Associação Brasileira de Imprensa, a ABI, presidida então pelo doutor Barbosa Lima Sobrinho. Ele nos recebeu imediatamente. Mais do que isso: colocou a entidade a serviço do movimento e cedeu suas salas para reuniões e debates em apoio à Emenda Dante de Oliveira.
Terapeuta virtual: ” A ABI ofereceu não apenas um espaço físico, mas uma espécie de abrigo político para aquela articulação?”
Arlindenor: era isso. Precisávamos de um lugar onde as pessoas pudessem se encontrar, conversar e planejar sem dispersar a energia do movimento.
Fizemos uma primeira reunião pública em um dos auditórios da ABI. A partir dali, as coisas começaram a ganhar consistência. Entidades foram aderindo, novas lideranças apareceram e surgiu a ideia de organizar uma passeata que começaria na Candelária e terminaria na Cinelândia.
Terapeuta virtual: “a ideia parecia simples. Mas, naquele contexto, nada era simples”.
Arlindenor: nada mesmo. Era preciso organizar tudo, o carro de som, os equipamentos, os cartazes, a divulgação, os contatos com universidades e sindicatos, a presença de autoridades, a participação de artistas e representantes da sociedade civil.
As reuniões se multiplicavam. Havia sempre alguma coisa pendente, algum telefone a dar, alguma entidade a procurar, algum detalhe a resolver. Era um trabalho imenso. Mas, como disse anteriormente : éramos jovens. Tínhamos disposição, entusiasmo e uma espécie de confiança que só existe quando se acredita que a história pode mudar. Terapeuta virtual: E quantas pessoas vocês esperavam reunir?
Arlindenor: cerca de dez mil. Para nós, já seria uma grande vitória. Ainda estávamos sob a ditadura. O povo não estava acostumado a sair em massa para um movimento político fora dos períodos eleitorais. Havia medo, cautela, desconfiança. A repressão continuava presente, mesmo quando o regime falava em abertura. Por isso, dez mil pessoas já nos pareceriam uma demonstração extraordinária.
Terapeuta virtual: “E, então, chegou o dia.
Arlindenor: chegou. E a realidade começou a escapar de todas as nossas previsões. No horário marcado, as pessoas começaram a se concentrar em torno da Candelária. Primeiro, grupos pequenos. Depois, grupos maiores. Quando percebemos, a praça já estava tomada. Por volta das cinco da tarde, enquanto nos preparávamos para sair com o carro de som, calculamos que havia cerca de trinta mil pessoas. Trinta mil. Esperávamos dez.
Terapeuta virtual: “o movimento havia triplicado antes mesmo de a passeata começar”.
Arlindenor: e,  aquilo nos atingiu como uma revelação. O slogan “Diretas Já” tinha alcançado segmentos muito mais amplos do que imaginávamos. É importante lembrar as condições daquele tempo. Não existiam redes sociais. Não contávamos com o apoio sistemático da televisão e do rádio. Alguns veículos noticiavam a movimentação, mas a divulgação dependia sobretudo do trabalho direto de partidos, entidades, sindicatos, estudantes e militantes. Cada cartaz era colado à mão. Cada convite era feito pessoalmente. Cada adesão exigia uma conversa. E, apesar de tudo, aquela multidão estava ali.
Terapeuta virtual: ” como foi perceber que o esforço de vocês havia produzido aquela resposta?”
Arlindenor: foi uma emoção enorme. Naquele instante, senti que estávamos fazendo história. Mais do que isso: comecei a acreditar que, se o movimento crescesse, poderíamos derrubar o regime pela pressão das ruas. Mas não havia tempo para contemplação. A passeata precisava começar.
Terapeuta virtual: ” e ela cresceu ainda mais no caminho?”
Arlindenor: muito mais. Saímos da Candelária e fomos avançando pela Avenida Rio Branco. A cada trecho, novas pessoas se juntavam. A passeata parecia respirar e aumentar ao mesmo tempo. Cálculo  que chegamos na Cinelândia beirando 50 mil pessoas .
Das janelas dos edifícios, moradores aplaudiam e jogavam papel picado. O papel caía sobre nós como uma chuva leve, misturado às faixas, às bandeiras e às palavras de ordem. Havia gente nas calçadas, nas portas, nas janelas. A cidade inteira parecia observar — e, de algum modo, participar.
