
Por Henrique Pinheiro – Economista e produtor executivo de cinema – Colunista convidado.
Na quarta-feira, dia 4 de março, o Brasil recordou o nascimento de Tancredo Neves — o homem que simbolizou a travessia possível entre a noite e a reconstrução democrática.
A fotografia daquele encontro, que eles tiveram, no início de 1985 ( logo depois da eleição de Tancredo, pelo Colégio Eleitoral) , nos EUA, meu pai, João Pinheiro Neto, Tancredo Neves e Márcia Kubitschek, era mais do que simbólica. Representava a reconstrução de um passado interrompido.
Todos em Washington. Ali não estavam apenas três brasileiros no exterior. Estava uma geração que atravessara o exílio, a cassação, o silêncio imposto, e que vislumbrava a possibilidade concreta de retorno à vida pública e à normalidade institucional.
Tancredo havia sido eleito de forma indireta pelo Colégio Eleitoral. Depois de vinte anos de regime militar, o país voltava a respirar. Ainda não era o voto direto, mas era o início da transição. Era a esperança de que o Brasil reencontraria o debate de ideias, a política como construção e não como imposição.
Meu pai, João Pinheiro Neto, ex-ministro do Trabalho de João Goulart e ex-presidente da Supra, via naquele momento a possibilidade real de voltar e participar da estruturação de um plano de governo que consolidasse a redemocratização.
Havia algo raro no ambiente: confiança. Tancredo fora aos Estados Unidos conversar, dialogar, demonstrar que o Brasil teria um presidente civil democrata, experiente e confiável. Queria mostrar aos americanos que representava a estabilidade institucional e o compromisso democrático. E, foi bem recebido. O Brasil inteiro acompanhava com expectativa.
Pela primeira vez em duas décadas, um presidente civil se preparava para assumir. Mineiro, conciliador por vocação, experiente por trajetória, Tancredo carregava as qualidades exatas para aquele momento delicado. Não era homem de rupturas espetaculares, mas de costuras firmes. Sabia que a democracia se constrói com diálogo, paciência e habilidade política. O país vivia uma esperança contida, mas vibrante.
Depois do pesadelo militar, surgia a possibilidade de uma liderança capaz de unir forças divergentes e reorganizar a vida institucional. A alegria, contudo, durou pouco. A doença inesperada interrompeu não apenas um mandato, mas um ciclo de expectativas nacionais.
A chegada de José Sarney ao poder, ainda que constitucional, foi sentida por muitos como um golpe duro para quem aguardara vinte anos por mudanças profundas.
Não era o desfecho imaginado, nem a transição sonhada. Meu pai sentiu esse impacto com intensidade. Não era apenas uma questão política, mas histórica.
O Brasil perdera a oportunidade de iniciar sua reconstrução sob a liderança de alguém preparado para pacificar, organizar e projetar o país para além dos traumas recentes.
O Brasil ficou sem Tancredo antes mesmo de possuí-lo. Perdeu um estadista moldado na experiência parlamentar, na tradição mineira da moderação, na capacidade de ouvir e agregar. A transição aconteceu, a democracia retornou, mas ficou marcada pela ausência.
Quatro décadas depois, permanece a pergunta silenciosa: que país teríamos sido sob a presidência de Tancredo Neves?
No aniversário de seu nascimento, não se trata apenas de recordar um homem público. Trata-se de lembrar um instante em que o Brasil quase tocou, com as próprias mãos, a esperançao — e de reconhecer que há perdas que não pertencem apenas às famílias, mas à própria história nacional.


