
Há coisas que parecem nascer para a solidão. Uma cadeira vazia diante da janela. Um copo esquecido sobre a mesa. Um barco afastando-se devagar da areia. Mas talvez a solidão seja apenas uma maneira diferente de estar acompanhado. No Rio, até o silêncio encontra companhia.
Basta um homem velejando sozinho pela Baía de Guanabara. Pequeno diante da imensidão azul. A vela branca recortando o horizonte. O vento conduzindo o barco como quem conhece o caminho. Ele vai só. Mas não está sozinho. Tem o mar. Tem o céu e tem o Rio. A cidade observa.
Do alto do Corcovado, o Cristo parece guardar aquele pequeno velejador. O Pão de Açúcar acompanha a travessia. As montanhas fazem moldura. E a solidão ganha outra dimensão. É quase uma conversa sem palavras. No Leblon, outro solitário entra no mar. As ondas estão agitadas. Brutas. Bonitas. Ele nada contra elas. Braçada após braçada. A cidade permanece na areia, olhando. Os edifícios parecem espectadores silenciosos. O Dois Irmãos, ao fundo, é testemunha. O nadador está sozinho dentro daquela água inquieta. Mas o Rio nada com ele. Há uma beleza particular nos gestos solitários. O kitesurfista que corre pela areia, segura a pipa e deixa o vento levá-lo. Por alguns segundos, parece voar. O praticante de asa-delta que se lança da Pedra Bonita. Primeiro, o salto. Depois, o silêncio.
Lá embaixo, o Rio se abre inteiro. Praias. Montanhas. Lagoas. Florestas. A cidade que, vista de cima, parece menos apressada. Menos barulhenta. Quase uma maquete construída pela natureza para lembrar ao homem que ele é pequeno. O paraglider também conhece essa sensação. Planando. Flutuando. Suspenso entre o céu e o mar. Sozinho. Completamente sozinho. E, ao mesmo tempo, acompanhado por uma cidade inteira. Talvez seja esse o segredo do Rio. Aqui, ninguém está realmente sozinho. Há sempre uma paisagem por perto. Uma montanha. Uma árvore. Uma nuvem. Uma gaivota atravessando o enquadramento. Um raio de sol pousando sobre o mar. Até os objetos têm sua própria solidão. Uma prancha encostada na areia depois do último mergulho. Uma bicicleta esquecida junto ao calçadão. Um banco vazio diante do oceano.
Um barco amarrado no cais, balançando lentamente, como se ainda sonhasse com o próximo destino. O fotógrafo entende essas coisas. Porque fotografa justamente aquilo que parece não pedir fotografia. Um instante. Uma ausência. Uma espera. A beleza escondida no que permanece quieto enquanto o mundo passa. Talvez a solidão não seja ausência. Talvez seja presença em estado puro. Quando estamos sós, percebemos melhor o vento. O som das ondas. A mudança da luz. O cheiro da maresia. O desenho das montanhas. E percebemos a cidade. O Rio torna-se companheiro. Não fala. Não pergunta. Não exige. Apenas está. Está quando o sol nasce atrás das montanhas. Está quando a tarde dourada toca os prédios. Está quando o mar escurece e as primeiras luzes se acendem na orla. Por isso, quem veleja sozinho, nada sozinho ou voa sozinho talvez esteja apenas experimentando outra forma de companhia.
A melhor delas. Aquela que não precisa de palavras. Porque há momentos em que basta olhar ao redor. E descobrir que a cidade maravilhosa está ali. Sempre ali. Como uma velha amiga. Como uma fotografia que nunca se repete. Como uma companheira silenciosa para todas as nossas pequenas e belas solidões.




























