
Estreou Cão no teatro do CCBB-RIO 1.
O espetáculo é uma parceria inédita entre os grupos teatrais Clowns de Shakespeare (RN) e Magiluth (PE).
O texto de Giordano Castro e Fernando Yamamoto é uma fábula, tem como inspiração um texto de William Shakespeare, crítico, reflexivo, questionador, cômico com momentos de tensionamento, contemporâneo, cruzado por música ao vivo com instrumentos, pelo realismo fantástico, e denunciador da precarização das relações de trabalho.
O texto sublinha os desmandos a que estão submetidos os trabalhadores, no caso um grupo que trabalha na área de eventos, a partir do momento em que recebem a notícia do falecimento do presidente a ser empossado. Em função da posse do novo chamado Brutus Junior, que possui um cão chamado Coriolanus, o projeto iniciado a três dias
tem que ser todo refeito. Mudanças!
De forma autoritária, coercitiva e opressora, o grupo de trabalhadores teve que se submeter às forças dos poderosos e agir conforme as suas ordens. Tiveram que refazer tudo! Um caos total! Eles passaram a estar estressados, fatigados e explorados por pessoas dominadoras que passaram a impor as suas vontades de forma desmedidas, sem respeito aos direitos estabelecidos. Ainda assim resistiram!
Para não ter nenhum motim dos trabalhadores, nenhuma manifestação trabalhista, lhes foram concedidas horas extras
Dentre as alterações no projeto, como exemplo citamos a alteração da cor dos elementos cenográficos, de caramelo para fúcsia. Tiraram as capas e as poltronas. Foi inserida a maquiagem do cachorro, o “guia intelectual” do novo presidente a ser empossado. Em função das alterações, o maquiador teve que cobrar três vezes mais, além do adicional de salubridade. Por sua vez, a maestrina ficou indignada porque retiraram os instrumentos musicais do palco, e os colocaram nos bastidores.
O texto sublinha exploração dos trabalhadores pelos “dono do poder”, as decisões arbitrárias que são tomadas, os desmandos. E enfatiza que o trabalho é fruto da coletividade, nao produto de uma única pessoa. Valoriza o trabalho coletivo, em equipe, e as relações trabalhistas baseadas nos direitos estabelecidos!
O elenco tem uma atuação comovente e digna de elogios. Ele é integrado por Caju Dantas, Diogo Spinelli, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sergio Cabral, Olivia León e Paula Queiroz. Ele interpretam com qualidade, e emocionam. Ele estão hilários, fazendo o público sorrir e se divertir. E também fazem do riso um elemento de crítica, trazendo para o palco os conflitos da luta de classes, os embates entre os “patrões” e os trabalhadores, e as precárias relações de trabalho. Deixam também transparecer tensões no meio daquele caos.
Também cantam e tocam instrumentos, animando ainda mais a apresentação. Eles estão unidos, afinados e entrosados. Dominam o texto, passando-o com clareza, de forma despojada e descontraída, e com uma linguagem simples, típica dos trabalhadores, pessoas humildes. Dominam o palco, com intensa movimentação e preenchendo todos os espaços. Estabelecem uma boa comunicação com o público. Portanto, uma atuação deferida e merecedora de elogios.
A direção de Fernando Yamamoto e Lubi (Luiz Fernando Marques) realizou as marcações precisas e certeiras, dando uma direção à comovente interpretação do elenco de seus respectivos personagens. A direção deu um tom ao espetáculo que equilibra o riso com momentos de tensão, dando ao espetáculo um equilíbrio e um sentido.
Os figurinos criados por Maria Esther são simples, adequados e facilitam a movimentação dos atores pelo palco. São roupas do quotidiano de trabalhadores que estão construindo o palco para uma cerimônia presidencial.
A cenografia criada por Fernando Yamamoto, Luiz Fernando Marques, e Rogério Ferraz é original, criativa e bem pensada. Apresenta uma inversão: os bastidores ocupam a parte dianteira, e na parte traseira está o palco. Eles estão construindo a montagem. O pano que cobre impede o público de visualizar o palco, e só é retirado ao final.
A iluminação criada por
Ronaldo Costa apresenta um bonito desenho de luz, e contribui para realçar a interpretação dos atores de seus personagens. Ademais, a luz cria e marca o ritmo e o dinamismo do espetáculo. Ela varia de acordo com o contexto das cenas, complementando as falas dos atores.
Dramaturgia sonora criada por Ernani Maletta é adequada, apresenta bons ritmos, e contribui para o entendimento do espetáculo.
Os elementos cenográficos são criativos, como por exemplo a perna bem elaborada do presidente eleito falecido.
Cão é um espetáculo fruto da parceria bem sucedida de dois grupos teatrais; um elenco de qualidade e merecedor de aplausos; e cenografia, figurinos e iluminação formando um conjunto coerente e equilibrado.
Excelente produção cênica!






