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Ordem e Ruína no Oriente Médio. Reflexões sobre os primeiros momentos da guerra contra o Irã e seus desdobramentos imediatos

Arlindenor Pedro 9 de abril de 2026 11 minutes read
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 Por Arlindenor Pedro  –  Professor de História, Sociologia e Filosofia, editor do Blog, Revista Eletrônica e canal YouTube Utopias Pós Capitalistas.
    “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, mas sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.”
     Karl Marx- in 18 Brumários de Luiz Bonaparte
    Volto aqui às minhas reflexões sobre a crise no Oriente Médio.
     Em questão de horas, o mundo assistiu a uma escalada que parecia caminhar para uma guerra aberta e irreversível e, ao mesmo tempo, a um recuo abrupto que revelou os limites dessa própria escalada. A ameaça de destruição ampliada, o fechamento do Estreito de Ormuz, a crise imediata do petróleo e, em seguida, o cessar fogo acompanhado do início de negociações compõem um quadro que já não pode mais ser interpretado como uma sequência de episódios isolados. Há aqui uma mudança de qualidade. É a partir desse novo patamar que retomo, junto com você, leitor, as reflexões que venho desenvolvendo.
    Na verdade, Israel não está rompendo com os Estados Unidos. O que se desenha é algo muito mais complexo! Trata-se de ampliar sua margem de ação dentro de uma dependência que permanece estrutural. Não se trata de independência plena, mas da tentativa de operar com maior autonomia relativa no interior de uma ordem que já não é plenamente controlada por nenhum ator isolado. Isto é um fato! E ficou planamente visível com os últimos acontecimentos: Israel teria esta superioridade militar sem a ajuda dos EUA?
     É nesse ponto que volto à ideia do chamado Grande Israel. Hoje me parece ainda mais claro que esse conceito deve ser entendido menos como um projeto de expansão territorial clássica e mais como uma forma de centralidade regional. O que se busca não é necessariamente ampliar fronteiras de modo direto, mas consolidar uma posição dominante baseada em tecnologia, capacidade militar e integração econômica. Israel procura afirmar-se como eixo organizador de uma nova configuração regional, e não apenas como potência expansionista no sentido tradicional.
    Ao retomar o tema do sionismo, reafirmo que sua origem como movimento nacional moderno continua sendo fundamental para a compreensão desse processo. Mas o sionismo contemporâneo, na prática, já não pode ser reduzido às suas formulações históricas de origem. Ele se materializa hoje como uma estratégia de inserção e liderança dentro de um sistema global em transformação, no qual a sobrevivência estatal se entrelaça com a capacidade de inovação, de projeção tecnológica e de articulação geopolítica.
     Quando olho para os Acordos de Abraão, a que também me referi no artigo anterior, à luz dos acontecimentos mais recentes, percebo que sua importância se tornou ainda mais evidente. Eles não representam simplesmente uma normalização diplomática. São parte de uma reorganização estrutural das alianças no Oriente Médio.
     As monarquias do Golfo, longe de qualquer compromisso ideológico consistente, demonstram que sua prioridade é a preservação do poder e a adaptação a um cenário em mutação. A cooperação com Israel revela que, no mundo contemporâneo, os interesses econômicos e estratégicos prevalecem sobre os discursos religiosos ou identitários.
     Essa constatação reforça algo que considero central. O caráter oligárquico desses regimes não apenas permanece, como se torna mais visível em momentos de crise. São estruturas de poder que não buscam transformação social, mas estabilidade interna e continuidade de domínio. Sua integração com Israel não constitui uma ruptura com os princípios que publicamente proclamam. Ao contrário, confirma que tais princípios sempre estiveram subordinados à lógica da sobrevivência política e da reprodução do poder. Mas, é claro, porém,que as recentes atitudes do Irã bombardeando seus centros econômicos vem dificultando estar estratégia.
     Mas, a base econômica dessa dinâmica continua sendo o petróleo e sua articulação com o capital financeiro global. O episódio do Estreito de Ormuz tornou isso absolutamente evidente. Em poucas horas, a interrupção do fluxo energético foi capaz de produzir um choque sistêmico imediato. Isso revela a fragilidade estrutural de um sistema que depende de fluxos contínuos para se manter. Ao mesmo tempo, mostra por que qualquer conflito na região ultrapassa rapidamente o plano local e assume dimensão global.
     É exatamente aqui que preciso insistir  em um ponto decisivo. É um erro analisar a crise do Oriente Médio como se ela fosse um fenômeno isolado, produto exclusivo de disputas regionais, antagonismos religiosos ou estratégias nacionais particulares. O que estamos vendo na região só pode ser compreendido de forma adequada quando inserido no contexto mais amplo da crise do sistema capitalista produtor de mercadorias.
     O Oriente Médio não é uma exceção. É uma expressão concentrada dessa crise. A dependência do petróleo, a fragilidade das economias rentistas, a incapacidade de gerar empregos em larga escala, a instabilidade política crônica e a persistência de regimes autoritários não podem ser explicadas apenas por fatores locais. Essas características são formas específicas de manifestação de uma crise mais ampla, que atravessa o sistema global como um todo. A crise da valorização do valor, descrita pela corrente teórica Crítica do Valor, não se limita à Europa ou aos Estados Unidos. Ela se manifesta de forma particularmente intensa em regiões onde o processo de modernização foi incompleto, dependente ou estruturalmente subordinado.
