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Doce Fruto do Tempo

Luiz Claudio de Almeida 11 de julho de 2017 5 minutes read
Redes Sociais
           

Por Anderson Muniz

Algumas vezes, não raro, quando estamos fazendo algo que em nada se relaciona com uma dada ideia, sentimos, de repente, a doce sensação de uma súbita compreensão.

Por razões que não cabem explicar neste momento, estava eu a preparar o que seria minha última aula a compartir com meus alunos de um juvenil 3º ano. O tema: As Artes na Espanha do início do século XX. Devo confessar que, a princípio, não estava muito inspirado para tal empreitada. O motivo; os resultados do último projeto “artístico” pedagógico da escola.

Movidos por um pós-modernismo inconsciente, num arroubo criativo, pichações em placas, teatralizações de fuzilamentos sumários e fotos de prováveis delinquentes se converteram na “arte” que adornava as paredes e colunas do pátio da escola, produto de nossa rubra educação, formadora de revolucionários de camas desarrumadas que nem consciência tem da própria inconsciência. Mas, arrebatado por um perigoso sentimento messiânico que frequentemente professores carregam, fui eu me preparar para esta última batalha. Talvez conseguisse, pensava, colocar quem sabe uma pulga (Pulga não! Melhor um vaga-lume) atrás das orelhas de meus alunos.

Para tanto, pensei em introduzir primeiro o conceito original de arte, ou melhor, de Arte, para eles tão desconhecido. Nada que filósofos e santos, escritores e escultores, mesmo que mortos, não dessem cabo. Depois, apresentaria exemplos dos principais nomes e obras que influenciaram a Espanha do conturbado início do século XX. Pinturas de Dalí e Picasso (Claro), a “Sagrada Família” de Gaudí e uma bela composição de Manuel de Falla, “Danza Ritual del Fuego” (Aliás, para quem quiser ouvir, existe um ótimo vídeo no Youtube da mesma sendo conduzida pelo maestro Daniel Barenboim), além de frases de escritores como Ortega y Gasset e Marañón fariam parte deste verdadeiro ritual de exorcismo.

Destes últimos, me chamou atenção uma frase de Ortega y Gasset; “Con la moral corregimos los errores de nuestros instintos y con el amor corregimos los errores de nuestra moral”. Indubitavelmente uma frase interessante e de efeito.

Minha primeira aula ocorreu às 7 da manhã. Lutando contra o sono dos alunos e o meu, comecei a “batalha”. Numa conversa sobre o que seria a Cultura, a Arte e o Belo, a aula de desenrolou bem. Se os alunos não conhecem Hamelet, conhecem Simba (devo confessar que assisti o Rei Leão no Cinema), se não conhecem Homero, conhecem Brad Pitt e assim vai se mostrando como a Arte é transcendental, afinal, a coragem de Aquiles ao se entregar a morte nos toca e admira até hoje, seja na Ilíada ou em Tróia da Warner.

A todo momento, admito, era motivado por um real desejo de despertar o aluno para o além ou para, como dizia Platão, a verdade que resplandece na Arte. Nesse ímpeto, como professores, somos tentados, muito comumente, a tirania. Tentados a extirpar a ignorância de nossos jovens alunos de todas as formas possíveis sejam elas quais sejam.

Ao terminar a aula, lá para as 10:40 da manhã, e depois de tomar um bom café com leite numa das padarias do Meier, sentei, como de costume para conversar com uma amiga professora. Conversamos, para variar, sobre educação, e como os alunos estavam; como dizer? Num verdadeiro obscurantismo. Formamos indivíduos pouco capacitados, do ponto de vista técnico e nada sensíveis, do ponto de vista cultural. Discutimos como esses conceitos-chaves (Cultura e Arte) eram ensinados e a maneira com que, muitas vezes propositadamente (vale denunciar), eram deturpados por motivos ideológicos ( e acreditem, o mal desse fato é incalculável). Falei como que por dois dias me empenhei em preparar esta aula, me cercando de leituras, vídeos e o que mais ajudasse. E ela, por

sua vez, confessou sua admiração com o minha força de vontade em estudar esses temas e se preparar. Confessou como sentia falta desse impulso nela mesma e como, com a idade, as dinâmicas da vida, marido, filhos e netos vão afastando a gente do mundo intelectual. Como somos impelidos a nos concentrar nas pessoas mais próximas da gente e como as preocupações do cotidiano concreto vão se impondo. Não, como disse ela, que a intelectualidade seja substituída pela vida concreta mas que esta ganha primazia na medida em que se relaciona com quem nos importa mais diretamente. De repente, uma doce sensação!!!

Foi nas palavras desta amiga que pude compreender. Mais do que bela e de efeito, a frase de Ortega y Gasset é profundamente sábia e a própria natureza da vida, como não poderia ser diferente, a atesta. Só quando nossa intelectualidade e moral, mesmo que com toda a razão, é submetida pelo amor, pelo sentimento concreto pelas pessoas que em laços se unem a nós, é que nos tornamos verdadeiramente sábios. Talvez, só precisemos de mais maturidade e experiências de vida pra poder provar o doce fruto do tempo.

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