Para Ler na Rede: Escolhas de livros e de vida
Os saudosos das livrarias de rua ainda não se conformam com o provável fim desses estabelecimentos onde tantos passaram horas folheando as mais diversas publicações, muitas vezes saindo de lá sem levar nenhuma. Há indicações claras sobre o ocaso das livrarias físicas, às quais correspondem 40% do volume de vendas de livros no país, enquanto 55% das compras do setor são feitas online. Na Internet, o leitor é incessantemente assediado por plataformas e editoras. Apesar da eficiência do comércio online, o algoritmo ainda confunde as preferências do freguês e oferece romances eróticos femininos a quem porventura se interessou por uma nova edição de “O morro dos ventos uivantes”.
Para evitar enganos do entusiasmado algoritmo, vale contar com as recomendações de críticos ou de autores consagrados. O peruano Mario Vargas Llosa era pródigo em destacar boas leituras, daquelas que leva à compra de olhos fechados. Na apresentação de “A relíquia perdida” (Vestígio, R$ 39,90), de Alejandro G. Roemmers, ele informa que o thriller pertence a um gênero originário da Inglaterra do século XVII, a “novela de circulação”, protagonizada por objetos inanimados que podiam ser trocados, vendidos, presenteados, passadas de mão em mão, às vezes por várias gerações, como o misterioso “último violino Stradivarius” que uma dupla de policiais paraguaios investiga por estar ligado ao um homicídio. Depois de discorrer sobre o segmento literário e comentar o ecletismo da produção do autor, Vargas Llosa diz ter certeza de que os leitores “saberão apreciar” a novela – o que pode indicar um apreço distraído – ou profissional – ao texto.
A época do ano também pode ajudar o empenho na boa compra de livro. Quando chega setembro e outubro e está próximo dos anúncios do Nobel, vale sempre encomendar algo de Joyce Carol Oates, a americana de 88 anos, vez por outra lembrada como um bom nome para o prêmio de Literatura. Escreveu cerca de 60 romances, além de contos, nos quais transita do gótico ao fantástico, com personagens, geralmente brancos pobres, que sobrevivem de subempregos muito distantes do sonho de prosperidade alardeado por Donald Trump, a quem se opõe. Um dos seis prêmios Bram Stoker – destinado a ficção de terror e fantasia – que ganhou, 2017, é “Jardim das bonecas” (Darkside, R$ 50), cujos protagonistas são predadores levados à criminalidade por diferentes fatores sociais combinados a patologias diversas. Além de boas tramas e muita crítica social, Oates tem uma técnica narrativa que se destaca no panorama da ficção contemporânea.
Há cerca de três anos, o jornalista Patrick Radden Keefe lançou “Império da dor” (Intrínseca, R$ 65), um contundente relato sobre a indústria farmacêutica norte-americana e o comércio de opiáceos nos Estados Unido. Com a mesma força narrativa, em “Uma queda em Londres” (Intrínseca, R$ 109,90), ele se debruça sobre os esforços dos pais de Zachary Brettler, de 19 anos, para entender o que levou o filho a se atirar da varanda de um apartamento à beira do Rio Tâmisa. O fascínio pela ostentação talvez explique os motivos para Zachary fingir ser filho de um oligarca russo, como contava aos colegas do internato caríssimo onde estudava. A família desconhecia a amizade do rapaz com gangsters; até hoje os motivos de sua morte não foram totalmente esclarecidos. Bem mais do que uma investigação de “true crime”, o livro faz uma imersão nas mudanças da sociedade inglesa a partir dos anos 1980, quando imóveis de luxo ocupam a antiga zona portuária do Tâmisa. A região tornou-se a favorita para investimentos de estrangeiros, o que a tornou praticamente sem moradores, com apartamentos desocupados e às escuras durante a noite.
Neste fim de semana, decidimos quem governará o Brasil nos próximos quatro anos. “Um país se faz com homens e livros”, dizia Monteiro Lobato. Que seja assim.
Entre um Nobel e outro, sempre me l.embro da Joyce Carol Oates. Como é temporada de Nobel, comecei a ler o tenebroso “Jardim das bonecas”. O que ela tem de bom? A gente não deixa de ler. Impressionantemente hipnótica. É uma mesmerização do leitor.


