Feminicídio no Brasil: O que está por trás dos números recordes?
Arlindenor Pedro
26 de janeiro de 2026

Por Arlindenor Pedro – Professor de História, Filosofia e Sociologia, editor do Blog, Revista Eletrônica e canal Utopias Pós Capitalistas.
Precisei resolver uma questão administrativa e tive que passar algumas horas nas dependências de um distrito policial em um município do Estado do Rio de Janeiro. Durante o tempo em que estive ali, algo me chamou, profundamente, a atenção: O fluxo constante de mulheres que entravam na delegacia para registrar denúncias.
Eram, em sua maioria, jovens. E, muitas, visivelmente abaladas, relatando violências cometidas por seus companheiros, namorados, ex-parceiros.
Um desfile silencioso de dor e de coragem, também. Todas apelavam para a Lei Maria da Penha e, por ela, eram acolhidas naquele espaço policial.
Dias depois, me deparei com a publicação de uma pesquisa do Ministério da Justiça, que apontava um dado estarrecedor. Quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil vítimas de feminicídio.
Dias depois, me deparei com a publicação de uma pesquisa do Ministério da Justiça, que apontava um dado estarrecedor. Quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil vítimas de feminicídio.
A leitura desse dado me transportou imediatamente à cena que presenciei na delegacia. Naquele momento, entendi, com mais nitidez que a violência contra mulheres não é exceção. É estrutural. Esses números não são meros acidentes estatísticos. Eles não apontam para uma “onda de violência” momentânea. Revelam algo muito mais profundo: A falência da forma social que organiza nossas relações, nossos afetos e nossas subjetividades.
Um fato que precisa ser analisado com maior profundidade, e fora dos clichês moralistas a que a mídia nos submete.
A partir dessa experiência concreta, comecei a me perguntar: O que esse número revela, de fato? Que tipo de sociedade permite que mulheres sejam assassinadas todos os dias apenas por serem mulheres? E, mais que isso: Por que esse número segue crescendo?
Os dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) confirmam uma tendência brutal. Em 2025, o país alcançou a marca recorde de 1.470 feminicídios, a maior desde que a lei passou a registrá-los. Foram 1.459 casos em 2024, 1.449 em 2023, 1.451 em 2022. A média de quatro mulheres mortas por dia se mantém com uma constância que grita.
Além disso, o Mapa Nacional da Violência de Gênero mostra que, só no primeiro semestre de 2025, já haviam sido registrados 718 feminicídios e 34 mil casos de estupro. Não é difícil imaginar o perfil predominante dessas vítimas: mulheres jovens, negras e periféricas, aquelas que vivem em lugares em que o Estado raramente chega com proteção, mas sempre aparece com repressão.
A filósofa Leni Wissen, em um texto marcante publicado em 2025, propõe uma leitura instigante da violência masculina como sintoma da crise do sujeito moderno. Segundo ela, o homem foi educado para ser autônomo, forte, invulnerável. Sua identidade foi construída em oposição à dependência, à fragilidade :ou seja, ao feminino. Mas à medida que a realidade concreta desmorona sob o peso da crise social, econômica e afetiva, esse sujeito entra em colapso.
E, o que acontece quando alguém formado para exercer controle absoluto percebe que perdeu o controle de tudo? Wissen responde: Ele entra em desespero. E o desespero, muitas vezes, vira violência. A mulher se torna o alvo simbólico. Ela representa tudo aquilo que o homem foi ensinado a reprimir em si mesmo, e que agora odeia ver refletido no outro. O feminicídio, nesse quadro, aparece como uma afirmação perversa de potência em uma vida marcada pela impotência real.
Essa leitura, já perturbadora em si, se torna ainda mais devastadora quando aplicada ao Brasil. Aqui, o capitalismo, um capitalismo retardatário e periférico, nunca cumpriu suas promessas de inclusão, cidadania ou estabilidade.
