Quando o ódio tenta apagar a nossa história
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Por Henrique Pinheiro – Economista e Produtor Executivo do documentário “Terra Revolta”, autor de “Crônicas de um Mercado sem Pudor’, organiza “Crônicas que nunca contaram na escola” e a série “Entre Duas Cidades” – Colunista convidado.
Em menos de uma semana, dois episódios de vandalismo atingiram símbolos importantes da história brasileira.
Primeiro, a estátua do presidente João Goulart, em Porto Alegre. Agora, o memorial do Clube da Esquina, em Belo Horizonte.
Duas homenagens, duas histórias diferentes, mas uma mesma demonstração de desrespeito à nossa memória.
Jango foi deposto pelo golpe militar de 1964 porque defendia reformas destinadas a transformar as estruturas sociais e econômicas do Brasil.
O Clube da Esquina nasceu e floresceu durante a ditadura, quando a liberdade de expressão era vigiada, artistas eram perseguidos e a censura tentava silenciar a cultura brasileira.
Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Márcio Borges e tantos outros transformaram uma esquina de Belo Horizonte em referência mundial da música.
Meu pai, João Pinheiro Neto, conheceu de perto o preço da intolerância.
Ministro do Trabalho de João Goulart e presidente da SUPRA, responsável pela reforma agrária, foi preso em abril de 1964, cassado e afastado da vida pública.
Passou meses na prisão por defender ideias que contrariavam os interesses daqueles que não admitiam mudanças no país.
Meu pai costumava dizer:
“Quem tem privilégios não os abandona sem reação.”
Fico imaginando o que diria ao ver a estátua de Jango vandalizada e, poucos dias depois, o memorial de alguns dos maiores artistas mineiros atacado.
Provavelmente ficaria indignado. Mas não surpreso.
Ele sabia que a intolerância começa quando deixamos de respeitar o direito de pensar diferente.
A democracia não exige unanimidade. Exige respeito às divergências.
Não sabemos ainda quem praticou esses atos nem todas as suas motivações. Mas sabemos que destruir símbolos históricos e culturais jamais será uma forma legítima de manifestação política.
O mais preocupante é perceber que, 62 anos depois do golpe, ainda convivemos com manifestações de intolerância que deveriam ter ficado no passado.
Podem vandalizar uma estátua, mas não apagar a história de João Goulart.
Podem jogar tinta sobre uma esquina, mas não silenciar Milton Nascimento e Lô Borges.
Um país que não respeita sua memória, sua cultura e sua história dificilmente será capaz de construir um futuro melhor.
Foto Vandalismo no Clube da Esquina


