
Estreou A Metamorfose no teatro do CCBB RIO 3.
Criação do coletivo Anêmona Teatro.
O texto de Jopa Moraes, a partir da obra de Franz Kafka, é uma ficção; relaciona teatro e literatura; estruturado em um prólogo, e três capítulos; instigante; reflexivo; crítico; mescla momentos de tensão e de bom humor; clama pela tolerância; contemporâneo.
Ainda no âmbito do texto convém sublinhar a adequação da obra de Kafka a uma realidade tropical, com um verão chuvoso, alagamentos, e curtição da família na praia, depois de um período trágico. Portanto, na adaptação de Jopa, a história não se passa na fria e congelante cidade de Praga.
Vale sublinhar que Jopa incluiu também outros textos de Kafka, bem como os seus diários, redigidos em momentos de solidão.
O elenco é integrado por Vitor Schei, Larissa de Paula, Nayane Ficher e Rafael Nasária. Eles estão unidos, entrosados e afinados. Eles formam um grupo jovem, apresentando um horizonte repleto de expectativas futuras, que só com a presença de palco vão obter a experiência necessária e se tornar artistas de mérito. Qualidade eles têm. Apresentam boas interpretações, e expressam emoção, deixando transparecer sentimentos de repulsa, raiva, aversão, entre outros. Conseguem passar bem o texto, de forma clara, e apresentam uma retórica correta. Dominam o palco, se movimentando intensamente e preenchendo os espaços. Estabelecem uma boa comunicação com o público, convidando-o a participar de uma cena na peça e pronunciar pequenos textos numa língua não convencional. Portanto, uma atuação singela de jovens atores que têm muito a crescer profissionalmente. Talento e vontade não lhes falta!
Ganha destaque a atuação de Vitor Schei como Gregor Samsa. Ele sofreu uma metamorfose: de ser humano num inseto. No papel deste último apresenta toda uma movimentação corporal, fruto de uma preparação intensa, andando agachado com as mãos e pernas. Em alguns momentos vira de patas para o ar deitado sobre a carapaça. Apresenta uma voz fosca, fruto da sua transformação radical e irreversível. A indumentária do inseto realizada por Alex Grilli é criativa, bem solucionada e produzida.
A direção de Jopa Moraes é criativa e consistente, com marcações precisas que deixam o texto dinâmico e bem conduzido, potencializando a qualidade das interpretações do elenco.
Os figurinos criados por Dimi Rumbelsperger são simples e adequados.
As criações da mencionada figurinista para os “animais de Kafka”, produtos dos seus sonhos inquietantes, que se apresentam no prólogo, são criativos, utilizam materiais alternativos como plásticos de sacos de lixo, e coloridos (azul, rosa e laranja). Utilizam máscaras com bonitas confecções, criadas por Chris Igreja.
A cenografia criada pior Jopa Moraes é mínima, constituída por mesa e cadeiras.
A Iluminação criada por Jopa Moraes apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação dos atores. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo, dinamismo e complementando as falas.
A direção musical de Gustavo Gomes é potente, apresentando uma trilha sonora que acompanha o texto, conferindo à narrativa uma sonoridade poética, além de auxiliar na construção dramatúrgica.
A Metamorfose apresenta uma correta adaptação da obra de Franz Kafka, com uma adequação à realidade tropical; um elenco jovem, promissor e que se apresenta com garra e determinado; e criativa indumentária do inseto.
Ótima produção cênica!





