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Sofisticada delicadeza nas telas de Frederico Mendes

Luiz Claudio de Almeida 16 de dezembro de 2022 4 minutes read
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O olhar do consagrado fotógrafo carioca Frederico Mendes é múltiplo, e sua versatilidade marcou uma carreira com estilo inconfundível.  Agora ele expõe seu lado de pintor, com um trabalho pleno de beleza lúdica onde texturas e cores se juntam em movimentos abstratos com toques geométricos.

Com uma mensagem no Facebook ele participou: “Amigos queridos, neste final de semana vou expor 33 telas no meu ateliê, no Baixo Gávea. Convido vocês para conhecer o meu trabalho como artista plástico. São telas grandes (a maioria) com pelo menos um metro de comprimento e algumas com 60 e 80 centímetros. Caso se interessem, mando o endereço por mensagens. Obrigado”.

Li e imediatamente passaram pela minha cabeça incontáveis imagens de trabalhos que fizemos juntos, e tantas outras de sua trajetória de fotógrafo, que sempre me emocionam. Seu jeito manso e um pouco aéreo faz parte do seu charme. Afinal, ele tem lembranças – muito vivas – de tantos lugares e pessoas que formam um repertório invejável. E um conhecimento muito singular. Sem esquecer que uma conversa com ele sempre inclui música e cinema, algumas de suas paixões. Por isso, nada melhor do que deixar a formalidade de lado e ler o seu texto.

“Apesar de ser fotógrafo desde 1970, só meus amigos sabem que desenho e pinto há 71 anos. Com quatro anos, já pintava com as tintas da minha mãe pintora a banheira do nosso apartamento. Alguns anos mais tarde, foi a vez das paredes — primeiro as do meu quarto — e depois, como aqueles alienígenas ou amebas de filmes classe B ou C dos anos 1950, meus desenhos foram avançando – invadindo casa adentro, corredor até a sala de visitas e jantar. E o que é melhor: tudo isso sob o olhar complacente e encorajador da minha mãe.

Fui pintando pela minha jovem vida, vendendo um quadro aqui e acolá, até a minha primeira fossa amorosa. Quando eu e Monica terminamos, fiquei tão mal, mas tão mal, que não conseguia mais pintar ou escrever (estava no segundo ano de Jornalismo na PUC). Block Total. A tela virgem no meu cavalete e a folha almaço na minha Olivetti 22 viravam um grande e absoluto nada, nada, nada. Não conseguia nem desenhar as tiras de quadrinhos que publicava em jornais.

Foi nessa época que, na dúvida entre ir para a Europa de cargueiro do Lóide ou comprar uma motocicleta, acabei me enamorando de uma japonesa: a minha primeira câmera Nikon. Foi amor à primeira vista desde que ela, como em um convite, piscou seu único olho, isto é, sua lente, para mim (juro!) em uma loja de Fotografia na avenida Rio Branco.

Comprei a câmera, pedi para o vendedor me ensinar como se colocava o filme nela e saí fotografando tudo o que via no centro da cidade.

Ao revelar o filme me deparei com, de novo, nada, nada, nada. Minha câmera não tinha fotômetro e errei tudo o que já não sabia— naquele filme Tri-X de 36 poses não havia uma só foto que prestasse.

E assim continuamente errando e aprendendo passei a me aventurar pela cidade, fotografando gente pelas praias, subúrbios, noite e dia. Era a minha nova forma de comunicação com aquele até então estranho mundo.

Dois meses depois pedi demissão do cargo de editor de um suplemento juvenil no jornal em que trabalhava e pedi para começar um estágio no departamento fotográfico.

O editor chefe da publicação me disse olho no olho:

— Você vai morrer de fome se virar fotógrafo…

Pois bem, não morri de fome, mas quase morri cobrindo algumas guerras e revoluções pelo mundo afora.

Por causa da minha vida de fotógrafo, conheci fotografando as quatro mulheres com quem me casei. Aliás, devo ser uma pessoa muito pouco interessante sem uma câmera pendurada no pescoço.

Apesar de continuar pintando todos esses 52 anos, esporadicamente, com a pandemia, preso em casa ou cansado de ver ou rever cinco filmes por dia, voltei a pintar com frequência.

Ah… esqueci de falar que por causa dessa câmera japonesa já fui várias vezes à Europa, mas ainda não comprei a tal motocicleta. Na verdade, gosto mesmo é de andar de bicicleta… ”

Se você ainda não conhece Frederico Mendes pessoalmente se anime para encontrar um ser humano tão fascinante quanto tudo o que ele faz. Se você o conhece, se anime, e vá ver sua exposição. Tenho certeza de que se encantará tanto quanto eu diante de uma sensibilidade rara que capta como poucos a beleza, mesmo consciente da realidade.

Facebook: Frederico Mendes

Instagram: @fredericomendes

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