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Georgia Szpilman fala da experiência em unir samba e música erudita com Neguinho da Beija-Flor

Chico Vartulli 6 de março de 2025 7 minutes read
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A  minha convidada desta semana é a soprano do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Georgia Szpilman, que vai apresentar   a riquíssima obra de Chiquinha Gonzaga ao público carioca no tradicional Salão Assyrio, no Theatro Municipal do Rio. No mês da mulher e para homenagear os 90 anos da morte da compositora, pianista  e maestrina brasileira, Szpilman vai apresentar, no próximo dia 16, o espetáculo “Um Encontro com Chiquinha Gonzaga”.

Em nosso saboroso bate-papo, falamos sobre a importância de Chiquinha Gonzaga, da confecção do espetáculo, e  ainda sobre a presença de Georgia Szpilman na Sapucaí. Confira!

 

JP – Olá Georgia! Você poderia nos antecipar como será a homenagem especial aos 90 anos de falecimento de Chiquinha Gonzaga no Theatro Municipal do Rio de Janeiro que você irá realizar?

Este ano, a grande compositora e maestrina Francisca Edwiges Gonzaga completa uma data redonda de falecimento, 90 anos! Por este motivo, eu, uma apaixonada pela maestrina, não poderia deixar de homenageá-la. O concerto será no Salão Assyrio no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Além do palco coberto de serpentinas, tendo ao meu lado a pianista Maria Luisa Lundberg, que será nossa Chiquinha, teremos o primeiro clarinetista da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Moisés Santos.  Apresentaremos composições icônicas da maestrina e histórias interessantes da Chiquinha, uma mulher totalmente de vanguarda!

 

JP – No seu ponto de vista, qual foi a importância de Chiquinha para a música brasileira?
Chiquinha e o Ernesto Nazareth foram, de certa forma, a base do que viria ser nossa música popular. No entanto, Chiquinha ficou mais próxima do “povão”, por assim dizer, diferente do Ernesto Nazareth, que na época visava mais a erudição.  Sendo mulher separada, tendo que lutar pela sobrevivência, dando aulas não somente de piano, mas de corte e costura, de história, geografia, português, etc, e se apresentando à noite, acabou de certa forma assimilando muito dos ritmos que iam se misturando no meio popular, de nossa cidade.
As habaneras, o lundu, a polca, o maxixe, misturadas a valsa, criavam um ritmo mais pungente e dançante. Chiquinha era expert em fazer o mix destes ritmos de forma muito especial. Este se tornou seu grande diferencial.  Depois, Chiquinha foi percebendo que para ampliar seus horizontes profissionais, tinha que se voltar para o teatro. Ela se transformou em um “Offenbach de saias”. Sabia como ninguém captar o gosto popular; no teatro musicado teve seu maior sucesso.
JP – A homenagem será no mês de março, mês da mulher. E Chiquinha também teve um comportamento a frente do seu tempo para conquistar o espaço da mulher na sociedade, correto?

Para mim foi perfeita esta data em março, pois Chiquinha foi uma mulher que rompeu totalmente com os padrões de sua época, metade do século 19 e parte da República. Enquanto as mulheres para saírem de casa precisavam da companhia do marido ou do irmão, Chiquinha abandonou o marido e trabalhava à noite tocando ao lado de músicos que a respeitavam.  Logo Chiquinha é perfeita para nos representar, mulheres brasileiras!

 

