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Hora de respirar, acalmar o coração

Hora de respirar, acalmar o coração

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Por Carlos Fidelis Ponte –  Presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, Cebes – Colunista convidado.
Entre o cansaço, a esperança e a ansiedade da véspera, fica a certeza de que construímos algo que não podemos deixar se perder.
Há uma canção que não me sai da cabeça. Fala de fé, de não fugir à luta, de manter o foco e de enfrentar, com uma boa dose de irreverência, aqueles que nos fazem perder a paciência. Talvez porque traduza tão bem o que vivemos e o que sinto agora. Escrevo cansado, com uma certa ansiedade e o coração dividido entre a esperança e o receio de não alcançarmos aquilo por que tanto lutamos. Foram dias intensos, de conversas, encontros, caminhadas e emoções que ainda tento organizar.
Vi um Brasil extraordinário ocupar as ruas e as redes. Dos grandes centros às pequenas cidades, das praças às comunidades mais distantes, milhões de pessoas se mobilizaram, muitas delas descobrindo que não estavam sozinhas e que sua vontade de mudar o país era compartilhada por tantos outros. Vi criatividade, generosidade, disposição para conversar e uma alegria que parecia crescer a cada novo encontro.
Trago comigo algo que, acredito, cada um de nós também carrega e que não depende do resultado das urnas: o patrimônio que construímos nessa caminhada. Reforçamos nossos laços, reconhecemo-nos uns nos outros e experimentamos a felicidade de sonhar juntos. O que parecia um desejo individual ganhou a dimensão de um projeto compartilhado. E, em meio às incertezas, mostramos que o Brasil pode e deve ser feliz.
Trazemos conosco muito mais do que uma escolha eleitoral. Queremos viver em um país mais justo, onde ninguém precise ter medo do amanhã, onde o trabalho seja respeitado, a comida não falte à mesa e nossos filhos e netos possam crescer em paz. Um país onde viver bem não seja privilégio de poucos. Foi esse desejo que aproximou gerações, fez desconhecidos se abraçarem e transformou a preocupação com o futuro em vontade de participar. Descobrimos, na experiência de estar juntos, que podemos fazer muito mais do que nos acostumamos a acreditar.
Defendemos a democracia, as políticas que combatem a pobreza e abrem oportunidades, a soberania do nosso país, o SUS, a ciência, a educação e a cultura. Defendemos o direito de pensar, criar, discordar e ser diferente. E fizemos isso em um tempo difícil, marcado pelo avanço da extrema direita no Brasil e no mundo, pela intolerância e por uma maneira de fazer política que transforma adversários em inimigos. Um tempo em que tantas vezes se prefere atacar a escutar, a agressividade vale mais do que o argumento, a lacração toma o lugar da conversa e uma verdadeira indústria de mentiras, meias verdades e versões fabricadas procura distorcer a realidade.
É triste perceber como o ódio pode ser cultivado, como a mentira pode ser repetida até parecer verdade e como pessoas que antes conversavam com carinho passam a se tratar como inimigas. Mas não precisamos aceitar esse modo de viver. Precisamos saber distinguir os fascistas daqueles que foram manipulados, os espertos dos enganados, os criminosos dos indignados que ainda não encontraram como transformar sua revolta em ação capaz de mudar a realidade. Nem todos os que se deixam levar pelo discurso do ódio são seus autores ou beneficiários. Há pessoas feridas pelas injustiças, cansadas de promessas não cumpridas e à procura de respostas, mesmo quando acabam acreditando em quem explora seu sofrimento. Com elas, precisamos recuperar a capacidade de conversar, sem arrogância nem desprezo.
Com os facínoras, porém, é indispensável a firmeza. Quem pratica crimes, estimula a violência, ameaça direitos ou conspira contra a democracia deve responder por seus atos, com todo o rigor da lei e as garantias do devido processo legal. Não podemos confundir generosidade com ingenuidade, disposição para o diálogo com complacência, nem respeito às diferenças com tolerância diante da barbárie. É possível enfrentar injustiças sem cultivar a crueldade, defender nossas convicções sem humilhar quem pensa diferente e agir com determinação sem reproduzir os métodos que condenamos. A serenidade de quem sabe por que luta não é sinal de fraqueza, mas de uma firmeza que não precisa se alimentar do rancor.