    Quando se ignora essa dimensão global, corre-se o risco de reduzir a análise ao moralismo ou à simplificação geopolítica. Passa-se então a buscar culpados imediatos, decisões erradas ou lideranças mais ou menos hábeis, quando, na verdade, os próprios atores operam dentro de limites estruturais que não controlam. O que está em jogo não é apenas a vontade de Estados e governos, mas a crise de um modo histórico de reprodução social que já não consegue integrar de forma estável vastas regiões do planeta.
     É precisamente nesse ponto que a formulação de Marx se impõe com toda a sua força explicativa. Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem. O que vimos no episódio recente foi exatamente isso. Estados, governos e líderes tomaram decisões, escalaram o conflito, ameaçaram, avançaram. Mas, ao atingirem certos limites, foram obrigados a recuar. Não porque assim desejassem, mas porque as circunstâncias históricas e materiais impuseram esse recuo.
    O fechamento do Estreito de Ormuz, a crise do petróleo e o risco de um abalo econômico global funcionaram como essas circunstâncias herdadas das quais fala Marx. Nenhum dos atores escolheu livremente esse limite. Eles se depararam com ele. E, ao se depararem, tiveram de agir dentro dele.
     É nesse ponto que o conceito de “guerra de ordenamento mundial”, conceito desenvolvido por Robert Kurz em seus escritos, ganha sua maior densidade. Não estamos diante de guerras conduzidas livremente por vontades soberanas, como se os Estados ainda pudessem mover-se sobre o tabuleiro histórico com plena autonomia.
     Estamos diante de conflitos que se desenvolvem dentro de limites estruturais impostos pela própria crise do sistema global. As guerras continuam a ser feitas pelos homens, mas já não podem ser feitas como eles querem.
    O cessar fogo recente deve ser entendido exatamente assim. Não como uma escolha voluntária de pacificação, nem como o triunfo da prudência diplomática, mas como uma resposta necessária a condições que escaparam ao controle dos próprios atores. Trata-se de uma interrupção imposta pela realidade material do sistema e pelo risco de que a escalada comprometesse não apenas interesses regionais, mas circuitos centrais da reprodução econômica mundial.
     Nesse cenário, a estratégia do Irã revela, de forma ainda mais clara, essa dialética entre ação e condicionamento. O país age, pressiona, ataca, desloca o conflito. Mas não escolhe livremente o terreno em que atua. Sua estratégia indireta, baseada na elevação do custo sistêmico do confronto, não é apenas uma escolha tática. É uma forma de ação determinada pelas limitações objetivas que enfrenta. O Irã faz história, mas a faz dentro das condições que herdou e sob as restrições que lhe são impostas por uma correlação de forças que não controla plenamente.
    O mesmo vale para os Estados Unidos. Sua capacidade de intervenção permanece enorme, mas não ilimitada. O recuo após a escalada não foi simplesmente uma decisão política livre, fruto exclusivo de cálculo racional ou prudência estratégica. Foi também o reconhecimento de um limite imposto por pressões econômicas, energéticas e políticas internas. Mais uma vez, vemos a ação humana sendo moldada por circunstâncias que não foram escolhidas.
      Israel, por sua vez, move-se dentro dessa mesma contradição. Busca autonomia, amplia sua capacidade de ação, reorganiza alianças, redefine prioridades. Mas não controla integralmente as condições em que faz isso. Sua posição regional, sua dependência estrutural, sua relação com os Estados Unidos e sua inserção no sistema global definem os limites de sua ação tanto quanto suas ambições procuram ampliá-los.
     Quando integro todos esses elementos, o quadro que se forma diante de nós torna-se mais claro. Nenhum ator envolvido possui liberdade plena de ação. Todos operam dentro de estruturas herdadas. Todos fazem história, mas a fazem sob condições que não escolheram.
    E é exatamente isso que define o momento atual. O Oriente Médio não está caminhando para uma nova ordem estável. Está se consolidando como espaço privilegiado de manifestação dessa contradição histórica. Trata-se de uma região em que a ação política é permanente, intensa e por vezes brutal, mas na qual a capacidade de produzir estabilidade duradoura é cada vez mais limitada. Não se trata, portanto, de uma anomalia regional, mas de uma condensação particularmente explosiva de tendências que pertencem à crise global do capitalismo contemporâneo.
     O que vimos com o fechamento do Estreito de Ormuz e com o cessar fogo subsequente foi a revelação de um limite sistêmico. A guerra, neste estágio, não pode mais ser levada até suas últimas consequências sem colocar em risco o próprio funcionamento do sistema global. Isso cria uma dinâmica peculiar, na qual escalada e recuo se alternam continuamente, sem que se alcance uma resolução definitiva. O conflito não desaparece, mas também não consegue converter-se em solução.
     Assim, o Oriente Médio torna-se a expressão concentrada de um processo mais amplo. Um processo em que as estruturas herdadas continuam a determinar os limites da ação, enquanto os atores tentam, sem êxito pleno, impor suas vontades. Daí decorre a sensação permanente de crise sem desfecho, de guerra sem vitória conclusiva, de reorganização sem verdadeira ordem.
      Por isso, continuo convencido de que a região dificilmente voltará a ser o que foi. Não porque alguém tenha decidido transformá-la de maneira soberana, mas porque as condições históricas que sustentavam o arranjo anterior já não existem da mesma forma. O velho equilíbrio foi corroído, e o novo ainda não pode se constituir como ordem estável.
    Talvez seja essa a conclusão mais importante. Os homens fazem a sua própria história. Mas, ao fazê-la, revelam também os limites dessa própria ação. E, quando esses limites deixam de ser apenas conjunturais e passam a expressar uma crise histórica mais profunda, o presente deixa de ser mera sucessão de eventos e se converte em processo.
     É nesses limites que o presente se transforma em história.

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