JP – Chiquinha também compôs inúmeras músicas para o carnaval.  Como era o carnaval da época da Chiquinha?
Só a Cabeça da Chiquinha para pensar em algo especial para nossa festa popular mais importante, O Carnaval!! Antes da composição Ô Abre Alas, a primeira composição Carnavalesca brasileira, grande criação da maestrina, se dançava Polca, Mazurka e Valsas nesses festejos. A própria maestrina compunha tangos e polcas carnavalescas.
Mas a nossa Chiquinha, vendo um ensaio do Cordão Rosa De Ouro, teve esta brilhante ideia: Porque não uma música especialmente para o nosso Carnaval? E a verdade é que Ô Abre Alas está aí até hoje, perpetuando a dona Francisca, e abrindo os blocos de nossa cidade.
JP – Você já teve uma experiencia na Marques de Sapucaí no ano de 1995. No homenagem a cantora lírica Bidu Sayão, você dividiu o carro de som com o intérprete Neguinho da Beija-flor. Como foi essa experiência de unir a música popular e a erudita?
A experiência que tive na Beija-Flor de Nilópolis foi uma das mais impactantes em minha vida. Primeiramente, ir aos ensaios em Nilópolis, ver o que significava a Escola para aquela comunidade.
Depois, a organização e seriedade. Ir aos barracões onde toda magia é construída. Uma verdadeira colmeia. Sob a batuta do Carnavalesco Milton Cunha, um gênio, cultíssimo e totalmente empolgado com o que estava criando. Fantástico!!!
E um pouco antes da Escola sair, o silêncio sepulcral de todos ali presentes. Senti-me como se estivesse na coxia do Theatro Municipal antes da estreia de uma ópera.  Fiquei totalmente arrepiada. Depois, na avenida ao lado do Neguinho da Beija-Flor, fazendo um vocalize sobre o refrão do samba enredo. Pode imaginar, toda aquela energia vinda das arquibancadas, o coração batendo forte e nós dois, lado a lado, samba e ópera, em total harmonia. Então pensei, é tudo igual, não tem diferença. A Arte brotando de nossas veias, empolgando aquela arena. E a Bidu Sayão, já com 90 anos, uma Diva da qual eu era fã, ali bem pertinho de mim, sendo homenageada em grande estilo. Jamais esquecerei este momento em minha vida!
JP – Como você avalia a sua carreira como soprano do Theatro Municipal do Rio de Janeiro?
O Theatro Municipal é minha casa. Amo estar lá. Já participei de muitas óperas e faço parte do corpo estável do TM, como cantora corista. Amo acordar e saber que irei para o teatro ensaiar, todos os dias. Não é trabalho, mas um presente. E estar lá permanentemente, me proporciona ver outras produções, não só de Ópera, mas de Ballet, grandes orquestras internacionais, instrumentistas fantásticos, cantores, figurinistas incríveis, costureiras, aderecistas, iluminadores, cenógrafos, é uma aula permanente, para quem, como eu, gosta de todo o processo.
JP – Quais são os seus compositores da música clássica preferidos? Justifique.

 Meu compositor preferido, sendo soprano lírico, claro que é Puccini, pela teatralidade da sua música, que funciona muito bem em minha voz.  Mas amo Wagner, apesar de pensar que suas óperas só deveriam ser no seu Teatro, o Bayreuth.   Lá é tudo tão perfeito que o cantor não tem que duelar com o metaleira da orquestração de Wagner. Acústica perfeita, onde tudo é pensado para que o cantor possa ficar livre, interpretar e ser ouvido sem sofrimentos. Mas arrisco a cantar algumas árias aqui, com o piano. Já fico feliz. Assim como Puccini, o que me encanta em Wagner é a forma teatral e visceral de suas composições.

 

JP – Quais são os seus projetos para o ano de 2025?
Tenho projetos em andamento, mas ainda não posso revelar. Mas tenho alguns concertos pelo Brasil, divulgando a obra do maestro e compositor Francisco Mignone. O concerto “Cartas de Amor de Francisco Mignone para sua Jô”. Uma pérola onde falo as cartas apaixonadas do Mignone para sua esposa amada, Josephina Mignone. É um concerto muito especial e emocionante. Não podemos esquecer deste gênio. E como a Jô faleceu no ano passado, com 101 anos, totalmente lúcida e ativa, resolvi fazer esta homenagem ao casal, mostrando o lado romântico e apaixonado do maestro. Já em março farei o concerto em São Paulo, na Sala inaugurada em homenagem à Jô, a sala Maria Josephina Mignone.

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Chico Vartulli

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Tags: Beija-Flor de Nilópolis Chiquinha Gonzaga Milton Cunha Theatro Municipal

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