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Passeio Completo: Como Posso Não Ser Montgomery Clift?

Claudia Chaves 10 de julho de 2026 7 minutes read
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Normalmente não conseguimos entender a infelicidade, seja ela em que dimensão. Mas, quando ela atinge pessoas que consideramos bem-sucedidas – os famosos, os ricos, os bonitos, aqueles a quem a vida parece ter premiado regiamente –, tudo se transforma numa charada sem solução. É dessa incapacidade de compreender por que alguém busca, tão longe de si, uma felicidade impossível que nascem trajetórias suicidas. A matéria-prima de Como Posso Não Ser Montgomery Clift? é justamente esse conflito: por que tenho tanto, sou tanto, mereço tanto, e ainda assim não consigo ser feliz?

Gustavo Gasparani encarna um Monty – como o ator era chamado – multifacetado, apresentado ao público como fragmentos de um espelho quebrado que, aos poucos, formam um mosaico imperfeito. Um dos homens mais bonitos de Hollywood nos anos 1950, Montgomery Clift teve a vida transformada por um grave acidente que marcou para sempre o seu rosto. É essa beleza ferida que conduz o delicado texto do premiado dramaturgo espanhol Alberto Conejero López, até então inédito no Brasil. Conejero não escreve uma biografia, mas uma investigação da alma humana, transformando a dor em poesia sem cair na armadilha da explicação fácil.

O sobrenome Clift significa penhasco, e sua existência parece desenrolar-se permanentemente à beira do abismo. Gustavo Gasparani transforma essa metáfora numa interpretação de rara intensidade: forte e pungente, desesperada e serena, comovente como poucas vezes se vê em um palco. A direção de Fernando Philbert potencializa esse trabalho ao apostar na depuração. A cenografia de Natália Lana faz da banheira o centro simbólico da encenação, enquanto os holofotes mantêm o personagem sob permanente exposição, como se jamais pudesse escapar do olhar do mundo. O impecável smoking criado por Marieta Spada e a iluminação de Vilmar Olos dialogam com essa ideia de elegância e aprisionamento, compondo um desenho visual de grande sofisticação que traduz a personalidade fragmentada e contraditória de Clift.

Gustavo cumpre à risca o conselho de Muhammad Ali: “Voe como uma borboleta, ferroe como uma abelha”. Monty deseja ser reconhecido pelo talento, não pela beleza. Sofre com a própria homossexualidade, sonha com um palco ao lado de Elizabeth Taylor e trava uma batalha permanente contra si mesmo. O resultado é um ator em estado de plenitude – a montagem celebra seus 40 anos de carreira – capaz de revelar que a dualidade governa a condição humana e que nosso maior desafio talvez seja aceitá-la. Gustavo Gasparani faz esse papel lindamente, numa interpretação que confirma por que é um dos grandes atores do teatro brasileiro.

 

Teatro Laura Alvim – Casa de Cultura Laura Alvim

Av. Vieira Souto, 176 – Ipanema / RJ Tel: (21) 2332-2016

HORÁRIOS: 6ª e sábado às 20h e domingo às 19h / INGRESSOS: R$60 e R$30,00 (meia) em https://bit.ly/3QEdGEg e na bilheteria de 3ª a 6ª das 16h às 20h, sábados e feriados das 15h às 20h, domingos das 15h às 19h / DURAÇÃO: 70 min / CLASSIFICAÇÃO: 16 anos / GÊNERO: monólogo / CAPACIDADE: 190 espectadores / TEMPORADA: até 26 de julho

arp bar – Gastronomia

Há hotéis que oferecem conforto. O Arp oferece um modo de viver o Rio. Sob o comando dos irmãos Daniel e Marcelo Gorin, o hotel alcançou uma sofisticação carioca única, sem afetação, em perfeita sintonia com aquele que talvez seja o lugar mais apaixonante da cidade: o Arpoador. A vista, a luz, o mar e a atmosfera fazem parte da experiência tanto quanto a arquitetura e a hospitalidade.

No térreo, o arp bar ganhou um reforço de peso com a chegada do chef Camilo Vanazzi, de quem sou fã de carteirinha. Sua cozinha encontra o espírito do restaurante com absoluta naturalidade. Depois de comandar, por anos, a cozinha do Emiliano Rio e de acumular passagens por restaurantes estrelados e experiências internacionais, Camilo traz um repertório técnico refinado, mas cozinha com a simplicidade elegante de quem conhece o mar. Surfista, transforma essa intimidade com o oceano em pratos que valorizam o frescor do ingrediente, a técnica francesa e o respeito à sazonalidade.Campeão de terra e mar.

