
Meu irmão Noca da Portela partiu.
E ao escrever esta frase, sinto como se uma parte muito luminosa da própria Música Popular Brasileira também recolhesse as suas velas para navegar em outro mar.
Noca não foi apenas um grande compositor. Foi uma consciência do samba. Uma presença humana raríssima. Um homem de palavra, de fidelidade, de ternura e de firmeza moral — qualidades que hoje parecem cada vez mais escassas no mundo contemporâneo.
Conheci muitos artistas em minha caminhada. Pouquíssimos, porém, possuíam a inteireza de Noca. Ele era inteiro em tudo: no talento, na amizade, na dignidade e no amor absoluto à Portela, essa escola que nele encontrava não apenas um sambista, mas um verdadeiro sacerdote de sua memória e de sua beleza.
Noca carregava o samba com a naturalidade dos escolhidos. Seus versos jamais eram artificiais. Vinham da alma popular brasileira, das ruas, dos terreiros, das madrugadas, das procissões, das alegrias e também das dores do nosso povo. Por isso suas composições permanecem. Porque nasceram verdadeiras.
Sempre me emocionou nele a coexistência da grandeza artística com a humildade pessoal. Mesmo consagrado, jamais perdeu a delicadeza no trato humano, nem a capacidade de se alegrar autenticamente com os amigos e com a vida.
Agora, Noca se junta à galeria eterna dos grandes bambas do Brasil. Mas sua ausência física não apagará sua presença espiritual. Porque certos homens não desaparecem: permanecem ecoando. Permanecem cantando dentro da memória coletiva de um país.
Hoje a Portela chora. O samba chora. E eu também choro meu amigo querido.
Mas agradeço profundamente a Deus por ter convivido com um homem tão raro, tão digno e tão brasileiro.
Viva eternamente Noca da Portela.






