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Resistências, autonomias e lutas sociais no Brasil de hoje – uma resenha analítica

Arlindenor Pedro 22 de fevereiro de 2026 6 minutes read
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Por Arlindenor Pedro –  Professor de História, Sociologia e Filosofia, editor do Blog, Revista Eletrônica e canal YouTube Utopias Pós Capitalistas.
    O Brasil atravessa uma época de transição histórica profunda. Entre ruínas institucionais, promessas frustradas e rearticulações autoritárias, o debate sobre autonomia, organização e emancipação volta ao centro da cena. É nesse terreno movediço que se insere o livro Resistencias, autonomías y luchas sociales en el Brasil de hoy ( título original, em espanhol) , com entrevistas e publicado pela editora chilena Pensamiento & Batalla,  no início de 2026  .       A obra não pretende neutralidade acadêmica. Trata-se de um documento militante, um mapa político do chamado campo autônomo brasileiro no ciclo histórico aberto pelas jornadas de Junho de 2013.
Desde a apresentação, o livro se posiciona com clareza. Seus organizadores afirmam que o polo da autonomia proletária permanece pequeno, fragmentado, mas existente, em contraposição à esquerda integrada ao Estado, cujo principal referente é o Partido dos Trabalhadores .
     A narrativa sustenta que, durante as jornadas de 2013, esse campo autônomo cumpriu papel decisivo na radicalização das mobilizações, enquanto a esquerda institucional produziu a narrativa de que tais levantes teriam alimentado a ascensão da extrema direita.
      Não estamos diante de um relato conciliador, mas de uma disputa de memória sobre o sentido histórico de 2013.
A estrutura da obra é coerente com essa intenção. Após a apresentação e um prólogo analítico que interpreta o período 2013 a 2025 como ciclo de insurgência e restauração, seguem dezessete entrevistas com coletivos distribuídos pelo país, culminando em um epílogo reflexivo. O método da entrevista expressa uma opção política pela valorização da experiência concreta e pela recusa de uma autoridade teórica exterior às lutas. Ao mesmo tempo, essa escolha produz um mosaico fragmentado que exige do leitor capacidade de síntese crítica.
As entrevistas revelam uma tensão recorrente na esquerda brasileira das últimas décadas. Militantes oriundos do ciclo de lutas que formou o PT e o MST relatam como a aposta na radicalidade da ação direta buscava tensionar programas reformistas, acreditando que a prática combativa poderia transformar o conteúdo dos próprios movimentos  . Contudo, o livro relata, que após a chegada do PT ao governo em 2002, o que observou-se foi um processo de integração institucional e refluxo das lutas. O MST, que nos anos noventa alimentava imaginários insurrecionais, teria se convertido, por exemplo, em instrumento de contenção em 2013  . A chamada Carta dos 51 simboliza essa ruptura interna  .
Um dos pontos mais provocativos do livro é a crítica à chamada acumulação organizativa. Não se trata da denúncia clássica da ausência de trabalho de base, mas da percepção de um excesso de organizações que passam a competir entre si, reproduzindo lógicas de gestão e controle.
      A acumulação de forças teria se convertido em acumulação de contenção.         Essa formulação é poderosa, mas exige um debate mais aprofundado com as categorias centrais do marxismo.
A noção de luta de classes, por exemplo, aparece de forma explícita em diversos momentos dos depoimentos , mas carece de elaboração sistemática, dado que na contemporaneidade é visível o desaparecimento dos enormes contingentes operários que não mais são necessários ao capitalismo da terceira revolução tecnológica.
    Os depoimentos do livro não aprofundam suficientemente esta questão, notadamente no campo da estrutura de classes brasileira, marcada por dependência, financeirização e informalidade estrutural, deixando vazio e sem força o conceito avocado de sujeito histórico de vanguarda,na chamada Revolução Brasileira. Estamos diante de uma realidade que exige um sujeito emancipador ou estamos diante de um sistema de dominação abstrata que nos domina através de estruturas invisíveis,moldando a nossa existência para um processo de consumo ininterrupto?
       É visível,então, que no Brasil contemporâneo, com a fragmentação do trabalho, a precarização e a hegemonia do setor de serviços, esta questão se torna complexa e precisa ser desvendada.
Já no final do livro, com a seção dedicada à Crítica Radical, vimos que eleva-se este debate no plano categorial , quando este coletivo formula seus conceitos.
       Inspirada na tradição da crítica do valor, ela sustenta que o capitalismo não apenas produz mercadorias, mas produz sujeitos moldados para a lógica mercantil . Para ela ela o limite do capital seria então o próprio capital: expressão que remete à compreensão da crise como imanente à forma social fetichista .Ao qualificar o sistema como fetichista patriarcal produtor de mercadorias, a análise do coletivo Critica Radical de Fortaleza integra gênero, economia e subjetividade numa crítica civilizacional ampla, o que nos leva a reflexões em outros planos , como por exemplo o papel da mulher na formação do valor e o caráter patriarcal e de dissociação neste processo.
A reconstrução histórica ali apresentada rejeita as ilusões desenvolvimentistas. A divisão entre Primeiro Mundo, Segundo Mundo e Terceiro Mundo, consolidada no pós guerra, para a Crítica Radical, não teria superado a forma valor .Tanto o capitalismo liberal quanto o socialismo de Estado permaneceriam imanentes à modernidade produtora de mercadorias. Essa perspectiva desloca, então, o debate da disputa entre modelos nacionais de desenvolvimento para a crítica da própria matriz da modernidade.
O epílogo do livro retoma a interpretação de que Junho de 2013 permanece como evento inacabado e que o retorno do lulismo ao governo não restaurou um horizonte transformador .O Brasil aqui aparece como uma sociedade entre insurgência e restauração. Essa leitura é consistente com a hipótese de esgotamento do pacto da Nova República, mas também exige que se analise mais profundamente o bloco histórico que sustenta o capitalismo dependente brasileiro.
Este livro não oferece respostas acabadas, mas é inquestionável que ele provoca inquietações necessárias, e este é sem dúvidas o seu grande mérito. Em um país marcado por desigualdade estrutural, racismo persistente e precarização generalizada, pensar a emancipação exige articular crítica radical da forma social com análise concreta da estrutura econômica e das mediações políticas. Entre ruínas e espectros, o desafio permanece o mesmo que atravessa toda a tradição marxista desde o século XIX: transformar a crítica do mundo em força material capaz de mudá-lo. As observações e o olhar destas organizações sobre o papel das jornadas de 2013 são muito bem vindas e necessárias. Trata-se de um debate importante!

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