
Estreou Minha Vó Ri no teatro do CCBB-RIO 3.
O monólogo é protagonizado pela atriz Julia Bernat.
O texto de Julia Bernat é uma aula-performance, contemporâneo, crítico, reflexivo, combatente, mescla pitadas de bom humor com momentos de tensionamento, navega na fronteira entre realidade e imaginário, história e ficção, ancestral, antimisógino, “antilesbofobia”, e valoriza a diversidade de gênero e sexual.
O texto parte sublinhando duas questões principais. A primeira diz respeito à memória e à ancestralidade, quando a autora recupera as suas avós maternas em tempos de infância, reforçando a importância das mesmas para a sua criação e formação, e valorizando a sua tradição familiar de origem judaica. A segunda diz respeito ao seu ativismo lésbico, quando a autora recupera uma figura histórica da luta pelos direitos das mulheres lésbicas: a cantora e compositora Leci Brandão e a música Questão de Gosto.
Memória, ancestralidade e ativismo político percorrem todo o texto, enlaçando a dramaturgia e costurando uma narrativa que mescla trajetória familiar, valorização da memória e dos antepassados, e orgulho lésbico. A dramaturgia adquire um tom político, na medida em que a autora utiliza o palco como espaço de resistência e permanência, e fala de forma livre e espontânea sobre a sua opção sexual e a sua inserção na comunidade lésbica.
O texto não segue uma linha cronológica nem apresenta uma linearidade. Nenhum demérito. Por outro lado, apresenta uma pesquisa profunda e bem realizada. Inclusive a atriz apresenta indicações bibliográficas sobre os temas tratados.
Julia Bernat tem uma atuação competente e digna de elogios. Ela profere uma aula-performance de qualidade, se configurando como uma “mestra-atriz” que narra um conjunto de histórias com uma clareza, uma linguagem de fácil compreensão, e argumentos simples. Atua sem apresentar maiores explicações do motivo de estar naquele espaço falando sobre aquele tema. Está porque o coração pede! Ela se entrega de corpo e alma, faz com verdades. Ela interpreta comoventemente, e também passa emoção. Ela fala com carinho e ternura dos seus antepassados, bem como das militantes lésbicas. Quando menciona uma de suas cuidadoras, Alcinéia, deixa transparecer intensa emoção. Há também momentos de tensão, quando lembra mulheres vitimas de violência, inclusive suas familiares judias. Recorda também de momentos na história favoráveis à diversidade sexual, como a República de Weimar, na Alemanha antes da ascensão do regime totalitário. Ademais, ainda dá uns toques de saúde mental, e de companheirismo, como a amiga que a inseriu e a acompanhou no Uber após uma festa regada a muita bebida.
Julia domina o texto, passando com firmeza, com desenvoltura e de forma despojada. Domina também o palco, se movimentando intensamente e ocupando todos os espaços. Ela canta também, com afinação e empolgação. Portanto, uma atuação digna de louvor e congratulações.
Complementam a atuação da atriz protagonista, em participação em vídeo, o grupo das “Meninas da Gamboa”, grupo de teatro integrado por senhoras que residem na região da Gamboa, e a mãe e tia da atriz, as cantoras Soraya Ravenle e Ithamara Koorax, interpretando uma canção em iídiche.
A diretora Débora Lamm, juntamente com a atriz, alinhou toda a tônica do espetáculo. O tom da apresentação é resultado do trabalho de parceria da dupla. Ademais, Débora colocou também foco no texto, deixando Julia a vontade naquela ribalta para atuar livremente.
A direção de movimento coube a Denise Stutz que imprimiu um bom ritmo à atriz, dando um dinamismo à sua apresentação, e a ocupação dos espaços do palco.
O figurino criado por Debora Crusy é simples, jovial, de bom gosto, e combina os tons azul e verde.
No nosso ponto de vista, o ponto fraco do espetáculo pois a proposta de uma aula-performance requer um figurino mais elaborado, elegante, de acordo com uma “mestra”, postura que a atriz assume em sua “aula”.
A cenografia criada por Elsa Romero se caracteriza pela clareza da disposição dos elementos cenográficos, pela predominância dos tons branco e cinza, e pela adequação ao tema.
Há um painel longo e duas telas brancas que funcionam como projeção das imagens exibidas que complementam a aula-palestra proferida pela atriz. As imagens projetadas são um correto recurso didático utilizado pela protagonista para ajudar na explicação da sua fala. Elas subsidiam a narrativa dos seus argumentos.
Ademais, há uma mesa com cadeiras que a atriz utiliza ao longo do espetáculo, seja para sentar, ou para subir na mesma. Portanto, a mesa é um espaço de atuação da atriz.
Há ainda um elemento cenográfico situado na parte dianteira do palco, um púlpito, onde estão os livros que a atriz apresenta como sugestão bibliográfica dos temas tratados.
A iluminação criada por Lara Siqueira apresenta um bonito desenho de luz, e contribui para realçar a interpretação da atriz de sua personagem. Ademais, a luz cria e marca o ritmo e o dinamismo do espetáculo. Ela varia de acordo com o contexto das cenas, complementando as falas da atriz e traz uma sensação. Por exemplo, quando a iluminação ocorre por meio do efeito de um globo de espelhos, somos transportados para um ambiente disco, quando a atriz recupera Rosely Roth — uma das realizadoras do Levante do Ferro’s Bar.
A trilha sonora apresenta uma rigorosa seleção, privilegiando cantoras lésbicas de diferentes gerações, como Leci Brandão, Marina Lima, Cássia Eller, Ludmila, entre outras, bem como a escolha dos trechos das letras das músicas interpretadas por essas cantoras dialogam com os assuntos tratados. As letras das músicas estão relacionadas ao contexto do texto.
Minha Vó Ri apresenta um texto claro e com uma profunda pesquisa, mesclando memória pessoal, ancestralidade e ativismo lésbico; uma atuação da atriz protagonista competente e merecedora de aplausos e elogios; e uma direção competente que deixou a atriz Julia Bernat livre para atuar e se expressar.
Excelente produção cênica!





