
Eu minto, mas minha voz não mente
“Eu minto, mas minha voz não mente.” Inspirada na canção de Caetano Veloso, a frase oferece uma chave privilegiada para entrar no universo de Nelson Rodrigues. Em O Beijo no Asfalto, a tragédia não nasce do beijo de Arandir em um desconhecido agonizante. Nasce da palavra. Nelson aponta seu verdadeiro canhão para cada personagem. Não dispara balas, mas discursos. São eles que fabricam culpados, constroem inocentes e transformam um gesto de compaixão em escândalo público.
Na direção de Marco André Nunes, a montagem preserva a força do clássico e reúne Eduardo Sterblitch como Arandir, Luísa Arraes como Selminha, Edson Celulari no papel de Aprígio, André Mattos como Amado Ribeiro e Ernani Moraes como o delegado Cunha. Mais do que reproduzir os diálogos, o desafio do elenco é encontrar a musicalidade própria de cada personagem, pois, em Nelson Rodrigues, a voz revela aquilo que os fatos muitas vezes escondem.
A ideia que desenvolvo em minha pesquisa de doutorado ajuda a compreender essa arquitetura dramatúrgica. Nelson constrói suas personagens pela voz. Cada uma possui uma identidade verbal singular. Cunha impõe autoridade pela brutalidade; Amado manipula pela retórica; Selminha hesita; Dália insinua. A palavra não acompanha a ação. Ela é a ação.
Nelson organiza essas vozes como um mosaico. Assim como um jornal reúne fragmentos que o leitor transforma em narrativa, seus personagens oferecem apenas partes da realidade. A mentira converte-se em verdade porque encontra emissores investidos de autoridade. Décadas antes das redes sociais, Nelson já compreendia que não basta inventar uma mentira: é preciso que alguém com legitimidade a proclame.

A montagem evidencia essa dimensão, embora nem sempre alcance a mesma potência da dramaturgia. O espetáculo ocupa um espaço cercado pelo público, mas a cenografia e parte da movimentação permanecem organizadas segundo a lógica frontal do palco italiano. O painel de fotografias, importante para a narrativa visual, praticamente desaparece para quem está nas laterais. Mais do que um problema de visibilidade, trata-se de uma questão de linguagem: em uma peça que discute diferentes versões da realidade, parte da plateia recebe uma versão visual incompleta da própria encenação.
Entre as interpretações, Nina Tomsic oferece a composição mais refinada da noite. Sua Dália compreende que Nelson escreve tanto nos silêncios quanto nas palavras. A atriz constrói uma personagem cuja força nasce da insinuação, da precisão da fala e da inteligência das pausas. Pedro França também merece destaque como Aruba. O ator evita transformar o personagem em mera caricatura e confere humanidade ao homem submisso, compondo um capacho tão patético quanto comovente. Também merece destaque a breve participação de Fernanda Dias, cuja Vizinha recupera um tipo profundamente carioca, observadora da vida alheia e propagadora de boatos, com humor, naturalidade e fina ironia. Eduardo Sterblitch sustenta com sobriedade o percurso de Arandir, evitando excessos e preservando a humanidade do personagem diante do crescente linchamento moral.
Sessenta e cinco anos depois de sua estreia, O Beijo no Asfalto continua extraordinariamente contemporâneo. Não apenas porque antecipa as fake news ou o linchamento moral, mas porque compreende um mecanismo muito mais profundo: as pessoas raramente acreditam nos fatos; acreditam nas narrativas. As personagens podem mentir sobre os acontecimentos, mas jamais mentem pela voz. É nela — no ritmo, na pausa, na violência ou na insinuação — que Nelson Rodrigues revela a verdade mais íntima de cada ser humano.
