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Com 600 anos, Cappela Musicale Pontificia “Sistina” vem ao Brasil

Rogério Tadeu 29 de junho de 2026 6 minutes read
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A instituição coral mais antiga do mundo chega ao Brasil em julho de 2026. A Cappella Musicale Pontificia “Sistina”  —  que tem suas origens no século VI e é responsável por moldar decisivamente o desenvolvimento da música vocal no Ocidente — realiza sua primeira viagem à América Latina. Com apresentações em São Paulo e Brasília financiadas via Lei Rouanet, a turnê terá concertos extras em Campinas, Curitiba e Rio de Janeiro. Todas as performances terão acesso 100% gratuito. Responsável pela música nas principais celebrações do Vaticano, o grupo é conhecido informalmente como “O Coro do Papa”. E destaca-se em atuações na Basílica de São Pedro, Capela Sistina e, mais recentemente, em momentos históricos como os funerais dos Papa Francisco.

As origens da Cappella Musicale Pontificia “Sistina” remontam aos séculos VI e VII, numa época em que a Europa ainda não tinha orquestras, óperas nem conservatórios. Entretanto, o marco que projetou o conjunto ao centro da vida musical europeia ocorreu em 1471, quando o Papa Sisto IV reorganizou e ampliou a instituição, que desde então carrega seu nome. A partir desse momento, a Cappella Musicale Pontificia “Sistina” tornou-se o principal polo de atração e formação musical do continente. Por seus quadros passaram alguns dos maiores nomes da história da composição: Guillaume Dufay (c. 1397–1474), Josquin des Prez (c. 1450–1521) — considerado por muitos o maior compositor antes de Bach —, Giovanni Pierluigi da Palestrina (c. 1525–1594), Cristóbal de Morales (c. 1500–1553), Luca Marenzio (c. 1553–1599), Costanzo Festa (c. 1485–1545), Jacob Arcadelt (c. 1505–1568) e Gregorio Allegri (1582–1652), entre dezenas de outros.Vários deles compuseram obras exclusivamente para esse coro — peças calibradas para a acústica única da Capela Sistina, que se tornaram a referência técnica e estética da polifonia coral para toda a Europa. Quando os compositores passaram a escrever para conjuntos vocais em qualquer parte do mundo, tinham em mente o modelo da Sistina.

O Miserere de Allegri: uma obra composta para existir apenas ali e a história com Mozart – Entre as obras criadas especificamente para a Cappella Sistina, o Miserere de Gregorio Allegri — composto por volta de 1638 para um cantor do próprio coro — ocupa um lugar singular. A peça foi escrita para ser executada naquele espaço, por aquelas vozes, com uma técnica de ornamentação que os cantores da Cappella desenvolveram ao longo de gerações e que não estava registrada em partitura: era transmitida oralmente, de cantor para cantor, como um segredo de ofício.

Essa dimensão intransmissível é o que torna o Miserere um caso único na história da música: uma obra cujo poder dependia não apenas das notas escritas, mas de uma tradição de interpretação viva, preservada dentro do coro. Em 1770, o jovem Wolfgang Amadeus Mozart, então com 14 anos, assistiu a uma execução na Semana Santa e realizou uma transcrição da obra — episódio registrado em carta por seu pai Leopold e que, menos de três meses depois, levou o Papa Clemente XIV a receber Mozart e lhe conceder a Ordem da Espora de Ouro, uma das mais altas distinções pontifícias. A transcrição foi publicada no ano seguinte em Londres pelo historiador Dr. Charles Burney, encerrando definitivamente o monopólio da obra.

O Miserere é hoje uma das peças corais mais gravadas e executadas do mundo. Mas a versão que chegou até nós — incluindo o célebre Dó agudo, uma das notas mais reconhecíveis do repertório coral — é ela mesma produto de camadas de transcrição, reinterpretação e até de um erro tipográfico incorporado ao cânone no século XIX. O que a Cappella Sistina preserva e executa é a versão do Códice Sistino de 1661, o registro mais próximo da obra original — anterior a todas essas transformações.

Da Renascença aos streamings: gravações pela Deutsche Grammophon – No século XX a tradição do coro da Sistina encontrou o registro sonoro. O conjunto realizou gravações para o selo Deutsche Grammophon — a mais antiga e tradicional gravadora de música em atividade no mundo, responsável pelo catálogo de nomes como Herbert von Karajan, Leonard Bernstein e Maria. Esses registros documentam um repertório de profundidade e extensão únicos, e levaram ao público global o som de um conjunto que acompanhou, e em grande medida protagonizou, mais de quinze séculos de história musical.

O grupo já se apresentou em países como Japão, Coreia do Sul, Hungria, Alemanha, Estados Unidos e Canadá. A turnê brasileira inaugura um capítulo inédito: é a primeira vez que o coro se apresenta na América Latina e ao sul do Equador.

O programa no Brasil – Canto gregoriano e clássicos do Renascimento e outros – O coro que vem ao Brasil é composto por 24 cantores adultos e cerca de 30 Pueri Cantores — os meninos cantores que constituem a seção das chamadas vozes brancas do conjunto – caracterizadas pela sonoridade pura, precedente à puberdade. “O programa preparado para as apresentações brasileiras abrange quinze séculos de repertório coral, do canto gregoriano à música do século XX, incluindo uma obra de um compositor brasileiro”, afirma Monsenhor Marcos Pavan, maestro e diretor musical atual do grupo.

Os concertos incluirão, entre outras obras, peças como o antífona gregoriana Factus est repente; obras de Palestrina (incluindo o Credo da célebre Missa Papae Marcelli) e Tomás Luis de Victoria — dois dos maiores polifonistas do Renascimento e ex-membros do próprio coro; peças de Lorenzo Perosi e Domenico Bartolucci — ambos ex-maestros diretores da Cappella Sistina e o Choral varié sur le thème du ‘Veni Creator’ de Maurice Duruflé para órgão solo.

Brasileiro, o primeiro maestro não-italiano no cargo em 600 anos — Nascido em São Paulo, Monsenhor Marcos Pavan realizou estudos musicais na capital paulista, especializando-se em técnica vocal e canto gregoriano, e obteve o Fellowship Diploma em Regência Coral pelo National College of Music and Arts de Londres. Após carreira no Brasil como cantor lírico e regente, transferiu-se para a Itália em 1991. Em 1998, foi nomeado Maestro dos Pueri Cantores da Cappella Sistina, participando das gravações do coro para a Deutsche Grammophon e a Paulus. Em 2020, o Papa Francisco o nomeou Maestro Diretor — tornando-o o primeiro não-italiano a ocupar o posto desde que o cargo foi criado, no século XIX.

Uma turnê histórica pelo Brasil — entradas 100% gratuitas – A vinda da CAPPELLA MUSICALE PONTIFICIA “SISTINA” ao Brasil é realizada com patrocínio via Lei Rouanet do Grupo Mix, Itaú, Mobifácil , Iguatemi S.A. e Empório do Bem. Conta com apoio da Catedra da Sé de São Paulo, Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo, UBRAJUC e UJUCASP.

Realização. Estúdio Centro, São Paulo Schola Cantorum, Museu de Arte Sacra de São Paulo, Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo e Ministério da Cultura do Governo Federal.

A classificação etária geral é Livre

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