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Inteligência Artificial, crise do Trabalho e os limites da crítica progressista

Arlindenor Pedro 7 de janeiro de 2026 7 minutes read
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Por Arlindenor Pedro  –  Professor de História, Filosofia e Sociologia, editor do Blog Utopias Pós Capitalistas.
    Este texto adota como perspectiva metodológica a crítica categorial do capitalismo desenvolvida no interior da crítica do valor e da crítica do valor-dissociação. Partimos do pressuposto de que categorias como trabalho abstrato, valor, mercadoria e dinheiro não constituem fundamentos trans-históricos da vida social, mas formas historicamente determinadas de mediação social próprias do capitalismo. A inteligência artificial não é aqui, portanto, analisada como problema técnico, instrumento neutro ou simples desafio regulatório, mas como fenômeno histórico inscrito na crise estrutural da valorização.

      Nesse sentido, o artigo publicado na Revista Princípios sobre o Plano Nacional de Inteligência Artificial,  é tomado como objeto crítico não por eventuais fragilidades empíricas, mas por expressar de modo paradigmático um horizonte teórico imanente que busca administrar a crise contemporânea por meio da reafirmação da centralidade do trabalho, da soberania tecnológica e da regulação estatal.

O procedimento adotado consiste, então, em confrontar esse horizonte com uma crítica das categorias fundamentais da sociabilidade capitalista, incorporando a dimensão da dissociação entre a  valorização e a reprodução social,  conforme formulada por Roswitha Scholz e articulada à crítica da sociedade do trabalho desenvolvida por Robert Kurz e Moishe Postone. Lembramos que o debate contemporâneo sobre inteligência artificial no campo crítico brasileiro apresenta-se como plural, mas repousa sobre um núcleo comum raramente problematizado. Fala-se em precarização, vigilância algorítmica, colonialidade digital, soberania tecnológica e regulação. As divergências são reais, porém compartilham de um elemento comum:a aceitação tácita da centralidade do trabalho e do valor como formas sociais ainda válidas para organizar a reprodução da vida. E é precisamente esse pressuposto comum que realçamos aqui, e que precisa ser questionado para que a inteligência artificial possa ser compreendida em seu significado histórico.

À luz da crítica do valor, a inteligência artificial não aparece como simples inovação técnica nem como ferramenta ambígua a ser domesticada politicamente. Ela se revela como expressão avançada da crise da forma social fundada no trabalho abstrato, na mercadoria e no dinheiro. A automação baseada em algoritmos, aprendizagem de máquina e plataformas digitais não ameaça o trabalho a partir de fora, mas explicita uma contradição interna do capital. O capital depende do trabalho vivo como substância do valor, mas seu próprio desenvolvimento técnico tende sistematicamente a reduzir essa substância. A inteligência artificial, longe de inaugurar um novo ciclo progressivo, torna visível o esgotamento histórico da sociedade do trabalho.

Grande parte da literatura crítica recente, inclusive o artigo da Revista Princípios, insiste em afirmar que mesmo sob automação avançada o trabalho humano permanece essencial à criação de valor. Essa afirmação cumpre uma função ideológica decisiva, pois transforma uma forma histórica específica em fundamento ontológico da vida social. Como demonstrou Moishe Postone, o trabalho em Marx não é o princípio trans-histórico da emancipação, mas a própria forma de mediação social do capitalismo. Defender sua centralidade no contexto atual equivale a tentar preservar uma forma social que já não consegue integrar a sociedade.

O artigo da Princípios explicita esse limite ao afirmar que o valor estaria se deslocando para o conhecimento, a inovação e a organização da informação (cf. Silva; Rodrigues, 2025, p. 52). Trata-se de uma tentativa de salvar a teoria do valor-trabalho por meio de uma reetiquetagem da substância do valor. No entanto, conhecimento e informação não substituem o trabalho abstrato como fundamento da valorização. O recurso crescente a dados, monopólios, plataformas, financeirização e endividamento não constitui nova base sólida de valor, mas estratégias de compensação diante da crise da substância do valor.

Nesse contexto, propostas de inclusão produtiva, requalificação permanente da força de trabalho e educação para a economia digital funcionam como formas de gestão do excedente humano produzido pela própria dinâmica da valorização. Elas deslocam para os indivíduos a responsabilidade por uma crise estrutural, exigindo adaptação contínua a um sistema que já não pode oferecer integração estável. A promessa de que a tecnologia se tornará aliada do trabalho encobre o fato de que a sociedade do trabalho entrou numa crise histórica sem retorno.

A teoria da dissociação permite aprofundar esse diagnóstico. O capitalismo não se organiza apenas em torno da valorização, mas também por meio de uma dissociação estrutural que relega a reprodução social ao exterior da economia. Atividades fundamentais como cuidado, manutenção da vida, sustentação cotidiana e vínculos afetivos permanecem invisibilizadas e desvalorizadas, historicamente associadas ao feminino. A inteligência artificial, ao intensificar a produtividade abstrata, não liberta tempo para a vida, mas aprofunda essa dissociação, agravando a crise do tempo social e da reprodução.

Quando a crítica não atinge o nível categorial, ela se converte em ideologia de sobrevivência do capital. A inteligência artificial passa a ser tratada como ferramenta a ser humanizada, regulada ou redistribuída, quando na verdade expressa o esgotamento histórico da própria mediação social baseada no trabalho abstrato. A crise é então enquadrada como problema de transição mal administrada, déficit de políticas públicas ou atraso educacional, e não como limite histórico da forma valor. Com isso, a crítica abandona a questão da validade das categorias que estruturam a sociabilidade capitalista e concentra-se na administração de seus efeitos colaterais.

Num horizonte de emancipação que rompa com a mediação social pelo valor, pelo trabalho abstrato e pelo dinheiro, a inteligência artificial ocuparia um lugar radicalmente distinto. Ela deixaria de funcionar como máquina de valorização e de controle social e passaria a integrar um conjunto de meios técnicos subordinados conscientemente às necessidades concretas da vida. Isso pressupõe uma transformação qualitativa da própria forma de socialização, na qual a produção não seja orientada pela valorização abstrata, mas pela deliberação coletiva sobre o que produzir, como produzir e em que medida produzir. Nesse contexto, a inteligência artificial poderia contribuir para reduzir o dispêndio de tempo social necessário à reprodução material, apoiar processos de coordenação não mercantis e liberar capacidades humanas hoje aprisionadas na forma trabalho, sem instaurar uma nova centralidade técnica fetichizada.

Pensar a inteligência artificial de forma radical exige, portanto, abandonar a tentativa de salvar categorias que se tornaram historicamente destrutivas. Não se trata de democratizar o acesso ao trabalho digital nem de construir uma soberania tecnológica dentro da mesma lógica. Trata-se de reconhecer que a mediação social pelo valor atingiu seus limites históricos e que a inteligência artificial, longe de inaugurar um novo progresso, torna essa crise incontornável. Uma crítica à altura do presente não pode perguntar como adaptar a sociedade ao trabalho automatizado, mas deve questionar a própria centralidade do trabalho, do valor e do dinheiro como formas de mediação social. O horizonte de uma forma de socialização para além dessas categorias permanece aberto, mas recusar a gestão progressista do colapso já constitui um passo teórico e político fundamental.

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