
Essa semana fui conversar com um cara que já viveu no placo nomes como Raul Seixas, Renato Russo e agora vive Nelson Rodrigues. Bruce Gomlevsky é ator, diretor, produtor e cenógrafo com atuação marcante no teatro, no cinema e na televisão desde 1994. Formado pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), fundou a Companhia Teatro Esplendor, integrou a Cia de Ópera Seca de Gerald Thomas e participou de mais de 70 espetáculos. Acumula premiações de prestígio, incluindo o Prêmio APTR de Melhor Ator por “Memórias do Esquecimento”, o Prêmio Cesgranrio por “Uma Ilíada” e o prêmio de Melhor Direção por “O Homem Travesseiro”. Na TV participou de produções como as novelas “Novo Mundo” e “Amor Perfeito”, e a série internacional “Passaporte para Liberdade”. Agora interpreta Nelson Rodrigues sucesso absoluto de público e crítica, em cartaz no Shopping da Gávea, no Rio. O cara é uma fera! Confira nosso bate-papo.
JP – Olá Bruce! Como surgiu o projeto da peça Nelson Rodrigues. O Passado Sempre Tem Razão?
O projeto do espetáculo é do Carlos Jardim, que é o diretor, produtor e dramaturgo. Ele teve a ideia, idealizou, e me convidou, me dando esse grande presente que é interpretar Nelson Rodrigues.

JP – Como está sendo interpretar Nelson Rodrigues?
Está sendo um grande desafio, mas está sendo uma grande alegria ao mesmo tempo. Porque eu sou apaixonado pela obra do Nelson. Sempre gostei das suas peças, dos textos, das crônicas, dos romances. Então é um presente para mim interpretar o Nelson Rodrigues. É muito desafiador porque é um personagem muito importante e conhecido. Mas o mais importante é trazer a alma do Nelson para a cena. E acredito estar podendo realizar esse objetivo por meio dessa dramaturgia de excelência que o Carlos Jardim concebeu.
JP – Quais sâo os aspectos do texto do Carlos Jardim, com sua participação, que você gostaria de salientar?
O Carlos Jardim conseguiu criar uma dramaturgia bem interessante no sentido de falar de vários assuntos que o Nelson abordava: amor, futebol, relações humanas, família, teatro, artes em geral, cinema. O Nelson fala de diversos assuntos. Nós conseguimos criar esse caleidoscópio de pensamentos do Nelson dando conta de vários assuntos pertinentes até hoje, muito atuais que o Nelson abordou. Então eu considero que a dramaturgia conseguiu dar conta dos assuntos importantes que o Nelson trabalhava, estava na escrita dele.
JP – No âmbito da obra de Nelson Rodrigues, quais sâo aqueles textos que mais lhe fascinam? Justifique.
É sempre difícil escolher o que preferimos mais em termos de texto do Nelson. Eu amo as peças obviamente, sobretudo Álbum de Família, que é a minha peça preferida, pela força da peça, pelo choque que é a peça. Até hoje é uma peça mítica que trabalha questões familiares, de incesto, e que ficou vinte anos censurada. Até hoje é uma peça que incomoda muito. Uma peça muito profunda, muito incomodativa. Eu acho que o Nelson é um profundo conhecedor da psiquê humana, e ele expõe a podridão humana de uma maneira muito contundente em peças como Álbum de Família.
JP – Onde reside a atualidade de Nelson Rodrigues?
A atualidade do Nelson reside no fato de que ele escreveu de forma universal e atemporal. Ele trabalha nos seus escritos o ser humano, as questões humanas na sua dimensão mítica. E isso é atemporal. É mais contemporâneo do que nunca.
Eu costumo dizer que se o Nelson escrevesse em inglês, ele seria conhecido no mundo inteiro. Eu considero que ele está num patamar dos maiores escritores do ocidente no século XX.
JP – Você atua como ator, e diretor também. Como é o Bruce dirigindo?
O Bruce dirigindo é um encenador cujo foco está no trabalho, no treinamento, no corpo, na voz, na psiquê, na questão psico-física, do comportamento em cena, comportamento psico-físico do ator. Eu considero que todas as minhas encenações partem do trabalho do ator, das improvisações e da criatividade dos atores com os quais estou trabalhando. Eu me interesso também pela cenografia, pela música, pelo figurino, pela iluminação, todos os elementos que integram o teatro. Mas eu destaco o foco no trabalho do ator, a pesquisa sobre o trabalho criativo dos atores.
JP – Renato Russo, Raul Seixas, Cyrano De Bergerac, Homero, Hamlet, entre outros personagens que você já interpretou. O que os aproxima e os diferencia?
Em relação aos personagens que eu escolho interpretar, que eu me apaixono, eu considero que tem uma questão paradoxal que é interessante, porque eles são diferentes. Eu procuro sempre me arriscar, me provocar, e trabalhar com personagens bem diferentes. Por outro lado, eles estão todos dentro de mim. Todos os personagens são uma viagem para dentro de mim mesmo, que me permite me auto conhecer, explorar elementos da minha personalidade que eu não costumo explorar. No sentido que nós acabamos interpretando sempre o mesmo personagem. São personagens polêmicos, malditos, atormentados, inquietos, provocadores. Isso é o que me interessa. Personagens complexos, com muitas camadas e muita complexidade.
JP – Quais sâo os seus projetos futuros?
Meu maior projeto futuro é conseguir voltar em cartaz e manter no repertório as peças que eu fiz no ano passado, e nesse ano. Tem quatro peças da Companhia Teatro Esplendor que eu dirigi (Hamlet, Pedrinhas Miudinhas com o Ricardo Lopes; Outra Revolução dos Bichos, com o Gustavo Damasceno; Um Tartufo), quatro peças que estão no repertório que nós estamos querendo e tentando voltar. Quero fazer muito Nelson Rodrigues, Raul Seixas. E voltar com Renato Russo esse ano, celebrando vinte anos. Esses são os projetos. Fazer o que eu já fiz, o que eu já estou fazendo, mantendo a chama acesa dos espetáculos que estão no meu repertório nesse momento.





