
Henrique Pinheiro
Economista e Produtor Executivo de Cinema.
“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”
Assim termina Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
A frase é ácida, quase cruel.
Mas é também um retrato do Brasil.
Machado escrevia sobre uma elite imperial segura de si, convencida de sua
superioridade moral, distante da rua, indiferente à sorte dos recém-libertos e
protegida por herança, sobrenome e relações de influência.
Brás Cubas não precisava produzir.
Vivia de rendas, de prestígio, de aparências.
O trabalho era para os outros.
A virtude era uma encenação social.
Nos salões do século XIX discutia-se filosofia, mas não se discutia desigualdade.
A escravidão era naturalizada.
A pobreza, um detalhe incômodo.
Mudamos de regime, mudamos de século, mas será que mudamos de lógica?
Hoje falamos em mercado, em banqueiros, em juízes, em taxa Selic e em política monetária.
A linguagem mudou.
A estrutura social nem tanto.
O Brasil convive há décadas com juros estruturalmente elevados.
Essa engrenagem produziu uma classe de rentistas sofisticados, protegidos por títulos públicos generosos e pela segurança de um Estado que remunera o capital com rigor matemático.
Enquanto isso, quase metade da população adulta convive com algum nível de inadimplência.
Milhões lutam para pagar juros que, na prática, sustentam a rentabilidade de uma elite financeira, abrigada sob taxas impagáveis para quem produz.
O crédito produtivo encarece, o investimento real se retrai, e o empreendedor comum paga a conta.
No século XIX, a elite se protegia atrás da escravidão.
No século XXI, protege-se atrás da rentabilidade financeira.
Em ambos os casos, o abismo social não é acidente. É projeto.
O Brasil mudou de século, mudou de vocabulário, mudou de fachada.
Mas continua premiando quem vive da renda e penalizando quem vive do trabalho.
A engrenagem segue intacta.
A miséria apenas trocou de nome.