A partir dessa experiência concreta, comecei a me perguntar: O que esse número revela, de fato? Que tipo de sociedade permite que mulheres sejam assassinadas todos os dias apenas por serem mulheres? E, mais que isso: Por que esse número segue crescendo?
Os dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) confirmam uma tendência brutal. Em 2025, o país alcançou a marca recorde de 1.470 feminicídios, a maior desde que a lei passou a registrá-los. Foram 1.459 casos em 2024, 1.449 em 2023, 1.451 em 2022. A média de quatro mulheres mortas por dia se mantém com uma constância que grita.
Além disso, o Mapa Nacional da Violência de Gênero mostra que, só no primeiro semestre de 2025, já haviam sido registrados 718 feminicídios e 34 mil casos de estupro. Não é difícil imaginar o perfil predominante dessas vítimas: mulheres jovens, negras e periféricas, aquelas que vivem em lugares em que o Estado raramente chega com proteção, mas sempre aparece com repressão.
A filósofa Leni Wissen, em um texto marcante publicado em 2025, propõe uma leitura instigante da violência masculina como sintoma da crise do sujeito moderno. Segundo ela, o homem foi educado para ser autônomo, forte, invulnerável. Sua identidade foi construída em oposição à dependência, à fragilidade :ou seja, ao feminino. Mas à medida que a realidade concreta desmorona sob o peso da crise social, econômica e afetiva, esse sujeito entra em colapso.
E, o que acontece quando alguém formado para exercer controle absoluto percebe que perdeu o controle de tudo? Wissen responde: Ele entra em desespero. E o desespero, muitas vezes, vira violência. A mulher se torna o alvo simbólico. Ela representa tudo aquilo que o homem foi ensinado a reprimir em si mesmo, e que agora odeia ver refletido no outro. O feminicídio, nesse quadro, aparece como uma afirmação perversa de potência em uma vida marcada pela impotência real.
Essa leitura, já perturbadora em si, se torna ainda mais devastadora quando aplicada ao Brasil. Aqui, o capitalismo, um capitalismo retardatário e periférico, nunca cumpriu suas promessas de inclusão, cidadania ou estabilidade.
Como destaca o teórico alemão Robert Kurz, vivemos sob uma modernização negativa, que destrói sem construir, precariza sem reorganizar.
Em um país marcado por desigualdade estrutural, racismo sistêmico e colapso das redes de proteção social, a crise do sujeito masculino assume contornos explosivos.
Em um país marcado por desigualdade estrutural, racismo sistêmico e colapso das redes de proteção social, a crise do sujeito masculino assume contornos explosivos.
A masculinidade tradicional não desaparece. Ela se transforma em ressentimento, raiva, agressividade difusa. E, o corpo da mulher se torna o campo de batalha dessa frustração.
A filósofa Roswitha Scholz oferece, nesse caso, outra chave analítica decisiva. Segundo ela, o capitalismo se estrutura a partir de uma dissociação entre o valor (associado ao masculino, à produção) e a reprodução (associada ao feminino, ao cuidado, ao corpo). Essa cisão foi naturalizada pela modernidade patriarcal e se torna ainda mais violenta em tempos de colapso.
No Brasil, essa dissociação se traduz em abandono. O feminino dissociado é descartável, violável, disponível. E quando se recusa a cumprir esse papel, quando rompe com a obediência, quando tenta sair de uma relação abusiva, vira alvo da violência letal. O feminicídio é, muitas vezes, a punição final por uma tentativa de liberdade.
Enquanto a violência cresce, uma transformação silenciosa também acontece. As mulheres estão se tornando o pilar econômico de muitas famílias. Dados recentes indicam que mais da metade dos lares brasileiros é chefiada por mulheres, e que grande parte dessas chefias ocorre sem a presença de um parceiro homem.
Essa mudança se deve à maior participação feminina no mercado de trabalho e, também, à crise prolongada do emprego formal, à queda da renda masculina e à substituição de funções patriarcais tradicionais por estratégias de sobrevivência feminina.
