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Para Ler na Rede: Raimundo Carrero, o mestre incansável da brasilidade.

Olga de Mello 24 de junho de 2026 4 minutes read
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A morte de Raimundo Carrero, aos 78 anos, deixa a literatura silenciosa e acinzentada e torna órfãos todos os que usufruíram de seus textos poéticos, brutais, coloridos, barulhentos, vibrantes e, acima de tudo, brasileiros. Crítico feroz da desigualdade nacional, o pernambucano destacou um Brasil de contradições imensas através de personagens intensos em misticismo, ingenuidade, ceticismo, cinismo, quase sempre multifacetados, em busca de aprimoramento pessoal ou conformados com as agruras existenciais, gente que surpreende por atitudes insólitas, agindo com segurança, impulsionadas pela sobrevivência.

O reconhecimento da crítica foi constante: entre tantos prêmios, ganhou o da Academia Brasileira de Letras em 1996, por “Somos Pedras que se Consomem”, o Jabuti por “As sombras ruínas da alma”, em 2000, o Prêmio São Paulo de Literatura por “A minha alma é irmã de Deus”. A combinação de realismo com a ficção beirando o fantástico talvez tenha sido fruto da experiência no jornalismo, que exerceu por décadas.  A brasilidade exuberante de Carrero, integrante do Movimento Armorial, capitaneado por Ariano Suassuna, de quem se tornou amigo e apoiou na promoção de uma arte brasileira autêntica a partir das raízes da cultura popular nordestina, jamais o distanciou do meio urbano. A megalópole, assim como o interior, foi cenário de tantas de suas tramas, colocando lado a lado marginais e quem procura a redenção, mesclando a religiosidade fervorosa do povo com o desprezo pelas estruturas hierárquicas da sociedade. O contraponto com a burguesia, o coronelismo e a arbitrariedade exercida pelos que estão no poder sempre surgiu em sua literatura, ultrapassando barreiras realistas para, às vezes, trazer a justiça aos desafortunados.

A santidade do caráter de personagens marginais é uma das peculiaridades de sua ficção, povoada por desempregados, moradores de rua, prostitutas, trabalhadores explorados no Brasil profundo, gente sem porto seguro para se abrigar e que cria serenidade no delírio místico. Histórias que se mantêm atemporais, abordando questões insuperadas pelo país, como “Viagem no ventre da baleia” (Oia, R$ 65,90). Lançado nos anos 1980, o romance trata da luta da população, apoiada por dois ex-guerrilheiros e um padre, contra o coronel Salvador de Barros, grande proprietário de terras de uma localidade no interior de Pernambuco, durante a ditadura militar. Se a democracia impera quarenta anos depois no território, as disputas fundiárias ainda sangram o Brasil profundo.

Outra chaga social – o tratamento dos doentes mentais – é discutida em “Os extremos do arco-íris” (Oiá, R$ 45,90), que narra a investigação de um detetive particular – na verdade, um desocupado interessado em ser pago pela função –  para desvendar a causa da morte de um interno em um hospital psiquiátrico.  Carrero criou ainda textos nascidos da angústia pessoal diante da barbárie. Em “Estão matando os meninos” (Iluminuras, R$ 61,90), aborda a violência policial que abate a tiros “gerações inteiras, sobretudo os mais pobres e miseráveis, que derramam o sangue nesta guerra desproporcional”. Nos contos, crianças mortas por “balas perdidas” acabam transformadas em dados estatísticos, enquanto são pranteadas por pais sem a menor esperança de que um dia os executores de seus filhos sejam julgados.

A aspereza de suas histórias contrastava com a simpatia pessoal de Raimundo Carrero, grande incentivador de novas vozes da literatura. Há cerca de 26 anos, em entrevista* para o lançamento de “A minha alma é irmã de Deus”, ele advertia os novos autores sobre a necessidade de disciplina férrea no trabalho. “Eu escrevo sempre, sempre. Todo escritor precisa de rotina, mesmo que sua vida seja uma bagunça”, afirmava Carrero, que se levantava diariamente às 4 horas da madrugada para escrever e garantia não acreditar em inspiração, “só em trabalho”. Definia-se como “muito reflexivo” e “quase sempre estratégico”, dizendo acreditar apenas em escritor “obstinado e trabalhador”. A erudição exposta em sua literatura vinha da influência de Ariano Suassuna, o Dostoiévski, Graciliano Ramos e “sobretudo a Bíblia”, uma de suas leituras costumeiras, além de William Fauklner e Flaubert. “Recorro quase  sempre aos mesmos livros. Leio muito, mas, quase sempre, as mesmas coisas. Dostoiévski é inesgotável”, explicava.

***

A entrevista foi concedida à Olga de Mello – e iniciou uma fraterna amizade virtual da repórter com o escritor.

 

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