As urnas americanas deram um recado ao mundo
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Por Henrique João Pinheiro – Economista, produtor executivo do documentário “Terra Revolta”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor”, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
4 de novembro de 2026
As eleições legislativas americanas produziram um resultado que poucos analistas imaginavam há alguns meses. Os democratas conquistaram a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, impondo uma derrota contundente ao presidente Donald Trump.
Mas o mais importante não foi apenas a mudança de maioria no Congresso. Foi onde ela aconteceu.
No Texas, reduto republicano há décadas, James Talarico conquistou uma cadeira no Senado. No Kansas, Adam Hamilton rompeu uma hegemonia republicana de quase um século. Na Carolina do Sul, Annie Andrews venceu em um estado onde Trump havia obtido uma vantagem de quase 18 pontos percentuais em 2024.
Os democratas também conquistaram cadeiras republicanas em Iowa, Ohio, Carolina do Norte e Maine. Em Michigan, mantiveram sua representação no Senado. Até na Flórida, onde os republicanos venceram, a diferença foi muito menor do que a registrada na eleição presidencial de 2024.
Não estamos falando de uma simples alternância eleitoral. Estamos diante de uma mudança significativa no comportamento do eleitor americano.
A inflação, o custo de vida, a guerra contra o Irã, as tarifas comerciais e a política de imigração cobraram seu preço. A promessa de prosperidade esbarrou na realidade das famílias americanas.
Trump descobriu que controlar a Casa Branca não significa controlar a vontade popular.
Há também uma lição importante para o Brasil.
Durante anos, setores da extrema direita apresentaram o trumpismo como um movimento político irresistível, capaz de transformar definitivamente a democracia americana.
As urnas demonstraram que nenhuma liderança está acima do julgamento dos eleitores.
O resultado também merece atenção por outro motivo: os democratas conseguiram avançar em regiões tradicionalmente conservadoras, mostrando que o eleitorado não está condenado a permanecer prisioneiro de identidades partidárias.
A democracia permite mudar de opinião, corrigir caminhos e substituir representantes sem romper a ordem constitucional.
É precisamente essa sua maior virtude.
A nova maioria democrata terá condições de fiscalizar o governo, investigar eventuais abusos e limitar iniciativas presidenciais. Isso não significa que os problemas americanos estejam resolvidos. Significa que o sistema de freios e contrapesos voltou a ganhar força.
O recado ultrapassa as fronteiras dos Estados Unidos.
Em um mundo marcado pelo avanço de movimentos autoritários, a eleição americana demonstra que o voto continua sendo o instrumento mais poderoso de uma sociedade livre.
Não foi uma vitória definitiva da esquerda sobre a direita. Foi uma demonstração de que o poder político não pertence a um homem, a um partido ou aos interesses econômicos que financiam campanhas eleitorais.
Pertence ao povo.
E, quando o povo decide mudar os rumos de uma nação, nenhuma força política pode se considerar invencível.


