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Vínculos e Saúde Mental: A Intersubjetividade como Base do Funcionamento Psíquico

Luiz Claudio de Almeida 13 de outubro de 2025 5 minutes read
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Por Guilherme Fainberg – Colunista convidado –  Médico e Psicanalista.

A clínica psicanalítica atual tem atendido  a algumas formas de sofrimento psíquico que não se encaixam nas classificações tradicionais.

    Muitas pessoas chegam ao consultório sem os sintomas claros, mas com a sensação de vazio, dificuldade de se relacionar e ausência de sentido.
   Nesses casos, não se trata apenas de um conflito psíquico, mas de uma falha na própria constituição do sujeito,  algo que aponta para experiências muito precoces, onde o vínculo com o outro foi marcado por falhas profundas.
   Desde Freud, sabemos que o psiquismo humano não nasce sozinho.    O bebê depende radicalmente de outra pessoa para sobreviver e, mais do que isso, para começar a organizar suas experiências.
   Freud já falava do desamparo como ponto de partida da vida psíquica. Sem um outro que nomeie, acolha e dê sentido ao que o bebê sente, não há como formar um Eu estável.
  O bebê precisa de alguém que funcione como uma espécie de “aparato auxiliar” para conseguir suportar e simbolizar o que sente.
O psicanalista húngaro Sándor
Ferenczi ( 1873-1933), um dos íntimos colaboradores de Sigmund Freud ( 1856-1939), pertencente à primeira geração da Psicanálise,  aprofundou  essa ideia ao mostrar que o trauma, muitas vezes, não vem de um excesso (de violência, de dor), mas da falta, da ausência de um adulto que consiga escutar e traduzir o mundo emocional da criança.
   Quando o adulto impõe sua lógica e ignora a realidade psíquica do bebê, acontece uma ruptura.
  A criança  cria uma adaptação defensiva, afastando-se de seu self mais verdadeiro. Winnicott chamaria isso mais tarde de “falso self”.
   Donald Winnicott ( 1896-1971) desenvolveu, então, a ideia de que o ambiente (especialmente o cuidador principal) tem papel fundamental na estruturação do psiquismo. Não basta estar presente fisicamente; é preciso perceber e responder emocionalmente às necessidades do bebê.
   Esse ambiente “suficientemente bom” permite que o bebê viva a ilusão de que o mundo responde a seus gestos e desejos — uma ilusão essencial para que ele possa se sentir real e integrado. Quando essa função falha, o bebê não consegue formar um self coeso.
O psicanalista britânico Wilfred Bion ( 1897-1979)  deu continuidade a esse pensamento e propôs que, para o bebê pensar e transformar suas experiências em algo compreensível, é preciso que o outro (geralmente a mãe) funcione como um “filtro” emocional.
  Essa função — que ele chama de rêverie ( sonho lúcido) — permite transformar sensações brutas e confusas em elementos que podem ser pensados.
 Quando o ambiente não oferece essa função, o bebê fica sobrecarregado com emoções que não entende, o que pode gerar confusão mental, somatizações ou comportamentos impulsivos. Nesses casos, o analista precisa, antes de interpretar, acolher e conter esse sofrimento ainda sem forma.
O psiquiatra egípcio André Green ( 1927- 2012)  trouxe uma contribuição importante ao pensar a clínica do vazio psíquico. Ele mostra que há situações em que o sofrimento não vem da perda de algo, mas daquilo que nunca foi internalizado.
  O sujeito não tem um objeto simbólico dentro de si — falta um registro emocional estruturante. Nesses casos, o que aparece é uma sensação constante de ausência, de vazio, que não pode ser simbolizado nem nomeado. É como se o mundo interno tivesse buracos onde deveria haver representações.
A psicanalista neozelandesa, Joyce McDougall ( 1920- 2011) ampliou esse entendimento ao mostrar como o corpo, as atuações e as perversões podem ser tentativas fracassadas de dar forma ao que não pôde ser simbolizado. Para ela, o funcionamento psíquico saudável depende da capacidade de fantasiar — de criar espaços internos onde os afetos possam circular, como no brincar, no sonhar, na arte. Quando essa “licença para fantasiar” está bloqueada, os afetos podem se transformar em sintomas corporais ou comportamentos que escapam à linguagem.
O que une todos esses autores é a ideia de que o sujeito humano não nasce pronto, nem se forma sozinho. O psiquismo é construído a partir da relação com o outro. É na intersubjetividade — nesse campo entre dois sujeitos — que se organiza a possibilidade de pensar, de desejar, de elaborar a angústia.
Por isso, a escuta psicanalítica, diante de pacientes que sofreram falhas precoces no vínculo, não pode se limitar à interpretação do inconsciente.    O setting analítico precisa funcionar como um novo ambiente, onde o paciente possa experimentar uma relação suficientemente segura para, pouco a pouco, começar a simbolizar o que antes era vivido de forma bruta e silenciosa. O analista, nesse contexto, é mais do que intérprete: é também continente emocional, mediador e testemunha de uma dor que ainda não encontrou palavras.
  Cuidar da saúde mental, então, não é apenas tratar os sintomas ou oferecer explicações. É possibilitar que o sujeito reencontre condições mínimas de simbolização e de relação com o próprio desejo — algo que só pode acontecer quando há um outro capaz de sustentar, reconhecer e transformar o sofrimento em experiência psíquica.

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