
Por Henrique Pinheiro – Economista e produtor executivo do documentário “Terra Revolta – João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária” – Colunista convidado.
O Brasil nunca resolveu o campo, nem organizou a cidade e, todo verão, a conta chega.
As imagens se repetem: encostas desabam, casas são destruídas, famílias perdem tudo. A chuva aparece como causa, mas o problema é muito mais antigo.
O modelo agrícola brasileiro se consolidou com grandes propriedades e alta mecanização. A produção aumentou, o país virou potência agrícola, mas o emprego no campo diminuiu.
O grande latifúndio produz muito, mas emprega pouco. Milhões deixaram a zona rural porque não encontraram condições para permanecer.
Faltou política contínua para fortalecer o pequeno produtor, garantir crédito, assistência técnica, mercado e infraestrutura. A reforma agrária ocorreu de forma limitada e, muitas vezes, sem estrutura suficiente para manter as famílias na terra.
O resultado foi o êxodo rural. Essas pessoas migraram para cidades que já cresciam sem planejamento adequado. O Brasil se urbanizou rapidamente, mas não organizou seu território com a mesma velocidade. Planos existiram, mas a execução foi fraca. A moradia formal não acompanhou o crescimento da população.
Sem alternativa, a ocupação irregular virou solução. Encostas e margens de rios tornaram-se bairros permanentes.
Áreas de risco passaram a ser o único endereço possível para quem não tinha renda suficiente para acessar o mercado formal.
Não é apenas excesso de chuva. As áreas de risco são conhecidas. Os mapas existem. O que falta é ação contínua.
Campo concentrado e cidade desordenada fazem parte do mesmo problema. O trabalhador que saiu do campo por falta de oportunidade é, muitas vezes, o morador da encosta urbana.
Conter deslizamentos depois da tragédia é tratar o efeito, não a causa. Reconstruir no mesmo lugar mantém o ciclo. O Brasil não precisa apenas de obras emergenciais.
Necessita de prioridade política, de planejamento que una política agrícola, desenvolvimento regional e organização urbana.
Enquanto isso não for política permanente de governo, e não apenas resposta após o desastre, a repetição continuará.
Em ano eleitoral, quase não se fala disso. Debate-se o imediato, evita-se o estrutural. Mas a chuva não espera eleição. Sem projeto de longo prazo, o verão continuará cobrando seu preço.





