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A Europa diante do abismo: por que precisamos reconstruir um amplo movimento mundial pela paz

Arlindenor Pedro 6 de julho de 2026 11 minutes read
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Redes Sociais
           
Por Arlindenor Pedro –  Professor de História, Filosofia e Sociologia, editor do Blog Utopias Pós Capitalistas.
A guerra na Ucrânia já não é um conflito regional: tornou-se o sintoma mais visível de uma transformação estrutural em curso, na qual a economia de guerra se afirma como eixo de reprodução do capitalismo contemporâneo, elevando perigosamente o risco de uma escalada global. Este texto sustenta que estamos diante de um ponto de inflexão histórico e que, por isso, é urgente reconstruir um amplo movimento internacional pela paz, capaz de enfrentar não apenas a dinâmica geopolítica imediata, mas a própria lógica econômica que sustenta e normaliza a militarização crescente.
Nos últimos dias, instado por um fraternal amigo, assisti a dois longos debates promovidos pelo cientista político norueguês Glenn Diesen. No primeiro, participaram John Mearsheimer e Sergei Karaganov, conhecido consultor do governo russo. No segundo, o convidado foi o também conhecido historiador Gilbert Doctorow. São especialistas em geopolítica que partem de posições distintas e, por vezes, chegam a conclusões divergentes. Mas, ainda assim, convergiram para um ponto que considero extremamente preocupante: a guerra entre Rússia e OTAN entrou em uma fase muito mais perigosa, capaz de comprometer não apenas a estabilidade europeia, mas o futuro da própria humanidade.Há a constatação de uma inequívoca normalização da incrementação da Economia de Guerra em todos países da Europa.
Os debates entre Mearsheimer, Karaganov e Doctorow ajudam a compreender bem essa mudança.   Apesar das diferenças entre eles, todos apontam o enfraquecimento das regras de contenção construídas durante a Guerra Fria. As chamadas “linhas vermelhas” perderam força e cresce a percepção de que é possível pressionar militarmente uma potência nuclear sem provocar uma resposta proporcional. Trata-se de uma mudança qualitativa na lógica estratégica que governou o mundo durante mais de meio século.Fala-se, então, abertamente na utilização de armas nucleares no conflito, com uma naturalidade aterrorizante.
Independentemente das responsabilidades históricas de cada ator envolvido, é impossível ignorar que a lógica da escalada militar passou a dominar o debate europeu. O envio contínuo de armamentos cada vez mais sofisticados, a ampliação das operações militares, o aumento dos gastos em defesa e a preparação explícita para um eventual confronto entre OTAN e Rússia, inclusive com armas militares táticas indicam que a guerra deixou de ser percebida como uma exceção. Tornou-se um horizonte considerado plausível e progressivamente normalizado.
Tudo isso acontece justamente na Europa, continente que, depois de duas guerras mundiais devastadoras, construiu parte de sua identidade política em torno da paz, da cooperação e da integração econômica. Hoje, esse mesmo continente parece caminhar na direção oposta, substituindo a linguagem da negociação pela linguagem do rearmamento.
Na Rússia, por sua vez, surge uma novidade : cresce a insatisfação interna. Segundo Gilbert Doctorow, muitos continuam apoiando Vladimir Putin, mas criticam a condução cautelosa da guerra. Para eles , Putin tornou-se um moderado, Os ataques com drones, as ações contra refinarias, regiões de fronteira e a Crimeia fizeram com que o conflito deixasse de ser uma realidade distante e passasse a integrar o cotidiano da população russa.E isto altera a percepção sobre o conflito.
Esse ambiente fortalece setores mais radicais do establishment, que pressionam por respostas mais contundentes, como por exemplo do uso de armas nucleares táticas . Não porque desejem necessariamente uma guerra mundial, mas porque entendem que a ausência de reação estimula novas iniciativas da OTAN. Se essa leitura estiver correta, a situação torna-se ainda mais perigosa. Quanto mais um lado amplia suas ações acreditando que o outro permanecerá contido, maior tende a ser a pressão interna para romper essa contenção. A história demonstra que processos desse tipo frequentemente escapam ao controle dos próprios governantes.
