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Estreou Em Nome da Mãe no teatro Adolph Bloch.

Luiz Claudio de Almeida 14 de agosto de 2024 5 minutes read
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A concepção, dramaturgia e atuação é de Suzana Nascimento, a partir da obra homônima de Erri de Luca, escritor, poeta, e tradutor italiano.

 

O texto tem como personagem central Maria de Nazaré, a mãe mais conhecida do mundo. Mas, a dramaturgia não quer olhar para a Nossa Senhora, e sim para a mulher de carne e osso, o ser humano. Bem antes dela ter esse caráter divino, ela foi uma menina, uma moça, uma jovem, e teve muitas coisas para sentir, pensar e falar.

 

Na dramaturgia, ela toma a palavra e narra em primeira pessoa a sua longa jornada. Optou-se pelo nome de Miriam, seu nome original. E foi trazido a tona a adolescente humilde, não  casada, e que engravidou fora do noivado de forma não-convencional, numa sociedade em que as mulheres adúlteras eram apedrejadas. Portanto, a história é narrada por meio da voz de uma mulher, deixando transparecer as lutas e resistências no âmbito daquela sociedade eminentemente patriarcal.

O texto é bonito, potente, sensível, e emocionante, apresenta uma reflexão sobre o feminismo e os comportamentos patriarcais. E, nos apresenta uma outra Maria de Nazaré, que foi criada para aceitar a se submeter, que enfrentou as invasões romanas e a violência contra as mulheres, e deu a luz num estábulo, cercada por animais, local sem as mínimas condições sanitárias e de higiene.

 

A imagem passada pela dramaturgia que se apresenta não é a de uma Maria religiosa, mas de uma mulher que vive no mundo e está submetida aos mandos e desmandos desse universo conservador, patriarcal e machista. Ao trazer a história de Maria para os palcos, a autora também a relaciona com as inúmeras Marias do nosso mundo contemporâneo, pois diversos comportamentos patriarcais permanecem existindo em nossas sociedades.

 

A atriz Suzana Nascimento faz uma Maria que é uma mulher pobre, em situação precária, que viveu ha mais de dois mil anos atrás, sofrendo preconceito, grávida, numa sociedade que não perdoava mulheres adúlteras. É uma Maria laica, e não interpretada pelo viés religioso. E ela tem uma atuação impecável, passa emoção. Está segura, passando o texto com determinação, e se comunica e interage bem com o público.

 

Suzana dá voz a três mulheres que relatam a jornada da protagonista. A primeira, a donzela Maria (ou Miriam, como é chamada em hebraico), a atriz (uma mulher de 46 anos) e a anciã (Maria, em sua velhice, carregando em si a ancestralidade feminina). As três relatam a jornada da protagonista, intercaladas com histórias da vida da própria atriz e temas da atualidade.

 

No nosso ponto de vista, o momento ápice do espetáculo se dá na cena do parto de Jesus. Ponto de acerto entre a atriz e a direção.

A direção é de Miwa Yanagizawa, que imprime na atuação da atriz a marca da técnica perfeita, a interpretação correta, mas que também deixa transparecer emoção, que vibra, que fala com o coração, ao interpretar a Maria despida do seu perfil religioso.

 

A direção de arte, figurino e cenografia são de Desirée Bastos e Jovanna Souza.

 

O figurino é simples, adequado e funcional. Ela usa um vestido em tom rosa claro, e por cima do mesmo utiliza vestidos de tules, de quatro tonalidades (rosa, laranja, vermelho e azul), que são substituídos ao longo da peça. Maria de Nazaré era uma mulher simples, humilde, que vivia em meios aos pastores das comunidades de Jerusalém.

 

A cenografia é bonita, adequada e criativa.  Apresenta como conceito central o elemento que representa o culto a Maria, que é o seu véu. O véu de Maria simboliza a constelação e é, provavelmente, a característica mais presente nas suas diversas representações. O véu neste espetáculo, no entanto, não aparece com a beleza e o esplendor da alusão à constelação, mas na sobriedade concentrada exclusivamente na ação de velar e desvelar a trajetória dos desejos na vida de uma mulher.

 

Tecnicamente, os véus dispostos no espaço trazem a possibilidade de reforçar os recortes das estâncias evidenciadas no decorrer da peça, assim como auxilia numa sensação de aprofundamento espacial, quando vemos ao longe espaços que se enunciam por detrás de suas diversas camadas. Por outro lado, os véus nos permitem a aproximação dos temas quando temos projeções em larga dimensão sobre suas superfícies. Ao final do espetáculo, a ausência dos véus traz a revelação de Miriam, uma mulher como muitas.

 

Além do véu, outro elemento central da cenografia é a cabaça, que está presente de diferentes formas ao longo do espetáculo.

 

A iluminação criada por Ana Luzia Molinari de Simoni e Hugo Mercier é  bonita, adequada, e realça a atriz em suas diversas cenas.

 

Em Nome da Mae apresenta uma dramaturgia original; uma atriz com uma excelente atuação; e figurinos e cenografia de bom gosto e adequados ao tema.

 

Excelente produção cênica!

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Luiz Claudio de Almeida

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