
Há espetáculos que nos fazem sair do teatro querendo conversar. Outros nos deixam em silêncio. Absolvição pertence a essa segunda categoria. Não apenas pela qualidade da encenação, mas porque coloca o espectador diante de um dos crimes mais devastadores que uma sociedade pode produzir: o abuso infantil cometido justamente por quem deveria proteger.
Existem fatos sussurrados na calada dos ambientes. Outros são tão impensáveis que sequer encontram palavras para serem ditos. E há aqueles que, de tão abjetos, jamais deveriam existir. O abuso infantil é um deles. Ainda assim, ele existe, insidioso, escondido sob o manto da autoridade, da confiança e do silêncio. É desse tema, no coração da Igreja Católica, que Absolvição constrói uma experiência teatral ousada e profundamente impactante.
A peça nasce das entrevistas realizadas pelo dramaturgo irlandês Owen O’Neill com vítimas de abuso em um país fortemente católico. A partir desse material, a dramaturgia amplia a discussão ao abordar também os limites da justiça e o desejo de vingança, sem oferecer respostas fáceis.
A direção de Daniel Herz foge do óbvio ao criar uma encenação de grande força visual. O uso das cadeiras como elementos cenográficos transforma objetos cotidianos em imagens carregadas de significado, enquanto o espetáculo se desenvolve com precisão e crescente intensidade.
Destaca-se a atuação de Andriu Freitas, que transita com impressionante domínio entre diferentes estados emocionais. Sua interpretação é intensa sem recorrer ao excesso, sustentando um personagem cheio de ambiguidades. O formato de depoimento adotado pela dramaturgia aproxima o público da narrativa e reforça a principal qualidade do espetáculo: provocar perguntas, e não entregar respostas.
Para equilibrar a brutalidade do tema com a delicadeza da encenação, o cenário de Wanderley Gomes — um grande painel inspirado nas grades de um confessionário — aproveita com inteligência o espaço reduzido e amplia simbolicamente o conflito entre culpa, fé e julgamento. O figurino acompanha essa proposta ao conduzir o personagem para uma dimensão quase redentora, sem jamais simplificar os dilemas morais apresentados.
Absolvição mergulha nas zonas mais obscuras da condição humana e expõe suas fragilidades sem recorrer a clichês ou soluções confortáveis. Sua maior virtude está justamente na coragem de enfrentar um tema doloroso com profundidade e respeito. Ao final, o espetáculo não busca absolver ninguém. Apenas nos lembra que o teatro continua sendo um dos poucos lugares capazes de nos obrigar a olhar de frente para aquilo que a sociedade insiste em esconder.

Serviço
Teatro Poeira
Terças e Quartas às 20 horas
Chopperia Botafogo: onde a tradição carioca continua acesa na brasa
Há restaurantes que nascem para seguir modismos. Outros entendem que boa comida nunca sai de moda. A Chopperia Botafogo pertence a esse segundo grupo.
Instalada no casarão que durante anos abrigou a Comuna, a casa encontrou rapidamente sua personalidade. Mesas na calçada, ambiente descontraído, carnes na parrilla, petiscos impecáveis, chope bem tirado e um atendimento daqueles que faz a gente querer voltar antes mesmo de ir embora.
É comida de verdade. Sem firulas, sem fusion, sem nouvelle cuisine. Apenas ingredientes de qualidade, preparo cuidadoso e muito carinho.
As mesinhas na rua me fizeram lembrar imediatamente de Roberto DaMatta. O antropólogo sempre observou que boa parte da riqueza da cultura brasileira acontece justamente nesses espaços de convivência: sentar na calçada, encontrar amigos, observar o movimento da cidade e conversar sem pressa. A Chopperia Botafogo resgata exatamente esse espírito.
E faz isso de ponta a ponta.
Há, inclusive, mesas destinadas a quem chega acompanhado do seu cachorro, tornando a casa verdadeiramente pet friendly.
Por trás desse acerto está Ronaldo Porto, dono das risadas e do poder de ser o melhor anfritião. É daqueles restaurateurs que entendem de gastronomia sem precisar ficar ocupando a cozinha. Conhece o ponto perfeito da calda do pudim, sabe que um bom pastel de queijo leva catupiry de verdade e guarda pequenos segredos que fazem toda a diferença, como transformar o creme do pão de alho em uma deliciosa maionese servida como acompanhamento.
Ao seu lado está Nelson Almeida, profissional formado na tradição das grandes casas cariocas, trazendo a experiência de restaurantes que ajudaram a escrever a história da gastronomia do Rio.
Fui com minha amiga Denise justamente para assistir ao jogo entre Inglaterra e Noruega pela Copa do Mundo. Denise — ou simplesmente Dedé, como a chamo — é paulistana, elegante como os bons paulistanos costumam ser, e uma cozinheira extraordinária. Faz, sem exagero, o melhor cuscuz paulista que já comi. É amiga de forno, fogão e boas conversas. Dividir essa experiência com ela tornou a tarde ainda mais especial.
O ambiente estava perfeito: gente animada, televisão ligada, clima de torcida, chope gelado e aquela atmosfera de botequim que transforma qualquer partida em festa.
Além do impecável chope Brahma, servido sempre no ponto, a casa oferece diversas torneiras de chopes artesanais e especiais, permitindo ao cliente explorar diferentes estilos.
Começamos pelos petiscos. O pastel de queijo merece aplausos: massa finíssima, frita no ponto exato, seca, crocante e recheada generosamente. O torresmo impressiona pela textura, crocante por fora e macio por dentro. Já a linguiça na brasa confirma a vocação da casa para trabalhar ingredientes simples com excelência.
A grande estrela é a parrilla instalada no terraço. Dela saem cortes preparados exatamente no ponto pedido. Optamos também pelos legumes grelhados — tomate, cebola, milho, abóbora e berinjela — apenas com ervas, sal grosso e fogo. Simples e deliciosos. Acompanhamos tudo com a maionese de batatas da casa e um corretíssimo arroz à grega. Para quem prefere uma guarnição mais tradicional, há ainda arroz de brócolis, farofa de banana e batatas portuguesas.
Outro grande acerto é o almoço executivo. Ele resgata uma tradição que o Rio infelizmente foi perdendo: os excelentes PFs servidos nos grandes restaurantes da cidade. São pratos completos, preparados com o mesmo cuidado dedicado ao restante do cardápio, oferecendo comida de verdade, bem executada e com excelente custo-benefício.
Saí da Chopperia com uma certeza: a casa conseguiu algo raro nos dias de hoje. É contemporânea justamente porque acredita na tradição. Não tenta reinventar a gastronomia; prefere fazer o clássico muito bem. E consegue. Gostei tanto que já marquei meu retorno. No próximo domingo estarei novamente por lá para torcer pela Espanha.
¡Arriba, Chopperia !
Serviço:
Rua Sorocaba, 585
Quartas a Sábados : 12:00 à. 00:00
Domigos: 12 às 20:00