Ao ouvir essas análises, lembrei-me imediatamente do texto que publiquei neste blogue, “Quando a guerra é bem-vinda: o crescimento da economia de guerra na Rússia e na Europa”. Naquele ensaio procurei demonstrar que a guerra havia deixado de ser apenas uma tragédia política para transformar-se numa engrenagem econômica da crise estrutural do capitalismo. Passados alguns meses, tenho a impressão de que essa hipótese tornou-se ainda mais evidente.
Retomo, portanto, o argumento central daquele artigo. O momento atual não pode ser compreendido apenas como uma disputa geopolítica entre Rússia, Ucrânia, OTAN e Estados Unidos. Existe uma lógica histórica mais profunda em funcionamento.
A economia de guerra tornou-se um dos principais mecanismos de administração da crise estrutural do capitalismo contemporâneo. À medida que diminuem as possibilidades de valorização do capital na economia civil, cresce o peso relativo da produção militar, dos investimentos estatais em defesa e da expansão da indústria armamentista. A destruição deixa de aparecer apenas como consequência da crise e passa a integrar os próprios mecanismos de reprodução do sistema.
Na Rússia, a economia de guerra reorganiza a indústria, fortalece o complexo militar e mobiliza investimentos públicos em larga escala. Dados recentes indicam que os gastos militares russos ultrapassaram 6% do PIB em 2023, acompanhados da reativação de fábricas militares e da expansão acelerada da produção de armamentos.
Na Europa observa-se movimento semelhante. O rearmamento passou a ser apresentado como política industrial, geração de empregos, inovação tecnológica e fortalecimento da soberania continental. A Alemanha aprovou um fundo extraordinário superior a 100 bilhões de euros para modernizar suas Forças Armadas, enquanto o gasto militar europeu atingiu níveis recordes, ultrapassando 480 bilhões de dólares, segundo o SIPRI.
Ao mesmo tempo, gigantes da indústria bélica, como a Rheinmetall, na Alemanha, e a BAE Systems, no Reino Unido, registram crescimento expressivo de receitas, lucros e encomendas. A destruição converte-se, assim, em oportunidade de investimento, expansão industrial e valorização do capital.
Enquanto isso, os problemas sociais se aprofundam. Recursos públicos migram para o setor militar, direitos sociais deixam de ser prioridade, políticas ambientais são adiadas e o custo da crise é transferido para a população. Tudo isso passa a ser justificado em nome da segurança nacional.
Um exemplo emblemático dessa inversão de prioridades pôde ser observado na mais recente reunião preparatória da COP, realizada no Egito. Em vez de representar um avanço decisivo nas negociações climáticas, o encontro foi marcado pelo reconhecimento das enormes dificuldades para ampliar os compromissos financeiros destinados ao enfrentamento da crise ambiental. Ao mesmo tempo, praticamente não existe qualquer restrição política quando se trata de aprovar centenas de bilhões de dólares para o rearmamento europeu, ampliar os orçamentos militares ou financiar novas remessas de armamentos. A comparação é reveladora: enquanto a preservação das condições de vida no planeta enfrenta obstáculos permanentes de financiamento, a economia de guerra encontra recursos praticamente ilimitados. A ameaça climática, que compromete o futuro de toda a humanidade, passa a disputar espaço orçamentário com uma lógica militar que parece não conhecer limites.
É exatamente assim que a economia de guerra vai sendo naturalizada.
Já não se trata apenas de produzir armas. Trata-se de reorganizar toda a sociedade em função da guerra. Nesse processo, reduz-se também o espaço para o pensamento crítico. Questionar a escalada militar passa a ser interpretado como ingenuidade, irresponsabilidade ou alinhamento ao adversário. A própria ideia de paz transforma-se em objeto de suspeita.
Essa talvez seja uma das maiores derrotas culturais do nosso tempo.
A paz deixa de ser um objetivo político para ser apresentada como ingenuidade.
É precisamente contra essa lógica que precisamos reagir.
