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O Suicídio Como Solução, e o Lenço de Desdêmona

Luiz Claudio de Almeida 29 de maio de 2024 7 minutes read
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Estreou no teatro Casa Grande o espetáculo de balé ST Tragédias. A direção é de Marcelo Misailidis, e a codireção é de Ana Botafogo.

ST significa o encontro de dois grandes gênios, encontro este que acontece por meio da dança. De um lado, temos William Shakespeare, autor de diversas obras literárias, como Romeu e Julieta, e Otelo. De outro lado temos Tchaikovsky, autor de músicas memoráveis. Portanto, a associação do escritor bardo com o compositor russo se concretiza no palco pelo bailar dos bailarinos. Faz-se a união de dois expressivos artistas.

O espetáculo tem início com o pas de deux de “Romeu e Julieta” em poema sinfônico (“Abertura Fantasia de Romeu e Julieta”) de Tchaikovsky para o referido título. O casal que executou a dança foi Federico Fernandez, no papel de Romeu, e Eliana Figueroa, no de Julieta, ambos de nacionalidade argentina pertencentes aos corpos estáveis do Teatro Colón de Bueno Aires. A coreografia é uma criação de Marcelo Misailidis.

Os dois deixaram transparecer por meio do seu bailado, marcado por uma união entre técnica perfeita e interpretação associada ao emotivo, o sentimento intenso e poderoso que envolveu a paixão arrebatadora que os dominou. Paixão impossível, pois pertenciam a famílias rivais (Capuletos x Montequios), e para estar um ao lado do outro para sempre optaram pelo suicídio. Solução final.

Os figurinos do casal são adequados, em tons pastéis e singelos.

Na cenografia, aparece na lateral um elemento suspenso de tecido branco transparente, uma espécie de “cortinado”, que está preso a um elemento decorativo na parte superior em formato quadrangular. Julieta por diversas vezes passa pelo “cortinado”, penetrando no espaço, permanecendo, e depois retornando ao exterior.

Este elemento cenográfico na obra Romeu e Julieta remete a cena chamada a cena do balcão, onde se atribui a este espaço como sendo a casa de Julieta. Este balcão representa o quarto de Julieta.

Há também uma cruz onde o casal se ajoelha, e ora para conseguir resolver aquela situação de desassossego.

A apresentação se encerra com Julieta se matando ao empunhar um punhal em si, e ficando assim junta ao seu amado. Juntos até a morte. Uma paixão profunda e desmedida.

No chão do palco permaneceu o punhal. A segunda apresentação, Otelo, tem início com o personagem Iago pegando o punhal, elemento que Julieta utilizou para acabar com a sua vida. Otelo, de Shakespeare,  foi contado a partir do poema sinfônico Francesca da Rimini, de Tchaikovsky.

Otelo tem como base três personagens principais. O primeiro é Otelo, o mouro, realizado por Edifranc Alves, que faz um personagem apaixonado possessivamente por sua esposa, e que, num segundo momento,  fica furioso, tomado por um ciúme doentio.

O segundo personagem é Desdêmona, esposa de Otelo, personagem sufocada e reprimida, realizado por Márcia Jaqueline.

E, Iago, o canalha, o perverso, o invejoso, o suboficial que não aceitou não ter sido promovido, realizado por Márcio Jahú.

Ao não ser promovido, Iago arquiteta a destruição de Otelo com uma capacidade incrível de manipulação. O vilão aposta na estratégia de tormenta, busca semear o ciúme em Otelo e assim, amargurar a sua alma.

Otelo presenteou sua esposa Desdêmona com um lenço que havia herdado de sua mãe. O lenço, acreditava ele, traria felicidade ao casal. Mas, para sua infelicidade, o objeto causaria a discórdia.

