
Meu convidado dessa semana é o premiado e renomado fotógrafo italiano Mario Amura. Nascido em Nápoles, sua formação começou no Centro Sperimentale di Cinematografia, onde frequentou as aulas do mestre Giuseppe Rotunno. De lá pra cá, foi responsável pela direção de fotografia de várias obras cinematográficas apresentadas nos mais prestigiados festivais internacionais – Cannes, Berlim e Veneza. Em 2003, recebeu o Prêmio David di Donatello da Academia Italiana de Cinema pelo curta-metragem Racconto di Guerra, ambientado na Sarajevo sitiada de 1996.
Desde 2005, trabalha no projeto StopEmotion, com o qual inicia uma pesquisa fotográfica voltada para a fragmentação da linearidade do tempo cronológico em picos emocionais. O tempo, assim, se purifica, deixa de ser uma medida e se torna um objeto concreto cuja essência é a visibilidade das emoções. Com a técnica do StopEmotion, reuniu material fotográfico na Bósnia, Índia, China rural, Camboja, Sri Lanka, América Latina, Inglaterra e França. Seus projetos de fotojornalismo são marcados pela necessidade de amadurecimento ao longo de extensos períodos de tempo, permitindo que a experiência se deposite em cada imagem. Desde 2007, trabalha no projeto Fujenti, que se encontra em andamento.
JP – Quando teve início o projeto Napoli Explosion? Qual é a sua origem?
Napoli Explosion nasce de uma relação direta e física com a paisagem em que cresci. Nápoles é uma grande cidade construída ao lado de um vulcão ativo e, para quem vive ali, essa presença nunca é abstrata: faz parte da vida cotidiana, mesmo quando não se pensa nela. Em 2006, passei a noite de Ano-Novo no próprio Vesúvio, quase no topo. À meia-noite, enquanto o céu sobre a cidade se enchia de fogos de artifício acesos por milhares de pessoas, eu sentia claramente sob as solas dos sapatos a massa do vulcão, sua energia contida, a potência imóvel da câmara magmática. Nesse contraste senti o projeto nascer: de um lado, as explosões humanas, frágeis e efêmeras, destinadas a se apagar em poucos segundos; do outro, uma força natural imensa, silenciosa, comprimida, que permanece ali por séculos. Tive a sensação de que aqueles fogos não eram apenas uma celebração, mas uma resposta coletiva, instintiva, quase um gesto de alívio diante de um medo profundo, ligado ao vulcão e à passagem do tempo. Alguns anos depois, encontrei o ponto de observação adequado para transformar essa intuição em um projeto fotográfico, observando e fotografando a cidade que explode em luz enquanto o vulcão, no centro da imagem, permanece imóvel. A partir daí, Napoli Explosion tornou-se um trabalho de longa duração, uma pesquisa que utiliza o Ano-Novo para narrar a relação entre as pessoas, a luz e uma força natural que continua presente mesmo quando silencia.
JP – Que tipo de fotografias você expõe na mostra?
As fotografias de Napoli Explosion nascem de um acontecimento real, mas o resultado visual se afasta da descrição literal. Elas não narram o que acontece de maneira direta. O que emerge é sobretudo luz, cor, movimento, uma matéria que às vezes parece natural, quase orgânica. À primeira vista, podem evocar paisagens, fundos marinhos, céus, formas sem um nome preciso. Apenas em um segundo momento se descobre que essas imagens provêm de uma noite de Ano-Novo, de milhares de fogos acesos no mesmo instante por uma cidade inteira. O que me fascina é esse duplo nível da imagem: uma abstração que contém uma história concreta, feita de pessoas, de tempo e de festa. As fotografias permanecem em equilíbrio entre figuração e abstração, sem escolher definitivamente um caminho, deixando ao olhar de quem observa a liberdade de se mover entre esses dois planos.
JP – Além das fotografias, a exposição inclui um vídeo-documentário. Como você relaciona fotografia e audiovisual na mostra?
As fotografias são pensadas como obras autônomas, capazes de existir sem a necessidade de explicações ou indicações externas. Por isso, também os títulos são reduzidos ao essencial e não sugerem chaves simbólicas de leitura. O vídeo-documentário opera em um plano diferente. Ele não interpreta nem traduz as imagens, mas narra aquilo que as antecede e as envolve: o contexto, a espera, o frio, o ruído, a dimensão coletiva daquela noite. A fotografia concentra a experiência em uma imagem que suspende o tempo e frequentemente o transforma em abstração, enquanto o vídeo restitui o tempo que passa, a duração e a fisicalidade da vivência. De um lado, a busca pelo sentimento da luz; de outro, o relato do processo por trás do projeto artístico. As duas dimensões convivem sem se sobrepor, oferecendo ao espectador múltiplos pontos de acesso à obra.
