
Você sabe qual é a função de uma Tabeliã Titular? E o inventário familiar, ainda é uma coisa complicada? Essa semana trago um bate-papo delicioso e bem esclarecedor sobre alguns pontos da justiça. Minha entrevistada é a Tabeliã de Notas Titular do 21 Ofício de Notas da Capital do Rio de Janeiro, diretora da ANOREG Mulher, Assessora Especial da Presidência da ANOREG/RJ (Associação dos Notários e Registradores), Vanele Falcão. Confira que está uma delícia!
JP – Olá, Vanele! Qual é o balanço que você nos apresenta da sua trajetória como uma profissional do direito?
Minha trajetória no Direito sempre foi guiada por duas palavras: responsabilidade e propósito.
Fui Juíza de Direito do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, coordenei projetos acadêmicos e hoje atuo como professora na pós-graduação da UERJ e da Escola da Magistratura do Rio de Janeiro, além de exercer, mediante aprovação em concurso público, a função de Tabeliã titular do 21º Ofício de Notas da Barra da Tijuca, um dos maiores polos de desenvolvimento imobiliário e humano do Rio de Janeiro.
Olho para minha carreira com gratidão. O Direito me permitiu servir à sociedade em diferentes dimensões: primeiro solucionando conflitos e garantindo direitos pela jurisdição e, hoje, garantindo segurança jurídica pela prevenção, acompanhando famílias, empresas e pessoas em momentos decisivos de suas vidas.
Se eu pudesse resumir esse balanço, diria que minha trajetória me ensinou que o Direito só faz sentido quando melhora a vida real das pessoas — quando transforma, protege, acolhe e orienta.
JP – Como se deu a sua formação na área jurídica?
Minha formação é profundamente ligada à academia e ao serviço público.
Atualmente sou Pós-doutorado em Direito Civil e em Direito Processual Civil pela UERJ, onde também fiz o meu Mestrado e hoje sou professora de pós-graduação. A universidade foi fundamental para minha construção intelectual — ali aprendi a enxergar o Direito com profundidade teórica, rigor metodológico e compromisso social.
Além da formação acadêmica, a experiência como Juíza de Direito ampliou minha percepção sobre a complexidade dos conflitos e sobre a necessidade de prevenção.
Essa construção é aplicada no 21º Ofício de Notas do Rio de Janeiro. A formação jurídica, para mim, não termina nunca. Ela é contínua, porque a vida muda — e o Direito precisa acompanhar.
JP – Qual é a definição de Direito que você partilha?
Vejo o Direito como a engenharia da convivência humana. Ele organiza expectativas, estabiliza relações e permite que cada pessoa viva com dignidade e autonomia.
O Direito não é apenas um conjunto de normas — é linguagem, pacto social e ferramenta de cuidado. E no Notariado isso se revela de forma muito clara: quando alguém procura um cartório, ele não busca apenas um documento; ele busca segurança, clareza e paz nas suas decisões.
JP – Qual é a função do advogado na sociedade?
O advogado é um agente de racionalidade e proteção. É um elo essencial entre o cidadão e o sistema jurídico — e, quando atua com técnica e ética, evita conflitos, previne litígios e constrói soluções.
Hoje, na minha atuação como Tabeliã, tenho os advogados como parceiros estratégicos: trabalhamos lado a lado para estruturar grandes operações, organizar patrimônio, orientar famílias e assegurar que decisões importantes sejam tomadas com clareza e segurança jurídica.
JP – Como foi a sua experiência como Juíza de Direito do TJRJ?
Foi uma experiência profundamente enriquecedora. Como magistrada, aprendi a dimensão humana do conflito, a responsabilidade da decisão e a importância da escuta.
A atividade jurisdicional me ensinou que muitas disputas começam por falta de orientação; conflitos familiares poderiam ser evitados com prevenção e decisões judiciais têm impacto profundo na vida das pessoas.
Sempre dizia à minha equipe do Gabinete: “por trás do processo, tem gente”, para que entendessem a responsabilidade e a importância social das decisões judiciais.
