
Estreou o Extermínio da Cegonha no teatro do CCBB-RIO 3.
O texto de Pedro Uchoa é ficcional, bem humorado, reflexivo, provocativo, poético, questionador, impactante, mescla momentos cômicos e tensos, deixa transparecer conflitos geracionais, anti-assédio, antipatriarcado, anti comportamento hétero normativo, valoriza a voz feminina, se opõe à sujeição dos corpos, e contemporâneo. Apresenta uma reflexão sobre o lugar central que os meios técnico científicos ocupam no mundo contemporâneo e o impacto que os mesmos provocam na vida em sociedade, contribuindo para a construção de relações, afetos e escolhas. Ao mesmo tempo, funciona como o ponto de partida trágico para histórias que não existiriam no mundo analógico, quando não existia a Internet e smartphones, e os contatos eram estabelecidos por meio do telefone fixo e por correspondências.
O Instagram, rede social virtual, produto dos modernos meios científicos-tecnológicos, proporcionou ao personagem Samuel, interpretado por Higor Campagnaro, recontactar Isabel, interpretada por Nara Parolini, amizade da infância que há algum tempo não via. Em tempos pretéritos, quando não havia orkut, dentre outras redes sociais digitais, eles viviam em São Tomé, quando então estabeleceram uma proximidade. O reencontro reativou fatos do passado, deixando transparecer conflitos e memórias que não poderiam ser relembradas, uma vez que deixaram feridas e cicatrizes em aberto.
O elenco é integrado por cinco integrantes: Higor Campagnaro, Jean Marcel Gatti, Julia Limp, Nara Parolini, e Pedro Uchoa. Eles se apresentam bem. Estão unidos, entrosados e afinados. Eles interpretam com qualidade, e emocionam também. Dominam o texto, utilizando uma linguagem simples, de fácil assimilação, e estabelecem diálogos com um bom ritmo. Dominam o palco, apresentando uma boa movimentação e preenchendo todos os espaços. Apresentam uma boa comunicação com o público. Portanto, uma atuação deferida e de qualidade.
A direção é de Pedro Uchoa, correta e adequada, realizou as marcações certeiras e precisas, e deu uma direção à boa atuação do elenco.
Os figurinos criados por Luiza Fardin são simples, adequados e facilitam o deslocamento dos atores pelo palco. São roupas do quotidiano.
A cenografia de Carila Matzenbacher é simples, criativa e adequada ao contexto da peça teatral. Há um telão que funciona como tela de karaokê, painel luminoso de um veículo, e tela de projeção de uma moldura de retrato do casal Isaura e Virgílio, os pais de Isabel e proprietários da casa. Também há uma geladeira, e bancos de ferro.
O teto é decorado com um conjunto de mangas, a “fruta do pecado”, pois foi na mangueira do seu Virgílio, pai de Isabel, que ela e Samuel tiveram relações íntimas, quando então eram ainda adolescentes. Desse “estupro”, Isabel engravidou.
Do teto cai uma manga, que a personagem Isabel devora. Ela comeu da “fruta do pecado”.
De forma criativa e original, o autor Pedro Uchoa substituiu a maçã, fruta do pecado na Bíblia, pela manga, fruta do pecado em sua narrativa cênica. Foi na mangueira que Isabel e Samuel comeram do “fruto pecaminoso” e realizaram relações sexuais, que resultaram na gravidez da primeira. Ato trágico, violento e ilegal, pois ela tinha apenas treze anos de idade, e ele já se aproximava da fase adulta.
A iluminação criada por Hugo Mercier apresenta um adequado desenho de luz, e contribui para realçar a interpretação dos atores de seus personagens.
A trilha sonora do espetáculo é vibrante e empolgante, aparecendo nomes como Rita Lee, e Angela Ro Ro, além de um bom pagode.
A peça teatral é uma produção simples e não sofisticada, apresenta um texto reflexivo e crítico, e um elenco empenhado e que se apresenta com garra e vibração.
Ótima produção cênica!






