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Bate-papo com Leandro Soares: um dos criadores mais inquietos da cena contemporânea

Chico Vartulli 31 de julho de 2025 8 minutes read
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meu convidado dessa semana é autor premiado, diretor versátil e ator de múltiplos registros. Leandro Soares atravessa um dos momentos mais intensos de sua carreira. Em cartaz no Teatro Ipanema com a comédia distópica e metalinguística A Coisa, ele divide a direção e o palco com George Sauma e André Dale. Leandro também assina a dramaturgia (que tem coautoria de André Dale) e mergulha no fazer teatral para provocar riso e reflexão. A peça foi construída a partir de três textos escritos e revisitados ao longo de quase duas décadas. A montagem investiga com irreverência os próprios fundamentos da cena: a atuação, a direção, a dramaturgia e, sobretudo, a impermanência.

Mas o teatro é apenas um dos campos onde Leandro se destaca. Recém-saído da finalização do roteiro de Se Eu Fosse Você 3, que será dirigido por Anita Barbosa, ele está escrevendo (em coautoria) outros três longas e prepara, para breve, dois solos de comédia e mais dois textos inéditos para os palcos. Criador do fenômeno Vai Que Cola e de séries como Nada Suspeitos, o artista carrega uma trajetória que transita com fluência entre o palco, a TV e o cinema — sempre com um olhar afiado para o humor e a condição humana.

Nesta entrevista exclusiva para a minha coluna  “Chico Vartulli’ na JP revistas, Leandro revisita sua formação dupla — jurídica e teatral —, comenta suas influências, fala sobre o processo de criação de A Coisa e reflete sobre o teatro como forma de resistência e presença num mundo cada vez mais mediado por telas. “Se o teatro nos ensina que a vida é efêmera, também nos ensina que a única arma contra a finitude é o agora”, diz ele, entre uma risada e uma sentença que poderia muito bem estar em cena. Aproveitem!

JP –  Como se deu o processo de escrita da peça “A Coisa”?

Foi um processo dividido em algumas etapas ao longo dos anos. Porque em 2006/7 eu escrevi um esquete chamado “A Coisa”, que apresentei com Rafael Queiroga e Niko nos festivais de esquetes. Num deles inclusive fomos premiados. Na mesma época eu tinha escrito “O Enigma” e a “A Máscara”, que ficaram inéditos. Ali por 2009/10 eu voltei a esses textos e transformei cada um deles numa peça em ato único. Ao longo dos anos eu ia voltando neles e lapidando mais um pouco, até que as voltas aos textos foram ficando rarefeitas, e eu fui esquecendo que eles existiam. Então, no final de 2024, inventamos uma leitura aqui em casa, e eu abri a gaveta. Lemos, foi arrebatador, e decidimos montar esses textos. Aí eu trabalhei mais um pouco neles. André Dale se juntou a mim nessa tarefa, e juntos escrevemos mais alguns solos e entreatos para costurar o espetáculo. A partir disso, nas leituras com George, fomos experimentando, propondo e chegamos ao texto final.

JP – Qual é o tema central da peça?

Antes de sabermos qual seria a peça, nós sabíamos que queríamos falar de teatro. Mas, de uma forma que conseguíssemos falar com todos, principalmente com quem não é de teatro. E tínhamos um grupo onde trocávamos vídeos com entrevistas e falas dos nossos mestres (alguns desses vídeos a gente exibe antes do espetáculo). E percebemos que, de tudo que eles falavam, havia um ponto recorrente: a intrínseca relação entre o teatro e a vida, com tantas características em comum — em especial a finitude. Um dos vídeos que nos marcou foi uma entrevista de José Wilker, em que ele diz que “O teatro é a forma de auto destruição mais criadora que existe”. Porque a gente faz um espetáculo toda noite e ele sempre acaba. E recomeça. E acaba. Até que uma hora a gente deixa de fazer aquele espetáculo. E ele acaba para sempre. E vem outro. Que acabará.

JP – A sua formação contempla o universo jurídico e o teatral. Você concilia os dois na sua vida profissional?

