
Wallace Simonsen não era um empresário ideológico. Não fazia política, não frequentava palanques, não se confundia com militância. Era antes de tudo um homem de empresa dono da Panair do Brasil da TV Excelsior e um dos grandes exportadores de café do país.
Mas foi exatamente fora da política que tomou a decisão que definiria seu destino.
Em agosto de 1961 diante da crise aberta pela renúncia de Jânio Quadros e da tentativa de impedir a posse do vice-presidente João Goulart Simonsen posicionou-se ao lado da legalidade. Não discursou não se expôs apenas ajudou a garantir que Jango fosse informado do que ocorria no Brasil permitindo que articulasse seu retorno e assegurasse a posse constitucional.
Não foi um gesto ideológico. Foi um gesto de respeito à lei.
Três anos depois em 31 de março de 1964 o país entrou em outra lógica. E nesse novo arranjo havia pouco espaço para independência ainda menos para quem já havia demonstrado não se dobrar.
A resposta veio de forma cirúrgica.
A Panair foi cassada em 1965 e suas rotas transferidas à Varig sem disputa e sem mercado.
A TV Excelsior, inovadora e à frente de seu tempo, foi deliberadamente sufocada até sua cassação definitiva em 1970.
Para dar aparência de legalidade vieram as justificativas.
Como grande exportador de café Simonsen tornou-se alvo de uma CPI. Somaram-se acusações frágeis uma dívida de 23 milhões de dólares e suspeitas políticas que não se sustentariam plenamente algumas rejeitadas pelo Supremo Tribunal Federal.
Mas o tempo da Justiça não é o tempo do poder.
Quando as decisões vieram o dano já era irreversível.
O patrimônio foi sequestrado as empresas desmontadas a família perdeu tudo.
Simonsen deixou o país.
Em março de 1965 um infarto encerrou sua vida.
Mas há histórias em que a causa da morte não está no atestado.
Está no processo.
O caso de Wallace Simonsen revela algo incômodo o golpe de 1964 não atuou apenas sobre a política atuou também sobre a economia escolhendo quem poderia existir.
Agora imagine se, hoje, a concessão de uma empresa de comunicação fosse cassada de uma hora para outra e entregue a outro grupo.
Parece impensável.
Mas foi exatamente isso que aconteceu.
A diferença não está no fato.
Está na memória.
E esquecer é o primeiro passo para permitir que aconteça de novo.





