
O Filho das Mães, em cartaz no Teatro Laura Alvim, é uma comédia de costumes que, apesar de sua estrutura assumidamente popular, continua falando de questões muito atuais: família, preconceito, diversidade, pertencimento e, sobretudo, a dificuldade de aceitar que o outro possa escolher uma forma diferente de viver.
A história acompanha as confusões provocadas pela inseminação artificial de um casal de mulheres de tradicionais famílias judaicas. A situação coloca em choque diferentes gerações, valores e expectativas familiares. A montagem aposta no humor e no exagero para tratar de assuntos que continuam absolutamente presentes — porque a família muda, os costumes mudam, mas o preconceito insiste em sobreviver.
Sérgio Fonta está ótimo, especialmente no domínio do sotaque iídiche, enquanto Carlos Loffler surge quase irreconhecível, de cabelos escuros escondidos sob o kipá. Celso André faz um rabino hilário, daqueles personagens que entram em cena e imediatamente mudam a temperatura da plateia.
No fim, por trás das confusões, das diferenças religiosas e das convenções familiares, fica uma ideia simples e poderosa: é o amor que nos permite alcançar a felicidade — e, muitas vezes, também nos ensina que a felicidade do outro não precisa ser igual à nossa.

Teatro Laura Alvim
Terças e Quartas às 20 horas
Padaria Ipanema: o santo protetor de Ipanema
Sábado meio esquisito, daqueles que não são exatamente de barro nem de tijolo. Foi nesse intervalo do dia que eu e meu amigo Luiz Paulo, psicanalista daqueles que leem a alma de tudo — inclusive dos pratos e dos vinhos — fomos almoçar na Padaria Ipanema. Duas horas depois, olhando o mar e o Cristo do terraço, estávamos agradecendo por viver numa cidade que tem uma Padaria Ipanema.
Logo na chegada, fomos recebidos por Luciano, maitre à antiga, daqueles que sugerem, comentam, conhecem os pratos e sabem conduzir a mesa. Comecei com um refrescante Lillet com frutas e tônica, uma animação para aquele horário ainda indeciso. Luiz Paulo, homem dos clássicos, pediu um Negroni. Drinques equilibrados e estávamos prontos para começar.
Vieram um misto de frutos do mar, com lula, peixe e dois camarões enormes, daqueles que quase pedem documento. A massa, feita com farinha de trigo e cerveja, abraçava os pedaços sem esconder o sabor do que estava dentro. Para acompanhar, uma maionese aerada, quase um suflê. Pedimos também um tartar, bem temperado, com gema de ovo defumada sobre pão da casa. Frescor, fumaça, gordura e textura — tudo muito bem equilibrado.
Luiz Paulo, fiel ao seu amor pelo cordeiro, escolheu a paleta cozida lentamente, tão macia que se desmanchava, acompanhada de nhoque artesanal e uma fonduta cremosa de parmesão. Comida que tem alguma coisa de memória afetiva, daquele prato que poderia ter saído da cozinha de mãe, mas chega à mesa com uma execução sofisticada.
Eu fui de carne de sol: medalhões grelhados na brasa, no ponto escolhido, com o sabor defumado do forno a lenha Josper. Vieram batatas fritas crocantes, farofa da casa e vinagrete. Mas o pecado — e a glória — estava ao lado: creme de queijo com pão de massa de pizza. Dos deuses. Daqueles acompanhamentos que fazem qualquer promessa de moderação desaparecer.
E se a comida salgada já impressiona, as sobremesas são uma vitrine da confeitaria francesa. Fui de éclair de pistache; Luiz Paulo escolheu tarte aux fraises, pão de ló, creme e morangos extraordinários. Tudo ali parece obedecer à mesma lógica: criatividade com tradição, sabores inusitados e combinações equilibradas. Nada é gratuito, nada parece querer apenas surpreender. A surpresa vem porque os sabores funcionam.
Ficamos no terraço, olhando o mar e o Cristo, naquele momento em que a cidade parece nos lembrar por que ainda é tão bom viver aqui. E então vem a constatação: a Padaria Ipanema não é apenas restaurante. Tem pães, salgados, café da manhã, confeitaria, almoço, jantar, drinques — tudo de primeira — e ainda funciona 24 horas. E, para completar, o chope vem bem tirado.
É um daqueles lugares que fazem parte da cidade não apenas pelo que servem, mas pelo que representam. Um endereço que consegue ser padaria, restaurante, bar e ponto de encontro sem perder a alma. No nosso sábado meio esquisito, a Padaria Ipanema resolveu tudo.
E por trás desses lugares diversos que funcionam tão bem estão Silvana e Antônio, com todo cuidado, competência e atenção aos restaurantes da Rede Belmonte. Porque administrar um restaurante não é apenas fazer a máquina funcionar: é cuidar dos detalhes, da equipe, da comida e, principalmente, de quem está sentado à mesa. Na Padaria Ipanema, esse cuidado aparece em tudo — da cozinha ao salão, do pão ao chope, do atendimento à experiência.
Obrigada, santo protetor de Ipanema.
Padaria Ipanema
Rua Visconde de Pirajá, 325 — Ipanema, Rio de Janeiro
Funcionamento: 24 horas.