Queremos um Brasil em que ninguém seja humilhado, ameaçado, agredido ou oprimido, física ou psicologicamente, por sua condição social, cor da pele, origem, orientação sexual, identidade de gênero, idade, deficiência, crença ou ausência de crença. Um país em que as diferenças não sejam motivo de perseguição, mas parte da riqueza de nossa convivência, e onde cada pessoa tenha o direito de ser quem é, de viver sem medo e de encontrar respeito mesmo entre aqueles que não compartilham suas ideias. A democracia que defendemos não se resume ao direito de votar. Ela precisa estar presente nas relações entre as pessoas, no trabalho, nas escolas, nas famílias, nas ruas e na maneira como tratamos quem pensa diferente de nós. Precisa também se traduzir nas condições concretas de vida, no acesso aos direitos e nas oportunidades de construir um futuro digno.
Penso especialmente nas pessoas que fizeram tudo o que podiam, cada uma dentro de suas possibilidades. Nas que caminharam sob o sol, distribuíram mensagens, ouviram desaforos sem responder na mesma moeda, conversaram com paciência e encontraram forças para continuar quando o desânimo parecia maior. Penso nas famílias que foram juntas às manifestações, nos jovens que descobriram o prazer de participar, nos idosos que carregam tantas lutas na memória e nas pessoas que, mesmo sem sair às ruas, acompanharam tudo com a expectativa de dias melhores. Lembro também as lágrimas de emoção e aquelas que vieram com a lembrança de quem já não está aqui, mas certamente estaria ao nosso lado. Foram incontáveis contribuições, muitas delas anônimas, que fizeram dessa mobilização uma experiência de pertencimento e solidariedade.
Lutamos o bom combate. Não porque sejamos donos da verdade ou melhores do que os outros, mas porque acreditamos que a vida vale mais do que o lucro e que a dignidade não pode depender da renda. Nenhuma sociedade será verdadeiramente livre enquanto parte de seu povo viver abandonada à própria sorte, condenada à pobreza, impedida de desenvolver plenamente a potência que carrega e de escolher os caminhos da própria vida. Lutamos também contra a tentativa de nos transformar em indivíduos isolados, entregues à competição permanente e à ideia de que cada um deve cuidar apenas de si. Defendemos a força do coletivo e a responsabilidade pelo bem comum.  Queremos uma cidadania efetiva, que não exista apenas nas leis, mas se faça presente na vida cotidiana, e uma democracia substantiva, que vá além das eleições e se traduza em direitos, oportunidades, participação e dignidade para todos.
A democracia exige respeito à vontade popular, livremente expressa, sem que estratégias de manipulação, desinformação ou práticas ilícitas comprometam a liberdade de escolha dos eleitores. Precisamos respeitar o resultado quando vence nossa escolha e também quando ela não vence, sem confundir esse compromisso com a aceitação de eventuais irregularidades.  Mesmo depois da proclamação do vencedor, não podemos descartar, ainda que remota, a possibilidade de que eventuais crimes eleitorais venham a ser investigados e julgados, com base em provas e com todas as garantias do devido processo legal. A soberania popular exige tanto o respeito ao voto quanto a proteção de sua legitimidade.
O compromisso com os direitos, a justiça, a liberdade e a solidariedade não pode depender de uma vitória eleitoral. Há conquistas a preservar, injustiças a enfrentar e muita coisa a construir, seja qual for o governo que sair das urnas. Continuaremos vivendo no mesmo país, com suas desigualdades, seus conflitos e suas possibilidades, e teremos de seguir defendendo aquilo em que acreditamos, sem permitir que a arrogância, o desdém ou a amargura nos transformem naquilo que combatemos. O Brasil é maior do que uma eleição, maior do que qualquer partido ou liderança política. E seu futuro não pode ser construído sobre o desejo de excluir aqueles com quem discordamos.
Talvez seja por isso que, mesmo cansado e apreensivo, sinto que participei de uma experiência extraordinária. Guardo as conversas, os rostos, as manifestações que tomaram as ruas e, sobretudo, a descoberta de quanta gente está disposta a dedicar tempo, energia e afeto a algo que ultrapassa seus interesses pessoais. Amanhã teremos um resultado, mas não uma resposta definitiva para tudo o que nos inquieta. Continuaremos precisando uns dos outros para enfrentar as decepções, reconhecer nossos erros e encontrar novos caminhos. O que vivemos não se desfaz quando as urnas se fecham. Está nas relações que construímos, na coragem que descobrimos e na disposição de não entregar aos outros a responsabilidade pelo país em que queremos viver.