Serviço:
Teatro Gláucio Gil
Quinta a Segunda : 20 horas
O sabor das lembranças no Cervantes
Depois do mergulho no passado proporcionado por O Beijo no Asfalto, resolvemos continuar a viagem pela memória. Bastou caminhar algumas quadras até a Rua Prado Júnior para chegar ao Cervantes, um daqueles endereços que fazem parte da história afetiva do Rio de Janeiro.
Eu e Rosana descobrimos que cada uma guardava lembranças muito diferentes daquele lugar.
As minhas começam na Copa do Mundo de 1970. Eu convivia com vários jogadores da inesquecível seleção brasileira — Pelé, Tostão, Rivellino, Clodoaldo e o goleiro Leão. Eles estavam hospedados no Plaza Hotel, cuja saída dos fundos fica justamente na Prado Júnior. Durante a concentração da Seleção, os jogadores não podiam sair do hotel. Por isso, muitas vezes me pediam um favor: atravessar a rua para comprar os famosos sanduíches do Cervantes. Eu voltava com os lanches, entregava a encomenda e ainda ficava um pouco conversando antes de eles retomarem a rotina da seleção.
Anos depois, o Cervantes voltou a fazer parte da minha vida por outro motivo. Depois das estreias no Cinema 1 e das sessões do tradicional Festival JB de Curtas-Metragens, artistas, jornalistas e cinéfilos terminavam invariavelmente ali. E eu repetia sempre o mesmo pedido: o clássico sanduíche de presunto de Natal com abacaxi, acompanhado da inesquecível salada de batatas, um dos maiores símbolos da casa.
Rosana conheceu o Cervantes em outro momento da vida. Muito mais jovem, frequentava o restaurante depois de sair com os amigos. Enquanto eu revivia lembranças da Copa e do cinema, ela recordava encontros, conversas e noites que também tinham o Cervantes como cenário. Foi divertido perceber como um mesmo lugar consegue fazer parte da história de gerações diferentes.
O melhor é constatar que o tempo passou, mas o Cervantes continua fiel à sua essência. Os tradicionais garçons de paletó branco mantêm aquele atendimento elegante e acolhedor que parece cada vez mais raro. Tivemos ainda a felicidade de sermos atendidas por Tiago, simpático, atencioso e conhecedor do cardápio. Com discrição, boas sugestões e muito profissionalismo, ele tornou nossa experiência ainda mais agradável.
Enquanto colocávamos a conversa em dia, brindamos com um excelente chope preto, cremoso e muito bem tirado. Também experimentamos as deliciosas batidas de maracujá com gengibre, refrescantes, equilibradas e servidas pela equipe que circula pelo salão oferecendo a bebida aos clientes, um cuidado que reforça a hospitalidade da casa.
Rosana escolheu o risoto de camarão, preparado no ponto certo, cremoso, com camarões generosos e muito saborosos. Eu resolvi experimentar uma das novidades do cardápio: um sanduíche de presunto cru, queijo brie derretido e rúcula. Uma combinação deliciosa. O pão, de excelente qualidade, sustenta perfeitamente o equilíbrio entre o sabor marcante do presunto, a cremosidade do brie e o frescor da rúcula. Para acompanhar, a tradicional salada de batatas continua simplesmente irresistível.
O cardápio também mostra que a casa soube acompanhar os novos tempos. Além dos clássicos que fizeram sua fama, hoje oferece opções vegetarianas e veganas, sem perder a identidade que transformou o Cervantes em um dos restaurantes mais queridos da cidade.
Saímos dali com a agradável sensação de que alguns lugares conseguem vencer o tempo. O Cervantes preserva suas memórias, acolhe novas gerações e continua sendo ponto de encontro de cariocas e visitantes. Depois de uma peça que nos fez refletir sobre o passado e sobre a força das narrativas, terminamos a noite no lugar perfeito para descobrir que algumas histórias também podem ser contadas à mesa, entre um chope bem tirado, um sanduíche inesquecível e muitas lembranças compartilhadas.
Serviço:
Das 11h às 5h
Av. Prado Júnior, 335