Conciliei somente na época da faculdade, quando eu fazia Direito na UERJ e Artes Cênicas na Unirio. Hoje em dia eu trabalho só com teatro e audiovisual, mas a formação jurídica me deu muitas ferramentas e profundidade tanto para a minha profissão, quanto para a minha postura como cidadão, minha visão política e meu entendimento de mundo. Inclusive nunca achei que fosse ver coisas que estudei na teoria, nas aulas de Direito Constitucional e Direito Internacional, acontecerem na prática. Gostaria de tê-las visto só nas aulas e nos manuais.

JP – Qual é a importância do Tablado para a sua formação?

Gigantesca. O Tablado nos ensina a ser “gente de teatro”, que é aquela pessoa formada no palco e seus arredores. No Tablado a gente fazia aulas semanais, mas logo se envolvia com a Mostra de Esquetes, os espetáculos de final de ano, acabava entrando para fazer o infantil em cartaz. E fazíamos contra-regragem, som, luz, atuávamos, dirigíamos. Tablado é tudo. No Tablado você experimenta todas as áreas do teatro na medida do seu próprio interesse, e vai entendendo onde você quer trabalhar, se com figurino, se com direção, se escrevendo etc.

JP – Quais são as suas referências (teóricas e práticas) no campo teatral?

Em termos de dramaturgia eu sou um apaixonado pelos clássicos: meu autor preferido é Shakespeare, mas gosto demais de Molière, Calderón de la Barca, Ibsen, Tchekhov, Oscar Wilde, Beckett, Brecht e Nelson Rodrigues. Além de ser um fã e estudioso inveterado da Commedia Dell’Arte, sem dúvida meu fenômeno teatral preferido. Tive uma formação teórica robusta na Unirio, onde estudei com grandes professores como Ângela Materno, José da Costa, Beti Rabetti, Flora Süssekind e Inês Cardoso, entre outros. No campo prático, fui aluno do Tablado; e o professor com quem passei mais tempo foi o saudoso Bernardo Jablonski. Além disso sou muito grato pela oportunidade de ter feito um workshop de direção com Judith Malina, que me fez repensar a relação do teatro com a plateia; e um workshop de atuação com Anatolij Vassiliev, com quem aprendi a enxergar a cena de maneira totalmente diferente.

JP – Escrever um texto para teatro é a mesma coisa que para o cinema ou TV? Ou há diferenças?

É bastante diferente. Mas é claro que existem elementos em comum. E isso também vai depender muito do tipo de teatro. Há dramaturgias mais tradicionais, com início, meio e fim, realistas, narrativas-representativas, que acabam podendo ser muito parecidas com um episódio de um seriado ou SITCOM. Mas o teatro é uma forma de expressão mais livre, então sua escrita pode se dar por mil caminhos distintos. Enquanto o audiovisual, a depender do gênero, tende a ser mais organizado dentro de seus conjuntos de códigos e convenções.

JP – Qual é a importância do “Vai Que Cola” para a sua trajetória?

Enorme. Tanto pelo convívio com grandes estrelas da comédia, com quem tiver a oportunidade de experimentar, desenvolver e afiar a minha escrita cômica, quanto pela rotina intensa e quase insana de entregas, que me ajudou a desenvolver bastante o “músculo” da criatividade e a capacidade de dar respostas rápidas — um valor crucial quando se trabalha em televisão.

JP – Quais são os seus projetos futuros?

Nesse momento está sendo lançado “Família, Pero no Mucho”, com Leandro Hassum, mais recente filme que escrevi para a NETFLIX, em parceria com Lucas Blanco e produção da Camisa Listrada. Também há mais dois longas já filmados, em cujo roteiro trabalhei, que lançam em breve: “Overman” (Migdal), baseado na obra de Laerte, e “O Cobrador de Fraque (Gullane)” — ambos dirigidos por meu parceiro e grande amigo Tomás Portella. Além disso acabei de escrever recentemente “Se eu Fosse Você 3” (Total Filmes), que será rodado agora em agosto, com direção da minha parceira e amiga Anita Barbosa. Para o teatro, estou preparando dois solos de comédia e mais dois textos originais que espero colocar em cartaz em breve.

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