
Por Henrique Pinheiro – Economista e produtor executivo do documentário “Terra Revolta-João Pinheiro Neto” e autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor” – Colunista convidado.
O golpe de 1964 não começou com tanques e sim com a construção de um inimigo.
E, poucos símbolos foram tão necessários para serem destruídos como foi com a Última Hora.
Criado por Samuel Wainer, o jornal era mais do que uma empresa de comunicação. Era uma trincheira política.
Dava voz ao projeto de país de João Goulart, amplificava as reformas de base e expunha a hipocrisia das elites que se diziam defensoras da democracia enquanto conspiravam contra ela.
Por isso, precisava ser destruído. O depoimento de João Pinheiro Neto, no livro “Jango: um depoimento pessoal”, é ainda mais contundente porque vem de dentro.
Não apenas testemunha, mas protagonista: além de escrever, João Pinheiro Neto foi editor de economia e diretor administrativo do jornal. Primeiro, derruba-se o governo. Depois, isola-se o jornal.
O império de Wainer não resistiu à quartelada de 31 de março. Restou uma Última Hora, na Guanabara, já cercada. Sem o respaldo político do governo deposto, o jornal entrou em um território hostil onde havia apenas vigilância.
Mas não foi a censura direta que matou o jornal. Foi algo mais sofisticado. A publicidade desapareceu.
O crédito bancário secou. Os aliados sumiram. O jornal passou a viver de improviso.
Dívidas renegociadas, pagamentos em publicidade, promissórias adiadas. Um negócio que já não era negócio — era resistência, narra João Pinheiro Neto.
O próprio Wainer sabia disso. E mesmo assim recusava-se a sair. Preferia lutar até a última gota. Sabia que ali não estava apenas um jornal, mas uma ideia de país.
O relato mostra com clareza que a pressão não vinha apenas dos militares, mas das classes conservadoras, mais realistas do que o rei, decididas a apagar qualquer vestígio do janguismo.
Era um pacto silencioso. O sistema financeiro não queria se comprometer. Os anunciantes não queriam se expor. O mercado não queria risco. E assim, pouco a pouco, a Última Hora foi sendo sufocada. Sem fechamento formal. Sem decreto. Sem ruído. A morte perfeita. A Última Hora não foi fechada. Foi deixada morrer. E esse talvez seja o maior ensinamento daquele período: não é preciso censurar diretamente quando se pode retirar o oxigênio.
A história gosta de lembrar dos tanques nas ruas.
Mas esquece dos bancos que negaram crédito, das empresas que cortaram anúncios, das mãos invisíveis que apertaram o pescoço de um jornal até que ele parasse de respirar.
O golpe não foi apenas militar. Foi político. Foi econômico. E, acima de tudo, um projeto de silêncio.





