
Julho sempre foi um mês especial para mim.
É o mês do meu aniversário e também o das férias da infância, quando minha família costumava alugar uma casa no Vale da Boa Esperança, na serra fluminense.
Guardo na memória as noites frias, as manhãs cobertas por neblina e, depois, aqueles dias de um azul intenso.
Voltei agora, depois de mais de vinte anos vivendo nos Estados Unidos.
A natureza continua magnífica. As montanhas permanecem no mesmo lugar, a vegetação segue exuberante e o frio da noite conserva a atmosfera das antigas férias de julho.
Mas foi impossível não perceber que alguma coisa mudou.
Ou talvez tenha permanecido igual.
Percorrendo as estradas da serra encontrei mansões escondidas atrás de muros altíssimos, guaritas, cercas vivas e tapumes verdes. As próprias casas quase não podem ser vistas.
Seus moradores parecem querer desaparecer da paisagem. Ou talvez não queiram ser vistos.
Fiquei me perguntando: o que esses muros procuram esconder?
A riqueza nunca me incomodou. O que incomoda é o contraste. Basta olhar para o outro lado da estrada para encontrar construções improvisadas às margens dos rios ou penduradas nas encostas, vulneráveis às chuvas e aos deslizamentos.
O pobre permanece exposto.
O rico sobe o muro.
Esses dois mundos convivem lado a lado como se essa desigualdade fosse parte da paisagem.
A ocupação da serra avançou sem planejamento. O trânsito tornou-se caótico, as cidades cresceram no improviso e a natureza passou a disputar espaço com o concreto.
Em mais de vinte anos, ninguém enfrentou seriamente a ocupação desordenada? E a reforma urbana? E a reforma da terra?
Uma pequena cena no hotel resumiu muito do que eu estava observando.
Depois de um atendimento impecável, tentei oferecer uma gorjeta a um funcionário. Ele agradeceu, mas recusou. Disse, constrangido, que a proprietária proibia os empregados de receber qualquer gratificação.
Passei a observá-los com outros olhos.
Carregavam malas, serviam refeições, atendiam os hóspedes e passavam boa parte do tempo tirando fotografias das famílias. Estavam sempre presentes e, ao mesmo tempo, pareciam invisíveis.
No fim do expediente, muitos voltariam justamente para as casas das encostas e das margens dos rios.
Dias antes eu estava numa área rural da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Hospedei-me num pequeno hotel onde os próprios proprietários trabalhavam na cozinha e serviam os hóspedes ao lado dos funcionários.
Outra imagem ficou gravada na minha memória. Os jardins das casas se encontravam. Um gramado emendava no outro. Não havia muros altos, cercas ou guaritas. A paisagem era aberta, como se a confiança também fizesse parte da arquitetura.
Ao regressar à serra fluminense encontrei o oposto.
Resolvi voltar ao Vale da Boa Esperança, onde minha família passava as férias de julho.
Não consegui entrar.
O vale inteiro havia sido cercado. Uma guarita controlava o acesso. Um lugar que fazia parte da minha infância tornou-se inacessível.
Não pude deixar de pensar na força daquele nome. Vale da Boa Esperança.
Esperança para quem? Para seus felizes proprietários?
E, que esperança resta para os brasileiros que vivem logo adiante, nas encostas instáveis, muitas vezes trabalhando diariamente para manter o conforto de quem vive atrás daqueles muros?
Gilberto Freyre escreveu Casa-Grande & Senzala para explicar a formação da sociedade brasileira. Passadas tantas décadas, talvez a arquitetura tenha mudado, mas a lógica permanece. A casa-grande transformou-se no condomínio fechado.
A senzala espalhou-se pelas periferias e comunidades que fornecem a mão de obra para manter funcionando o conforto do lado de dentro.
Vivemos próximos, mas separados por uma distância social que aprendemos a considerar natural.
O Brasil nunca teve dificuldade em construir muros.
O verdadeiro desafio sempre foi construir uma sociedade em que eles fossem desnecessários.
Talvez essa seja a reforma que ainda nos falta: não apenas a da terra ou das cidades, mas a da maneira como enxergamos uns aos outros.
Enquanto existir um país para quem vive atrás dos muros e outro para quem os constrói, limpa e protege, continuaremos repetindo, sob novas formas, uma história muito antiga.
A paisagem da serra continua belíssima.
Talvez seja justamente por isso que doa tanto perceber que, em meio a tanta beleza, a casa-grande continua de pé.




