
Por Ricardo Cravo Albin – Presidente do Instituto Cultural Cravo Albin e ex-presidente do Instituto Nacional do Cinema e da Embrafilme.
Há pessoas que atravessam a nossa vida profissional e deixam apenas uma lembrança passageira. Outras, porém, pertencem a uma época inteira. Quando me lembro de Luiz Carlos Barreto, é justamente assim que o vejo: como um homem intimamente ligado a uma geração que acreditou no Brasil e que procurou, através do cinema, revelar ao mundo a complexidade, a beleza e também as contradições de nossa terra.
Minha convivência com Barreto se inscreve num período particularmente intenso da cultura brasileira. Eu vinha da experiência extraordinária do Museu da Imagem e do Som, que ajudara a criar e dirigi ao longo de tanto tempo. Mais tarde, ao assumir a presidência do Instituto Nacional de Cinema cumulativamente com a direção da Embrafilme, mergulhei no cinema brasileiro em sua efervescência, com seus sonhos, suas lutas e suas enormes dificuldades.
Foi nesse ambiente que convivi mais de perto com Luiz Carlos Barreto, sempre acompanhado por sua hoje viúva, Lucy Barreto, bem como aos filhos do casal Bruno, Fábio (in memorian) e Paula Barreto, aos quais saúdo agora enternecidamente.
Recordo-me de um círculo de amigos e companheiros que se formara em torno daquele cinema heroico que então procurava novos caminhos. Estavam próximos de nós David Neves, Leon Hirszman e tantos outros. Barreto era uma presença marcante, um homem de cinema por inteiro, daqueles que não se limitam a assistir à história: querem participar dela.
Havia nele uma energia muito própria. Barreto tinha a capacidade de compreender o cinema como arte, mas também como instrumento de afirmação cultural e isso, para mim, sempre foi essencial. Lutamos pela abertura de mercados para o cinema brasileiro, mas ele não poderia ser apenas uma indústria. Precisava ser, antes de tudo, uma maneira de pensar o Brasil.
Quando estive à frente do INC e da Embrafilme, vivi um período de grandes responsabilidades. Procurávamos criar condições para que o cinema nacional pudesse produzir, circular e alcançar o público. Era um momento em que o Estado começava a assumir um papel mais estruturado no financiamento e na organização da atividade cinematográfica. E eu tinha a convicção, como os Barreto, de que era preciso abrir espaço para os nossos realizadores.
Luiz Carlos e Lucy Barreto estavam entre aqueles que frequentavam intensamente meu gabinete e participavam das discussões sobre os rumos do cinema brasileiro. Sua presença fazia parte daquele movimento maior de cineastas e produtores que queriam um cinema nacional mais forte, mais livre e mais identificado com a nossa realidade. Nossas preocupações se encontravam num ponto fundamental: a necessidade de construir uma identidade cultural própria do nosso país.
O tempo passou, naturalmente. Vieram outras gerações, outros filmes, outras formas de fazer cinema. Mas algumas amizades e alguns encontros permanecem porque estão associados a momentos decisivos de nossas vidas.
É assim que me recordo de Luiz Carlos Barreto.
Não apenas como o grande produtor que ajudou a construir capítulos fundamentais de nosso cinema, mas como um companheiro de uma época em que todos nós tínhamos a sensação de estar participando de alguma coisa maior. Barreto e sua incansável Lucy dedicavam sua energia à realização e à produção de filmes que ajudaram a formar a imagem de um país em transformação. Trabalhávamos para que o Brasil pudesse contar a sua própria história e afirmar seus valores culturais e comerciais.
Luiz Carlos Barreto pertence a essa história.
E eu me sinto feliz por ter cruzado meu caminho com o dele, naquele tempo tão intenso em que a nossa cultura parecia estar permanentemente à procura de um novo Brasil.




