
Daqui a cinquenta anos, talvez Copacabana exista apenas na memória úmida das fotografias antigas. Não desaparecida por completo — cidades raramente somem de uma vez —, mas transformada em outra coisa, uma espécie de Atlântida tropical onde o mar terá decidido recuperar o que sempre foi seu.
Imagino um velho calçadão submerso, as ondas quebrando onde antes turistas disputavam espaço para toalhas e vendedores de mate anunciavam, quase cantando, sua mercadoria gelada sob o sol de janeiro. O desenho de Burle Marx ainda estará lá, invisível sob a água salgada, como uma tatuagem afogada na pele da cidade.
O Rio de Janeiro, daqui a meio século, talvez seja uma cidade anfíbia. Não por modernidade futurista dessas inventadas em filmes de ficção científica, mas por necessidade. O mar, cansado de respeitar limites urbanos, avançará lentamente sobre a areia, depois sobre a avenida, depois sobre os pilotis dos edifícios que hoje parecem eternos.
Em Ipanema, os apartamentos de frente para o mar deixarão de ser símbolo de status para virar relíquias melancólicas de um tempo arrogante em que se acreditava que o concreto venceria a natureza. Alguns prédios estarão vazios, abandonados como navios encalhados. Outros terão muros transparentes, bombas hidráulicas, comportas modernas tentando conter o inevitável. Mas o oceano é paciente. Ele trabalha em silêncio e pensa em séculos.
O Leblon talvez resista um pouco mais, agarrado à falsa segurança dos bairros ricos, como se dinheiro pudesse negociar com a maré. Não poderá.
As ressacas serão mais violentas. O verão, mais longo e cruel. As árvores antigas da orla terão desaparecido uma a uma, vencidas pelo sal e pelo calor excessivo. E ainda assim, como sempre fez, o carioca tentará adaptar beleza ao desastre. Haverá bares flutuantes. Ciclovias elevadas. Gente correndo sobre passarelas suspensas enquanto drones registram pores do sol alaranjados demais para serem naturais.
O Rio possui essa estranha capacidade de transformar tragédia em paisagem.
Mas talvez o mais impressionante seja perceber que os avisos já existem hoje, discretos, diante dos nossos olhos distraídos. Estão nas marés cada vez mais altas, nas enchentes repentinas, no calor que parece incendiar o asfalto antes mesmo do meio-dia. A cidade já ensaia seu futuro sem que a maioria perceba.
Daqui a cinquenta anos, crianças ouvirão histórias sobre como as pessoas jogavam futebol na areia de Copacabana como quem escuta lendas improváveis. Velhos mostrarão fotografias desbotadas de domingos ensolarados no Posto 9, enquanto netos perguntarão, incrédulos, se realmente existia tanta faixa de areia assim.
Talvez existam museus dedicados ao “Rio Submerso” aos “Escafandristas”. Salas climatizadas exibirão cadeiras de praia, pranchas antigas, quiosques reconstruídos artificialmente, como arqueologia de um paraíso perdido. E algum cronista do futuro escreverá, com melancolia inevitável, que houve um tempo em que o mar era apenas paisagem — não ameaça.
Ainda assim, suspeito que o Rio sobreviverá.
Porque cidades não vivem apenas de geografia. Vivem de memória, linguagem, música, obsessões coletivas. O espírito carioca talvez migre para bairros mais altos, talvez reinventem praias artificiais na Zona Norte, talvez a vida encontre outro equilíbrio improvável entre morros e água. O carioca continuará procurando sombra, cerveja gelada e alguma beleza possível mesmo diante da catástrofe.
Há algo de profundamente humano nisso: a insistência em continuar.
No fim, talvez o futuro do Rio seja justamente este — uma cidade aprendendo, tarde demais, que a natureza não faz acordos permanentes. O mar nunca pertenceu às fotografias dos cartões-postais. Nós é que, por algumas décadas, tivemos a ilusão de morar perto dele sem dever nada em troca.
E o oceano, como os fantasmas antigos, sempre encontra um jeito de voltar.
















