Lula reeleito: a democracia exige mais do que celebrar
Por Bayard Do Coutto Boiteux
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva merece ser saudada. Ela traduz a confiança de milhões de brasileiros na democracia, na possibilidade de reduzir desigualdades e na construção de um país que não abandone os mais vulneráveis. A vitória, porém, não encerra o debate: abre um novo ciclo de responsabilidades.
O resultado das urnas também revela um país dividido. Caberá ao presidente reeleito construir pontes, recuperar espaços de diálogo e governar para todos os brasileiros. Isso exige ouvir quem pensa diferente, respeitar a pluralidade e não transformar divergências em muros. A conciliação não significa abrir mão de princípios; significa reconhecer que o país só avança quando a democracia acolhe a diversidade e busca objetivos comuns.
O voto é uma escolha e também uma cobrança. Quem volta ao Palácio do Planalto recebe a oportunidade de aprofundar avanços, corrigir erros e enfrentar problemas que continuam ferindo o cotidiano da população. O país precisa de diálogo, justiça social, oportunidades e resultados concretos. Celebrar a democracia significa protegê-la todos os dias, com respeito às instituições e compromisso com quem mais precisa.
Entre os temas que exigem atenção especial está a segurança. Não há desenvolvimento pleno quando as pessoas vivem com medo, quando trabalhadores deixam de circular em determinados horários ou quando comunidades inteiras convivem com a violência. Segurança pública é um direito da população e uma condição para que todos possam ocupar as ruas, usar o transporte, frequentar espaços culturais e receber visitantes com tranquilidade.
Essa atenção é indispensável também para o turismo. O visitante precisa poder conhecer um bairro, caminhar, usar o transporte e aproveitar uma atração sem receio de ser vítima de violência. Mas a segurança turística deve beneficiar, antes de tudo, moradores e trabalhadores, que enfrentam diariamente os efeitos da violência e da ausência de serviços públicos em algumas áreas.
Defendo o fortalecimento e a ampliação, em todo o país, dos batalhões especializados em turismo. Onde essas unidades já existem, é preciso garantir efetivo, equipamentos e formação contínua. Nos estados e destinos que ainda não contam com esse serviço, sua criação deve ser considerada como parte de uma política nacional de segurança turística. Esses batalhões precisam atuar de forma articulada, com preparo para orientar moradores e visitantes, prevenir ocorrências e responder com rapidez às situações de risco.
Segurança não se resume ao policiamento. Ruas bem iluminadas, transporte confiável, sinalização clara, canais de emergência acessíveis e equipes preparadas para acolher vítimas fazem parte de uma política completa. Também é importante reunir forças de segurança, governos, representantes do turismo, trabalhadores e comunidades locais em conselhos de segurança turística. Com planejamento, informação compartilhada e ações preventivas, será possível identificar áreas de maior risco e oferecer respostas mais eficazes.
Entre as áreas que merecem atenção permanente está o turismo. Nos últimos quatro anos, o setor voltou a ocupar espaço no debate sobre desenvolvimento, emprego e geração de renda. O Brasil superou a marca de 9 milhões de turistas estrangeiros em 2025, um recorde, e o turismo responde por quase 8% do PIB. Esses números revelam a dimensão de uma atividade que movimenta hotéis, restaurantes, transportes, cultura, comércio e milhares de pequenos negócios.
Também é preciso reconhecer o trabalho minucioso de Marcelo Freixo à frente da Embratur. Sua gestão fortaleceu a profissionalização da agência, com uma equipe técnica e o uso de inteligência de dados para orientar a promoção internacional do Brasil. Promover um destino exige pesquisa, planejamento, diálogo com o setor e continuidade. É um trabalho que nem sempre aparece nas manchetes, mas que ajuda a transformar a imagem do país em interesse, rotas, visitantes e oportunidades.
O turismo não pode ser tratado como assunto periférico nem depender apenas do entusiasmo de cada governo. Ele conecta regiões, valoriza a cultura, cria empregos e pode distribuir renda para além dos grandes centros. Para isso, precisa de políticas articuladas: promoção internacional, infraestrutura, conectividade aérea, qualificação profissional, preservação ambiental, segurança e apoio aos destinos que ainda não conseguiram mostrar todo o seu potencial.
É nesse contexto que ganha força a necessidade de uma PEC do Turismo. O setor precisa de uma base constitucional que dê continuidade às políticas públicas e ofereça condições mais estáveis para seu desenvolvimento. Já existe no Senado a PEC 12/2024, que propõe mecanismos de fomento ao turismo e destinação de recursos para o setor. É necessário fazer esse debate avançar, com participação ampla e compromisso com o desenvolvimento nacional.
Uma emenda constitucional não resolverá, sozinha, os desafios do turismo. Mas pode ajudar a dar previsibilidade, orientar investimentos e reconhecer que essa atividade merece planejamento de longo prazo. O Brasil precisa tratar o turismo como política de Estado, integrada à cultura, ao meio ambiente, à mobilidade, à segurança e à geração de emprego.
A vitória eleitoral dá ao presidente reeleito a oportunidade de unir o país em torno de objetivos comuns. O desafio será conciliar uma nação dividida e governar para todos, sem distinções, com respeito às diferenças e compromisso com o bem comum. A democracia pede escuta, responsabilidade e disposição para corrigir caminhos. Pede também que cada setor estratégico seja considerado com seriedade — inclusive a segurança pública e o turismo, ligados à liberdade de ir e vir, à qualidade de vida e à capacidade de o Brasil receber o mundo.
A reeleição merece ser celebrada. E será ainda mais digna de celebração se vier acompanhada de trabalho, diálogo e compromisso com um país mais unido, seguro, justo e inclusivo, capaz de transformar suas riquezas em oportunidades para todos.