O problema já não é apenas a guerra na Ucrânia. O problema passou a ser a transformação da guerra em método permanente de organização econômica e política. Uma sociedade que passa a depender da produção contínua de armamentos para manter sua dinâmica econômica torna-se prisioneira da própria destruição.
Quanto maior a crise estrutural do capital, maior tende a ser o peso da economia de guerra. E quanto mais essa economia se expande, maiores se tornam as pressões por novos conflitos. Forma-se um círculo vicioso em que destruição, acumulação e militarização passam a alimentar-se mutuamente.
Não por acaso, a indústria armamentista registra lucros extraordinários enquanto cresce o discurso da inevitabilidade da guerra.  Em 2023, as cem maiores empresas do setor ampliaram significativamente suas receitas, impulsionadas pelo conflito na Ucrânia e pelo acelerado processo de rearmamento europeu.
A guerra gera mercados, contratos bilionários, inovação tecnológica financiada pelo Estado e expansão industrial. Mas produz também mortos, refugiados, cidades destruídas, medo permanente e a possibilidade concreta de uma escalada capaz de ultrapassar qualquer limite racional.
Nenhuma sociedade deveria aceitar isso como normal.
Por isso, considero urgente reconstruir um amplo movimento internacional pela vida e pela paz. Não me refiro a uma paz subordinada aos interesses de um bloco militar contra outro, nem a uma paz sustentada pelo chamado equilíbrio do terror ou por novas corridas armamentistas. Refiro-me a um movimento capaz de recolocar a defesa da vida humana acima dos interesses geopolíticos, das disputas entre potências e da lógica econômica que transforma a destruição em oportunidade de negócios. Trata-se de recuperar a paz como projeto civilizatório e não como simples intervalo entre duas guerras.
Um movimento dessa natureza inevitavelmente entrará em choque com a lógica do capitalismo contemporâneo. Quando a guerra passa a funcionar como fator de crescimento econômico, defender a paz deixa de ser apenas uma posição ética e transforma-se também numa posição política. Significa enfrentar interesses profundamente enraizados na indústria armamentista, no sistema financeiro que a sustenta, nos grandes conglomerados tecnológicos ligados ao setor militar e em governos que descobriram na militarização uma forma de administrar suas próprias crises econômicas e sociais.
É exatamente nesse ponto que a luta pela paz adquire um conteúdo anticapitalista. Não porque pertença a determinada corrente ideológica, mas porque a reprodução do capitalismo contemporâneo depende cada vez mais da expansão dos gastos militares, da produção permanente de armamentos, da criação de novos inimigos e da transformação da insegurança internacional em mercado. Enquanto essa lógica permanecer intacta, a guerra deixará de ser exceção para tornar-se um componente estrutural da própria dinâmica de acumulação do capital.
Defender a paz, portanto, significa muito mais do que reivindicar o cessar das hostilidades na Ucrânia ou em qualquer outro conflito. Significa questionar um modelo de desenvolvimento que converte ciência em tecnologia militar, recursos públicos em orçamentos de defesa, direitos sociais em despesas secundárias e vidas humanas em simples variáveis estratégicas. Significa afirmar que a segurança coletiva não pode continuar sendo construída sobre a ameaça permanente de destruição mútua, mas sobre novas formas de cooperação internacional, justiça social e preservação das condições materiais da vida.
Creio que essa seja a tarefa histórica mais importante do nosso tempo. Se não conseguirmos reconstruir um grande movimento internacional pela paz, capaz de enfrentar simultaneamente a militarização crescente e a lógica econômica que a alimenta, continuaremos caminhando para um cenário em que guerras regionais poderão transformar-se, a qualquer momento, em confrontos de alcance imprevisível. A humanidade já dispõe de tecnologia suficiente para destruir a si própria. O que lhe falta, neste início do século XXI, é construir uma vontade política capaz de impedir que isso aconteça.
Ainda há tempo para mudar esse rumo. Mas esse tempo não será medido pelo calendário. Será determinado pela velocidade com que a economia de guerra avança e pela capacidade das sociedades de romper o silêncio, recuperar a política e recolocar a defesa da vida no centro da história.

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