
Fé que se Partilha
Ogum, São Jorge e as Tramas de Resistência no Rio
No calendário brasileiro, abril se firma como um tempo de forte densidade simbólica, em que fé, cultura e identidade se entrelaçam de maneira viva e pulsante. As celebrações dedicadas a São Jorge e a Ogum não apenas mobilizam devoções individuais, mas estruturam experiências coletivas que reafirmam pertencimentos, memórias e formas de resistência. Nesse contexto, iniciativas como a 1ª edição do Rio de Jorge, com uma feijoada organizada pela Umbanda Rio e também o 1º Festival de Jorge – Cultura e Fé, idealizado por Nando Cunha revelam a potência dessas manifestações no cenário contemporâneo.
- No domingo, a cidade foi atravessada por uma tarde de axé e encontro. A Feijoada promovida pelo Movimento Umbanda Rio reuniu no Clube dos Suboficiais e Sargentos da Aeronáutica, em Cascadura, praticantes, simpatizantes e moradores em uma celebração dedicada a Ogum, a São Jorge e a todos os guerreiros e guerreiras anônimos que sustentam e transformam o cotidiano do Rio. Mais do que um evento, tratou-se de um espaço de partilha, onde o sagrado se fez presente nos tambores, nas conversas e nos gestos de acolhimento. A mesa farta, elemento central da cultura afro-brasileira, reafirmou a dimensão comunitária da fé, evocando a ancestralidade como fundamento de resistência e continuidade.
- Essa mesma força se expande na iniciativa dia ator Nando Cunha, que transforma uma tradição de quase duas décadas em um projeto de maior alcance. O Primeiro Festival de Jorge – Cultura e Fé, realizado no Terraço do Shopping Boulevard, em Vila Isabel, nasce da devoção a São Jorge e da prática já consolidada da feijoada gratuita em sua homenagem. Ao ampliar essa experiência para um festival, o artista promove um encontro entre espiritualidade, arte e reflexão crítica. A exibição do documentário “Jorge, O Padroeiro Guerreiro”, do cineasta Emílio Gallo, seguida de uma roda de conversa com o diretor, a produtora Catarina Chamon e o padre Victor Hugo Nascimento, evidenciou como o sagrado também se constrói no diálogo, na escuta e na troca de saberes.

“Ambas as atividades revelam a relevância em que a fé se manifesta para além do campo religioso estrito, alcançando dimensões culturais, sociais e políticas. Ao longo da semana, diversas agendas celebram essa mesma força, ampliando os espaços de encontro, reflexão e vivência espiritual na cidade. São experiências que reafirmam o papel das práticas coletivas na produção de sentido e na construção de redes de solidariedade, especialmente em contextos urbanos marcados por desigualdades”. afirma o Babalawô Ivanir dos Santos, professor e orientador no Programa de Pós-graduação em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHC/UFRJ).
Nesse horizonte, a convergência entre São Jorge e Ogum não pode ser compreendida apenas como uma sobreposição simbólica. Trata-se de um processo histórico complexo. “Esse período expressa um processo histórico atravessado por resistência, recriação e continuidade. Diante da violência da escravidão e das tentativas sistemáticas de apagamento cultural, populações negras elaboraram estratégias para preservar suas crenças, ressignificando símbolos e mantendo viva uma herança espiritual mesmo sob repressão constante”, completa o sacerdote.




