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É Preciso Saber Viver!

Luiz Claudio de Almeida 25 de setembro de 2024 6 minutes read
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Estreou no teatro Firjan Sesi Centro a peça teatral Hereditária

A idealização da peça é de Moira Braga, também responsável pelo texto, e que atua como uma das atrizes.

A dramaturgia, realizada em parceria com Pedro Sá Moraes, narra a biografia de Moira Braga partindo da descoberta aos sete anos de idade de uma condição genética rara — Stargardt — que causaria a perda de sua visão, para investigar os múltiplos sentidos da hereditariedade, do genético ao social.

Stargardt é uma doença hereditária congênita degenerativa que atinge a área central da retina, também conhecida como mácula.

Ela se desenvolve por uma degeneração progressiva das células da retina, como os fotorreceptores (cones e hastes), responsáveis pela conversão da luz em impulsos nervosos que o cérebro transforma em imagens. Afeta principalmente crianças, adolescentes e jovens adultos, que se inicia pela lenta perda da visão que vai evoluindo até estágios mais avançados. Essa é a enfermidade hereditária da retina que afeta Moira.

O texto é narrado pela própria Moira que nos informa que o seu nome foi dado pelo próprio pai, previamente antes dela nascer. Certo dia, ele foi assistir uma peça de teatro, e a uma das atrizes lhe foi dado esse nome. Ele gostou tanto do nome, que decidiu que sua filha assim seria chamada. Portanto, o nome é uma herança do seu pai.

Do lado paterno, ela herdou o gosto pela música, e cultura.

Na mitologia grega, as moiras são as tecelãs do destino, três irmãs que detêm um poder incrível: o de fiar, medir, e cortar o fio da existência humana.

E, na mitologia romana, elas passaram a se chamar parcas, três mulheres cegas.

Moira narra toda a sua vida, os espaços onde residiu na cidade do Rio de Janeiro. Inicia pelo bairro de seu nascimento, Méier, e segue para a Ilha do Governador, e Botafogo. Num segundo momento foi residir com a sua família na cidade de Leopoldina, em Minas Gerais, onde teve uma infância feliz, e na adolescência começou a ter as primeiras paqueras. Foi naquela região que herdou seus sabores, paladares….

Foi na cidade mineira que ela começou a apresentar os primeiros sintomas de perda da visão. Moira informou que na família da sua mãe havia pessoas com dificuldades visuais.

Passado um tempo, ela retornou a cidade do Rio de Janeiro para cursar jornalismo. A faculdade foi realizada com a ajuda do pai, que lia os textos em sua companhia.

Moira narra também que seu pai desenvolveu um câncer. Durante o período em que esteve doente, ele escreveu um diário, e este se transformou numa herança por ele deixada. Após a sua morte, em companhia de uma amiga, ela o transcreveu.

Do seu pai e avo, Moira também herdou a paixão pelo time do Botafogo.

Por sua vez, os traços indígenas que ela possui são da sua bisavó, que descendia do povo puri.

Portanto, Moira é herdeira dos seus antepassados, que de gerações a gerações passam as suas tradições socioculturais.

Ela narra que a bailarina e coreógrafa Angel Viana teve uma importância em sua vida, pois foi na escola que ela criou a primeira dança, e a primeira cena. Naquele espaço, ela aprendeu que arte e vida são uma coisa única. Estão associadas.

O texto é bonito, poético, emocionante, reflexivo, fala de heranças familiares, é um grito contra o preconceito com relação aquelas pessoas que apresentam alguma deficiência, e lutam pela vida. Moira é herdeira da força das mulheres, das suas batalhas, do sacrifício que fizeram para conseguir o tão sonhado empoderamento. A sua deficiência não a intimida!

Moira mostra como as pessoas tem medo da deficiência. Mas ela lembra que não podemos esquecer que todos nós temos potencial. A ignorância é o maior inimigo. Existem projetos e políticas públicas para pessoas com deficiência. Contudo, a população tem pouca informação sobre o assunto.

No texto, ela denunciou que na Alemanha nazista foi aprovada uma lei de esterilização forçada de pessoas com doenças hereditárias.

Na luta pela vida, ela desejou ser mãe. O primeiro, Nino, teve meia hora de vida. Logo a seguir, veio Iago. É por meio dos olhos dele que ela enxerga o mundo.

A dramaturgia é atravessada por bonitas canções compostas por Pedro Sá Moraes. As músicas são melodiosas, com letras adequadas, e com um conteúdo que ajuda a narrar e a compreender a trajetória de Moira de forma mais clara e evidente. Uma das músicas que mais gostamos, no nosso ponto de vista, foi sobre o bairro da Ilha do Governador, onde ela morou na residência da sua bisavó, como também a que versa sobre o maior cajueiro do mundo, localizado no Rio Grande do Norte, e que ela visitou.

A direção musical, assinada por Pedro junto com Isadora Medella, explora de forma acertada as vozes, os corpos, e até os objetos cênicos como instrumentos musicais.

Moira Braga está acompanhada no palco pelas atrizes Isadora Medella, e Luize Mendes Dias. Elas auxiliam Moira a narrar a sua biografia. Elas apresentam uma boa interação, demonstrado estarem em sintonia e afinadas. Elas interpretam, cantam, e se movimentam com segurança e firmeza. Apresentam um bom domínio do texto e do palco, e uma linguagem de fácil compreensão, o que facilita o entendimento do texto. Cantam com um bom tom, expressando alegria e emoção. Elas estão também preocupadas com a acessibilidade, em que libras e audiodescrição estão entrelaçadas de forma orgânica desde a dramaturgia até as movimentações de cena.

Os figurinos criados por Vania ms. Vee são bonitos, adequados ao espetáculo, de bom gosto, e clean. Moira branca usa um vestido areia com detalhes em vermelho na camisa e na saia. Isadora Medella veste uma blusa cheia de panos em tom areia e uma pantalona em vermelho bordo. E, finalmente,  Luize Mendes Dias traja blusa e calça em tom areia.

A cenografia criada por Ricardo Siri é original, criativa, e funcional. Ela é uma instalação visual e sonora, constituída por um conjunto de carretéis em diversos tamanhos, um tambor, fios de linha que descem do teto, e na lateral dois violões e um tablado quadrado. Os objetos ao serem manuseados produzem os ambientes e sonoridades da peça.

A iluminação criada por Ana Luzia de Simoni é bonita, apresenta um jogo de luz sincronizado com as diversas cenas, e contribui por realçar as interpretações das atrizes.

Hereditária é uma peça que apresenta uma dramaturgia forte, reflexiva, e emocionante; um elenco que interpreta e passa emoção; e bonitos figurinos, e criativa cenografia.

Excelente produção cênica!

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Luiz Claudio de Almeida

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