
Henrique Pinheiro
Economista e produtor executivo de cinema.
Acordei indignado.Não é a primeira vez.Mas, hoje a sensação foi mais densa, quase física. Bastou abrir os noticiários.
O país mergulhado no carnaval. Como se, mais uma vez, a festa funcionasse como anestésico coletivo.
As mazelas estruturais empurradas para o segundo plano.
Dívida crescente, concentração de renda, deterioração institucional —
tudo abafado pelo brilho dos desfiles e pela euforia patrocinada.
A grande mídia cumpre seu papel com eficiência.Seleciona, enquadra, distrai.
Desde muito jovem ouvi meu pai repetir que o Brasil era um país de estruturas carcomidas.
Ele falava com a autoridade de quem havia estado dentro delas.
João Pinheiro Neto, advogado, economista, ministro do Trabalho e da Reforma Agrária no governo João Goulart.
Cassado pelo golpe de 1964.Preso antes de conseguir negociar o próprio exílio. Durante anos, repetiu aos filhos:
“Vão embora. Tentem a vida no exterior.”
Era menos um conselho e mais um diagnóstico.
Eu era jovem demais para compreender. Achava que seus inimigos eram os militares. Os homens fardados que o encarceraram e o baniram da vida pública por duas décadas.
O tempo tratou de me ensinar outra coisa.
Quando comecei a trabalhar no mercado financeiro — por imposição dele, “você vai para o lado dos que sempre ganham”, dizia —
descobri que a estrutura a que ele se referia não vestia farda.
Vestia terno. Frequentava os conselhos. Controlava crédito, dívida, informação. Os militares obedeciam.
Os tecnocratas organizavam. O capital financiava.
Seis décadas depois, a engrenagem apenas se sofisticou. Ao sistema financeiro somou-se o poder avassalador do agronegócio. A terra consolidada como ativo absoluto. Intocável.
Justamente a terra que meu pai ousou tocar. Ao aceitar o convite de Jango para comandar a Reforma Agrária, procurou Juscelino Kubitschek por respeito e lealdade de quem o iniciou na política. Ouviu dele uma advertência que soava quase como sentença.
“- João, mexa com a mulher de um homem, com a sua honra, mexa com o
seu dinheiro, mas não mexa com sua propriedade, com sua terra.”
Ele mexeu. Tentou criar uma classe média rural. Dar ao camponês direito, dignidade, perspectiva. Fracassou.Ou foi impedido de tentar. Hoje, a classe média urbana se esfarela.
O campo concentra. O capital se multiplica.
Os donos da terra continuam donos do país. Mudaram os personagens.
A lógica permanece. Escrevo dos Estados Unidos, onde vivo há mais de vinte anos, em uma espécie de autoexílio voluntário, observando à distância a repetição do ciclo. Nada é improviso. Nada é acidente histórico. É método.
Meu pai viu essas entranhas há 60 anos. Alertou. Pagou o preço. O Brasil seguiu. Eu fiquei. Depois parti.
Hoje entendo que seu conselho não era para a desistência. Era uma constatação.
E, talvez, o mais doloroso não seja perceber que ele tinha razão. E, sim perceber que, apesar de tudo,
a estrutura continua intacta.


