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Amar depois do ódio

Luiz Claudio de Almeida 11 de novembro de 2025 5 minutes read
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Por Guilherme Fainberg – Médico,  psiquiatra e psicanalista – Colunista convidado.
     Desde o início, somos feitos de afetos ambíguos. A alma humana é um campo de batalha em que amor e destruição convivem, e onde o gesto de acolher é sempre atravessado pela sombra do impulso de ferir.
    Sigmund Freud,  médico neurologista e psicanalista austríaco, reconhecido como o fundador da Psicanálise, percebeu que não há pureza no amor, pois ele se alimenta do conflito entre Eros (o deus grego do Amor) e Thanatos (o deus grego da Morte). Amar é também sublimação da destrutividade. O vínculo humano, esse laço tão desejado quanto temido, é o palco onde o ódio e o cuidado se misturam, onde o desejo de reparar nasce daquilo que antes foi ferido.
   A psicanalista austríaca Melanie Klein revelou que a inveja é o primeiro grito do ser. O bebê ama e odeia o mesmo seio. Quer possuí-lo, destruí-lo e, depois, restaurá-lo. Nessa oscilação, emerge a culpa, que inaugura o reconhecimento do outro como real. A culpa é o nascimento da ética, o momento em que o sujeito deseja reparar o dano causado.
   É no gesto de reconstruir o objeto amado que a humanidade começa. Shakespeare pressentia isso quando dizia que “a consciência faz de todos nós covardes”, pois saber que ferimos é o primeiro passo para desejar curar.
    O médico, pediatra e psicanalista Donald
Winnicott, herdeiro da ternura e da coragem, mostrou que o vínculo se constrói quando o ódio encontra sobrevivência. Quando o bebê destrói a mãe em fantasia e ela sobrevive sem retaliar, nasce a confiança. “A mãe suficientemente boa” é aquela que suporta o ódio do filho sem perder a ternura. Essa sobrevivência cria o espaço do amor. A experiência de ser acolhido, mesmo quando se odeia funda a possibilidade da integração.
   É nesse acolhimento que a raiva se converte em vitalidade, que o impulso destrutivo se transforma em criação. A raiva, longe de ser apenas sintoma, é também sinal de existência. Freud a compreendeu como expressão das pulsões agressivas inevitáveis, mas Winnicott e o psicanalista britânico,  Wilfred Bion a perceberam como matéria a ser pensada.      A função continente, em Wilfred  Bion, é a capacidade de transformar o caos emocional em pensamento, de metabolizar o indizível. O analista, como a mãe, é aquele que suporta o ódio projetado, permitindo que ele se converta em verdade emocional. É no acolhimento desse ódio que o amor se torna possível, pois amar, em sua forma mais madura, é reconhecer e sobreviver à destruição simbólica que todo encontro implica.
    Clarice Lispector dizia, “Sou antes o que pergunta do que o que responde”. A escuta analítica nasce desse não-saber. O analista acolhe o vazio do outro, sustentando o silêncio até que dele brote uma palavra viva.
   Fernando Pessoa escreveu que “sentir é estar distraído”, mas na análise sentir é o contrário: é estar presente à própria dor, sem distração. O vínculo analítico é uma convocação à presença, ao exercício de suportar o real do outro sem fuga. O acolhimento, nesse sentido, é uma arte: segurar sem prender, sustentar sem sufocar.
    Anna Freud compreendeu que as defesas do ego são tentativas de sobrevivência. Cada resistência, cada sintoma, é um modo de preservar algo da coesão psíquica frente à tempestade pulsional. A clínica é o espaço onde o sintoma se transforma em linguagem, a defesa em diálogo, o automatismo em escolha. Há poesia nisso, pois toda análise é uma história de amor interrompido que tenta ser contada. O paciente chega em pedaços, e o analista o testemunha, permitindo que a dor se converta em narrativa e, portanto, em vida simbólica. Viver é metabolizar o ódio em amor, o desamparo em vínculo, o caos em forma simbólica. A inveja se transforma em admiração, a culpa em ética, a raiva em vitalidade. O amor, como a análise, exige coragem: olhar o que se destruiu e tentar reparar, sabendo que a reparação é sempre imperfeita. Ainda assim, é nessa imperfeição que reside a beleza do humano.
   Clarice chamou isso de “a hora da estrela”, o instante em que o ser, mesmo na ruína, é visto e acolhido. Bion dizia que o pensamento nasce da frustração. Amar talvez seja isso: suportar o que o amor desperta de pior em nós. A inveja, a culpa e o ódio não são falhas morais, mas substâncias psíquicas que, trabalhadas, tornam-se criação. Só quem destruiu pode desejar reconstruir, só quem sentiu raiva conhece a doçura da ternura. O vínculo humano é uma corda tensa entre o abismo e o amparo, um esforço contínuo de permanecer com o outro sem se perder de si. Freud, ao fim de sua obra, reconheceu que o amor é o preço da consciência. Amar é renunciar à onipotência e aceitar o limite. No entanto, há algo que sobrevive a essa renúncia: a esperança silenciosa de ser compreendido. O acolhimento é essa esperança transformada em gesto. Não é consolo, é verdade. É o encontro entre duas solidões que, por um instante, se reconhecem e, nesse reconhecimento, curam-se mutuamente.
  E como disse Pessoa, “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. A alma humana, feita de inveja, culpa, raiva, reparação e amor, é grande precisamente porque é contraditória.         Amar depois do ódio é, talvez, o maior ato de criação que nos é concedido.

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