Fui acompanhado de minha amiga Eugênia, pessoa de extremo bom gosto e excelente conhecedora de sabores. Camilo, sempre gentil, fez questão de conduzir pessoalmente nossa experiência, e bastaram as primeiras garfadas para entendermos que estávamos diante daquele que considero o melhor bar praiano que conheço no Patropi.

O novo cardápio nos faz sentir a bordo de um barco, como se um pescador mergulhasse a poucos metros dali e trouxesse, naquele instante, os peixes e frutos do mar que chegam à mesa. É uma cozinha em que o frescor não é discurso, mas sensação.

Começamos pelas impecáveis vieiras grelhadas com manteiga de avelã, creme de pupunha, farofa de bacon e pão sourdough. O ponto das vieiras era irretocável, levemente douradas por fora e delicadas por dentro, enquanto o pão da casa praticamente implorava para ser mergulhado no molho. Em seguida veio o hummus de abóbora com queijo feta, nozes-pecã picantes, mel e sálvia crocante. É um pedaço do Mediterrâneo debruçado sobre o mar de Ipanema, acompanhado pelo delicioso mandiopan de arroz, uma fritura leve e crocante que merecia voltar a frequentar mais mesas brasileiras.

Eugênia preferiu um dos pescados do dia, revisitado pelo chef e servido com couscous de couve-flor, pistache tostado, picles de cebola roxa e molho beurre blanc. Um prato delicado, preciso e elegante, que traduz perfeitamente a proposta da casa. Eu, no entanto, rendi-me ao polvo com arroz negro. Servido com bacon, aioli de limão, páprica e picles de beterraba, o prato revela o domínio técnico da cozinha. O arroz negro é traiçoeiro: basta um minuto a mais para perder a textura. Aqui chega perfeito, com os grãos no ponto exato, valorizando o sabor natural do ingrediente.

Nas sobremesas, a viagem muda completamente de rumo. Saímos do Atlântico e desembarcamos nos rios da Amazônia. Auge da confeitaria o entremet de cupuaçu e cumaru reúne mousse de cumaru, gel de cupuaçu, bolo de coco, crocante de chocolate branco e cremoso de iogurte. À primeira vista parece uma verdadeira pororoca de ingredientes, mas tudo encontra equilíbrio e resulta numa sobremesa memorável. Encerramos com uma excelente torta basca, acompanhada de calda e crocante de pistache.

Saímos para a brisa da tarde e fiquei pensando como é possível encontrar arte tanto no teatro quanto na cozinha. Camilo faz de cada prato uma verdadeira instalação, em que cores, equilíbrio e design dialogam com o sabor. Nossa próxima incursão já está decidida: o Plateau de Frutos do Mar (R$ 179), que sintetiza a assinatura do chef em uma única experiência. Ostras, salmão gravlax, ceviche, tartar de atum com wakame, vinagrete de polvo, mexilhões marinados, camarões grelhados, lagosta, molho rosé e pão sourdough compõem um percurso pelos sabores do oceano.

De preferência, acompanhado de uma taça de espumante, para podermos aplaudir duas obras de arte ao mesmo tempo: o belíssimo pôr do sol do Arpoador, visto desse ponto privilegiado, e a espetacular refeição do arp bar.

 

Serviço:

Arp bar

Rua Francisco Otaviano, 177, Ipanema CEP 22080-040 Rio de Janeiro RJ

Reservas: usetag.me/arpbar | 21 3600-4041 | 21 97156-6589 (whatsapp) hotelarpoador.com/arp instagram.com/arpbar

Horários de funcionamento: café da manhã | 7h às 11h, diariamente. almoço e jantar | meio-dia às 23h, de segunda a sábado; meio-dia às 22h aos domingos.

Formas de pagamento: Todos os cartões de crédito e débito, dinheiro, VR, Alelo, Ben, Ticket e Sodexo.

Taxa de rolha: R$75 por garrafa

Rampa de entrada e banheiro acessível

Capacidade total: 100 pax

About the Author

Claudia Chaves

Author

Carioca, professora, publicitária, colunista e doutora em Artes e Indústria do Entretenimento, Claudia Chaves vive entre teatros, restaurantes, bares e museus em busca de boas histórias. Já escreveu para a Mastercard Black, Veja Rio, Jornal do Brasil e outros veículos. Nesta coluna, junta gastronomia e teatro como quem sabe que grandes espetáculos também acontecem à mesa. Observadora profissional da vida carioca, ela acredita que uma boa conversa pode começar num palco e terminar num bar. E faz um ótimo camarãozinho com chuchu

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