A filósofa Roswitha Scholz oferece, nesse caso, outra chave analítica decisiva. Segundo ela, o capitalismo se estrutura a partir de uma dissociação entre o valor (associado ao masculino, à produção) e a reprodução (associada ao feminino, ao cuidado, ao corpo). Essa cisão foi naturalizada pela modernidade patriarcal e se torna ainda mais violenta em tempos de colapso.
No Brasil, essa dissociação se traduz em abandono. O feminino dissociado é descartável, violável, disponível. E quando se recusa a cumprir esse papel, quando rompe com a obediência, quando tenta sair de uma relação abusiva, vira alvo da violência letal. O feminicídio é, muitas vezes, a punição final por uma tentativa de liberdade.
Enquanto a violência cresce, uma transformação silenciosa também acontece. As mulheres estão se tornando o pilar econômico de muitas famílias. Dados recentes indicam que mais da metade dos lares brasileiros é chefiada por mulheres, e que grande parte dessas chefias ocorre sem a presença de um parceiro homem.
Essa mudança se deve à maior participação feminina no mercado de trabalho e, também, à crise prolongada do emprego formal, à queda da renda masculina e à substituição de funções patriarcais tradicionais por estratégias de sobrevivência feminina.
O paradoxo é cruel. As mulheres acumulam sobre si o peso do cuidado, do sustento e ainda se tornam vítimas da violência daqueles que não suportam sua autonomia crescente.
De acordo com o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM 2025), as mulheres chefes de família são maioria entre os mais pobres, enfrentam os maiores índices de informalidade e recebem, em média, cerca de 22% menos que os homens. Mesmo assim, sustentam seus lares, muitas vezes, sozinhas.
Esse deslocamento econômico não foi acompanhado por uma reconfiguração simbólica das relações de poder. O homem perde o “lugar de provedor”, mas não perde o privilégio social da dominação. E quando se sente ameaçado em seu poder, a resposta pode ser violenta e fatal.
Cada feminicídio é mais do que um crime, é um sinal de alerta de uma sociedade em ruínas. O silêncio diante desses assassinatos é ensurdecedor, e em certa medida, cúmplice.
Não se trata apenas de “educar para o respeito”, nem de criar leis mais rígidas (a Lei Maria da Penha já é avançada). Trata-se de questionar radicalmente o modelo de masculinidade que o capitalismo produziu. E, que, agora, implodiu. Trata-se de repensar o que significa ser homem, ser mulher, ser sujeito em um mundo onde os vínculos sociais, afetivos e econômicos estão sendo corroídos.
A cada dia, quatro mulheres são assassinadas no Brasil por seus companheiros ou ex-companheiros. Elas morrem por existirem.
E nós, o que estamos dispostos a fazer com essa verdade?
contato@ utopiasposcapitalistas.com
De acordo com o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM 2025), as mulheres chefes de família são maioria entre os mais pobres, enfrentam os maiores índices de informalidade e recebem, em média, cerca de 22% menos que os homens. Mesmo assim, sustentam seus lares, muitas vezes, sozinhas.
Esse deslocamento econômico não foi acompanhado por uma reconfiguração simbólica das relações de poder. O homem perde o “lugar de provedor”, mas não perde o privilégio social da dominação. E quando se sente ameaçado em seu poder, a resposta pode ser violenta e fatal.
Cada feminicídio é mais do que um crime, é um sinal de alerta de uma sociedade em ruínas. O silêncio diante desses assassinatos é ensurdecedor, e em certa medida, cúmplice.
Não se trata apenas de “educar para o respeito”, nem de criar leis mais rígidas (a Lei Maria da Penha já é avançada). Trata-se de questionar radicalmente o modelo de masculinidade que o capitalismo produziu. E, que, agora, implodiu. Trata-se de repensar o que significa ser homem, ser mulher, ser sujeito em um mundo onde os vínculos sociais, afetivos e econômicos estão sendo corroídos.
A cada dia, quatro mulheres são assassinadas no Brasil por seus companheiros ou ex-companheiros. Elas morrem por existirem.
E nós, o que estamos dispostos a fazer com essa verdade?
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