O perverso Iago subtraiu o lenço de Desdêmona, e em seguida afirmou para o mouro que sua esposa teria presenteado seu amante com o lenço. Enciumado e instável, Otelo passou a refletir sobre as afirmações de Iago. O Mouro de Veneza não suportava imaginar que sua amada teria desprezado o presente e dado para um outro homem. Então, completamente descontrolado e tomado pelo ciúme, por um complexo de inferioridade e cegueira, foi a procura de sua esposa Desdêmona, com a certeza de que ela o havia traído e a assassinou, sem sequer ouvir qualquer suposta defesa. Portanto, o lenço é o fio condutor de toda a narrativa.

Na apresentação, Otelo mata Desdêmona, o maior amor de sua vida, em seu quarto, sufocando-a em seu peito, que estava machucado e sofrido. Mal sabia ele que estava matando uma inocente. Desdêmona morreu sem poder dizer a verdade. Foi vítima de uma farsa, do ciúme doentio, e da violência.

Enquanto Romeu e Julieta é mais dança, mais balé, mais meigo e sublime, Otelo é mais teatralizado, com várias cenas que se seguem para narrar a trama, sendo esta marcada pelo ciúme, traição, feminicídio, e sangue. Há uma maior exigência técnica, pois se apresenta com uma coreografia bastante teatralizada.

Os figurinos de Otelo criados por Joao Paulo Bertini são bonitos e de bom gosto, imperando a cor vermelha, com exceção do vestido branco de Desdêmona.

Bastante inteligente colocar figuras femininas como soldados. Ao longo de todo o espetáculo passam incógnitas, pois estão trajando roupas a priori masculinas, que as escondem, e carregam escudos. Ao fim da apresentação, como num grito de protesto contra a submissão e a violência feminina, elas tiram tudo e ficam com seios e costas a mostra, exibindo marcas de sangue em seus respectivos corpos. Bonito encerramento.

Quanto aos elementos cenográficos, muitos que estiveram presentes na primeira apresentação foram reapropriados em Otelo com novas significações. Eles foram desconstruídos para preparar a ambientação da segunda parte

As partes constitutivas da cruz se transformaram nos escudos dos soldados. Nas sociedades medievais, a religião perpassava toda a vida em sociedade, sendo utilizada inclusive na defesa das fronteiras. E, lá estavam os soldados em defesa da fé crista.

O elemento cenográfico da primeira apresentação, que remetia ao dossel do quarto de Julieta, se transformou na trama de Otelo.

Na segunda apresentação, o cenógrafo partiu de uma metáfora que os personagens da peça Otelo se dispõem como se fosse um jogo de xadrez.

No tabuleiro, Otelo representa a peça do cavalo, ou seja, a força física bruta.  Os soldados seriam os peões, junto com Iago e Cássio que também fazem parte do exército de Otelo. Brabâncio, pai de Desdêmona, e Rodrigo são as torres por serem os nobres de Veneza. Ludovico o preto cavalo. Bianca e Emília são os bispos.  Doge representa obviamente o Rei. E, finalmente, Desdêmona a Dama do jogo e da peça.

O cenário é ressignificado e passa a ser um tabuleiro de xadrez, por onde Otelo entra saltando, como adentrando num estábulo de cavalos. Logo em seguida, ele é suspenso representando a coroa do império Veneziano. E, ao fim, a prisão de Iago.

Portanto, a cenografia criada por Marcelo Misailidis se fez presente nas duas apresentações, em caráter de continuidade, sendo reutilizada com diversas significações. Ela é clean,  criativa, e deixa transparecer a capacidade do artista em  fugir do óbvio, do trivial.

A iluminação de Paulo Cesar Medeiros é bonita, adequada as diversas cenas, e marcada pela simplicidade, uma vez que não apresenta efeitos pirotécnicos.

Não tinha orquestra, mas tinha um som forte e em tom elevado que acabava por fazer com que não sentíssemos a ausência do conjunto de músicos, e nos levou ao deleite da música de Tchaikovsky.

ST Tragédias é um espetáculo que tem a marca de duas referencias do ballet clássico no Brasil, Misailidis e Botafogo; o mérito de unir de forma magnífica literatura, música e dança; e, apresenta figurinos e cenografia criativos e de bom gosto, e a envolvente música de Tchaikovsky.

Excelente produção cultural de balé!

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