Hoje, trago essa vivência para o Cartório: cada escritura, cada testamento, cada inventário extrajudicial é uma forma de prevenir litígios e oferecer às pessoas um caminho mais simples, mais digno e mais seguro.
No Judiciário, eu via conflitos instaurados. No cartório, posso atuar para que eles sequer se formem. Essa mudança de perspectiva é transformadora.
JP – Qual é o ramo do Direito que você se especializou? Qual foi o motivo do interesse?
Minha especialização é em Direito Civil, com ênfase em Famílias e Sucessões planejamento patrimonial e herança digital, tema do meu pós-doutorado, bem como em Direito Notarial e Registral Imobiliário.
Meu interesse por esse campo se deu porque ele lida com a vida como ela é: vínculos afetivos, patrimônio construído, proteção do futuro e autonomia da vontade.
Vivemos num mundo em que parte do patrimônio não cabe mais em gavetas — ele está na nuvem. Os bens digitais exigem uma nova leitura jurídica, e esse desafio me motivou a aprofundar o tema academicamente e na prática notarial.
JP – Qual é a função de uma Tabeliã Titular?
Como titular do Cartório, respondo juridicamente pela serventia. Além disso, minha função é orientar pessoas e famílias em decisões importantes, interpretar a vontade das partes com técnica e cuidado, conduzir a equipe do cartório com responsabilidade, representar institucionalmente o Cartório e promover serviços que unam tradição, inovação e proteção jurídica.
No Cartório 21, desenvolvi o conceito de Cartório Boutique, com um atendimento personalizado de alto nível técnico, cuidado humano, eficiência e modernidade para atender um público diversificado — famílias, empresas, investidores, artistas, atletas e pessoas que desejam organizar sua vida com segurança.
JP – O inventário familiar é visto como complicado e difícil de ser realizado. Essa visão ainda persiste?
Muita gente ainda enxerga o inventário como algo traumático, longo e complexo, mas essa visão não corresponde mais à realidade.
Com o inventário extrajudicial em cartório, tudo pode ser resolvido de forma muito mais rápida, eficiente e humana, desde que haja consenso entre os herdeiros e a assistência de um advogado.
O que mais dificulta um inventário não é o procedimento — é a ausência de planejamento e organização prévia.
JP – Quais são os principais problemas jurídicos que a família carioca enfrenta?
A família carioca enfrenta desafios muito semelhantes aos de todo grande centro urbano, mas com algumas características próprias, como a falta de organização documental. Muitos conflitos familiares começam por ausência de testamento, autocuratela, doações estruturadas ou simples desatualização de documentos.
Com o avanço da tecnologia, é comum os bens digitais serem desconsiderados. Um grande número de pessoas não sabe que suas contas digitais, plataformas, milhas, criptoativos e conteúdos online precisam ser incluídos no planejamento sucessório.
Há forte existência de imóveis irregulares ou com documentação incompleta. No Rio de Janeiro isso é especialmente comum — e impacta diretamente heranças, compras e vendas.
Outro ponto é a falta de conversas prévias sobre o futuro. As famílias evitam falar de velhice, incapacidade, dependência e morte, mas essas conversas são essenciais para evitar litígios e sofrimento.
Por último e, não menos importante, o crescimento de famílias recompostas. A pluralidade familiar exige atenção jurídica especial para evitar conflitos entre herdeiros de diferentes núcleos.
JP – Quais são os seus planos futuros?
Quero seguir fortalecendo o 21º Ofício de Notas do Rio de Janeiro como referência em inovação, técnica e cuidado humano. Acredito que o futuro do notariado é humano, tecnológico e profundamente responsável.
No campo acadêmico, continuarei pesquisando os efeitos da tecnologia, da inteligência artificial e dos bens digitais no Direito das Sucessões.
E, acima de tudo, quero continuar cumprindo meu propósito atual: proteger histórias e fortalecer a autonomia de cada pessoa.