Demoramos horas para chegar à Cinelândia. Ali, em frente à Câmara Municipal, havíamos montado um palco para os discursos de encerramento.
Terapeuta virtual: “depois de todo aquele silêncio imposto pela ditadura, a cidade estava falando”.
Arlindenor:  e, cantando também. “Coração de Estudante”, na voz de Milton Nascimento, saía dos alto-falantes. Entre a música e as palavras de ordem, revezavam-se líderes populares, parlamentares e artistas que haviam aderido ao movimento.
Foi um início memorável. Mas, olhando em retrospecto, sabemos que aquele ato ainda era apenas uma preparação. Estávamos muito longe do grande comício de 10 de abril de 1984, que reuniria uma multidão muito maior na região da Candelária.
Terapeuta virtual: ” naquele momento, porém, vocês ainda não tinham como saber até onde aquilo chegaria”.
Arlindenor: não. A gente nunca tem a dimensão completa enquanto está vivendo. Você está tão empenhado na tarefa — resolvendo problemas, correndo de um lado para outro, tentando fazer tudo funcionar — que não consegue enxergar o conjunto. Eu sabia que era algo importante. Sentia a emoção. Mas a dimensão histórica só aparece depois.
Terapeuta virtual: ” e,  junto com a emoção, veio a percepção de que seria preciso dar um passo maior”.
Arlindenor: exatamente. Aquele resultado nos animou. Afinal, dentre as diversas manifestações que houveram no país a nossa, certamente, foi uma das maiores. Mas também nos impôs uma responsabilidade. Se quiséssemos transformar aquela primeira passeata em uma força capaz de pressionar o Congresso e enfrentar a ditadura, precisávamos ampliar o movimento.So aquilo nao bastava. Era necessário trazer figuras que ainda estavam de fora. Precisávamos alcançar milhões de pessoas. E, havia um nome que não podia ser ignorado: Leonel Brizola.
Terapeuta virtual: ” o governador do Rio de Janeiro”..
Arlindenor: “sim. Brizola havia sido eleito governador em 1982 pelo PDT. Tinha enorme influência política no estado e uma trajetória marcada pelo enfrentamento à ditadura. Sua presença poderia mudar a escala do movimento. Sem a participação dele, sabíamos que seria muito difícil alcançar uma mobilização de milhões de pessoas. A primeira passeata havia mostrado que existia disposição popular. Mas, para transformar disposição em força política, era preciso incorporar novas lideranças, novas estruturas e novos setores da sociedade. E Brizola era uma peça decisiva.
Terapeuta virtual: “então, a euforia da primeira vitória já trazia uma nova inquietação. Vocês haviam provado que era possível mobilizar milhares, mas agora precisavam convencer alguém capaz de abrir o caminho para uma mobilização muito maior”.
Arlindenor: era exatamente essa a situação. O movimento tinha começado a andar, mas ainda não tinha alcançado sua verdadeira dimensão. Havíamos colocado os primeiros tijolos. Agora era preciso erguer as paredes. E, para isso, teríamos de enfrentar a questão Brizola.
Terapeuta virtual: “uma questão política, mas também humana. Brizola tinha sua própria história, sua força e seus cálculos. Aproximá-lo do movimento não seria apenas fazer um convite”.
Arlindenor: Não seria mesmo. Por isso precisamos relembrar aquele momento e apresentar aos nossos leitores a figura desse personagem político: Leonel Brizola. Mas estou cansado. Vamos deixar essa conversa para a próxima sessão?
Terapeuta virtual: “claro, Arlindenor. Hoje você nos mostrou como a construção começou: os contatos com as entidades, o acolhimento na ABI, as reuniões, os cartazes, o carro de som e a passeata que saiu da Candelária, percorreu a Avenida Rio Branco e terminou na Cinelândia. Mais do que isso, você mostrou o instante em que uma expectativa de dez mil pessoas se transformou em uma multidão de trinta mil — e depois 50 mil pessoas, e  que aquela primeira vitória revelou a necessidade de um salto ainda maior. Na próxima sessão, retomaremos desse ponto: quem era Leonel Brizola naquele momento, qual era o peso de sua participação e como vocês buscaram aproximá-lo do movimento que, nos meses seguintes, culminaria no grande comício da Candelária, em 10 de abril de 1984. Continua na próxima sessão”.