
O artigo recente de Leonardo Boff começa onde muitos evitam olhar. No risco real de colapso. Vivemos, segundo ele, sob a regência de um caos destrutivo. Guerras se multiplicam, genocídios persistem e a humanidade concentra nas mãos de poucos o poder de interromper a própria vida no planeta.
Nunca tivemos tanta capacidade de destruição. E nunca estivemos tão vulneráveis às decisões de tão poucos.
Boff fala sem rodeios. Bastariam alguns líderes, em um momento de insanidade ou cálculo extremo, para desencadear uma guerra nuclear de escala inédita. Um inverno nuclear não seria metáfora. Seria o colapso da luz, da produção de alimentos e da própria base da vida.
É desse ponto que ele parte. Não da fé confortável, mas do medo concreto.
E é justamente aí que ele recoloca a ressurreição.
Não como milagre. Não como narrativa piedosa. Mas como ruptura.
Ressurreição não é reanimação. Não é Lázaro. Não é um corpo que volta para morrer depois. Isso seria apenas prolongar o inevitável.
Na leitura de Boff, a ressurreição de Jesus é outra coisa. É a transformação radical da existência. Uma passagem para uma forma de vida que não está mais submetida ao tempo, ao espaço ou à morte.
Jesus não retorna. Ele inaugura.
É o que São Paulo chamou, de novo, Adão. Não um homem restaurado, mas o homem pleno. Aquilo que o ser humano pode ser quando todas as suas possibilidades se realizam.
Essa ideia desloca completamente o sentido do cristianismo. Não se trata de um evento do passado. Trata-se de uma antecipação do futuro humano.
E é aqui que a ressurreição se torna perigosa.
Porque se aquele que foi perseguido, julgado e executado como subversivo é ressuscitado, então a morte não tem a última palavra. Nem sobre os indivíduos, nem sobre a história.
A injustiça pode vencer no curto prazo. Mas não é definitiva.
Em um mundo organizado pela força, essa é uma mensagem incômoda. Ela retira da violência o seu caráter absoluto. Ela afirma que o poder não decide tudo.
E, talvez, seja exatamente por isso que essa ideia atravessou séculos. Num tempo em que a humanidade flerta com a própria extinção, a ressurreição deixa de ser um consolo religioso. Ela se torna uma afirmação radical de sentido.
Não nega o caos. Não ignora o risco. Mas recusa o desfecho inevitável da destruição.