JP – Por que o Ano-Novo de Nápoles te fascina e merece ser fotografado?
O Ano-Novo é um acerto de contas. O ano que termina é conduzido até a porta, o novo é recebido com ruído e luz. Em Nápoles, essa passagem não é silenciosa. É um ato coletivo. A cidade se ergue e acende o céu, não para decorá-lo, mas por necessidade. Os fogos não são ornamento, são uma tomada de palavra. Milhares de mãos realizam o mesmo gesto no mesmo instante. Fotografar essa noite significa estar diante de um corpo comum que se move, que descarrega energia, que se liberta do que acumulou. Não é espetáculo. É um trabalho sobre o tempo, feito com a luz.
JP – Quais são as semelhanças e as diferenças entre o Ano-Novo de Nápoles e o de Copacabana?
Nápoles e Rio se reconhecem. São cidades marítimas, cidades nas quais o corpo, a voz e a cor têm um papel central na maneira de estar junto. A festa não é uma exceção, é uma condição emocional que ambas frequentam há muito tempo e da qual são soberanas. No Ano-Novo, essa linguagem se transforma em luz e, em ambos os casos, o céu se acende e a cidade se reúne. A diferença está no papel das pessoas. No Rio, há quem prepare o espetáculo e quem o assista; os fogos são confiados a mãos experientes e a cidade os acompanha. Em Nápoles, não há separação. Não existem artistas e público. É a própria cidade que se apresenta. Centenas de milhares de pessoas realizam o mesmo gesto ao mesmo tempo, cada uma a partir do seu ponto, sem um centro. É uma performance coletiva, desordenada, poderosíssima. Por isso Napoli Explosion encontra no Rio um terreno natural. As duas cidades compartilham a mesma forma de atravessar a passagem do ano: confiá-la à luz, ao ruído, a um gesto comum. A forma muda, não a urgência.
JP – Como você retrata o Vesúvio em suas fotografias?
O Vesúvio é o símbolo de Nápoles e, na história da arte, foi quase sempre representado à noite como um triângulo colorido pela lava que o envolve, memória visual de uma de suas múltiplas erupções. É a imagem do fogo que desce da montanha e domina a paisagem. Nas noites de Ano-Novo acontece o oposto. O vulcão permanece imóvel, escuro, silencioso. Quem explode é a cidade ao seu redor. A luz já não sobe da terra, vem dos homens. Nessas fotografias, o Vesúvio se torna uma forma negra imersa em um mar de cores, uma presença que não age, mas observa. É uma inversão do imaginário tradicional: não é o vulcão que domina a cidade, é a cidade que, por uma noite, assume para si a energia da erupção.
JP – O que você mais gosta de fotografar?
Meu trabalho é sempre orientado a capturar um fragmento da realidade, mesmo quando essa realidade é depois sublimada na imagem. Interessa-me aquilo que acontece independentemente de mim: um evento, um gesto, um instante que existiria de qualquer forma, mesmo que eu não estivesse ali para observá-lo. É aí que reconheço a força da fotografia do real, na possibilidade de se narrar por meio de algo que não te pertence, que não nasce de você, mas que você atravessa com o olhar. Fotografar significa estar diante do que acontece com atenção e disponibilidade, deixando que o tempo trabalhe sobre a imagem. Mesmo quando o resultado se afasta da descrição e se aproxima da abstração, a origem permanece concreta, física, real. O que busco não é o instante isolado, mas uma duração, um fluxo que se concentra ou se dilata através da luz, do movimento e da exposição. Nesse sentido, a fotografia se torna um testemunho: não do que eu vi, mas do que passou diante de mim e deixou uma marca.
JP – Quais são os seus projetos futuros?
Há décadas trabalho em projetos ainda inéditos que exploram as fronteiras entre fotografia e cinema, buscando entrelaçar a fixidez do tempo da imagem fotográfica e o fluxo do tempo fílmico, uma pesquisa que desenvolvo também por meio da técnica StopEmotion, com a qual trabalho o tempo como matéria visível e emocional. Um desses projetos é Sleepers, que explora o sono dos que dormem nas ruas de Nova Délhi. Outra longa viagem, iniciada em 2010, percorre a China mais pobre, enquanto desde 2012 venho tecendo um relato visual sobre os Fujenti, os devotos do culto à Madonna dell’Arco, acompanhando o mesmo ritual ao longo de muitos anos para narrar a transformação nos rostos dos fiéis: meninas que se tornam mulheres, homens que se tornam idosos. O ponto comum de todos esses trabalhos é a documentação da realidade por meio de um olhar empático, com a ambição de envolver tanto o público quanto o mundo da arte.






