28 de novembro de 2022

Este título aí acima nada tem a ver com a complexa estrutura da Via Láctea, ou com as teorias abissais de Carl Sagan, ou mesmo com ao até hoje abismador universo dos 200 bilhões de astros celestes que se pregam aos olhos dos terráqueos ao dirigir a visão ao céu, ao cosmo.

Minhas estrelas e suas claridades despontam em eventos que preencheram toda esta última semana e mexem em meu coração tão atento à sedução da alma do povo, a música popular que lubrifica nossa miscigenação bem como a originalidade do canto brasileiro.

Começa, como não poderia mesmo deixar de ser, pelo desalento que a morte súbita de Gal Costa fez desabar em todo país. Dizer-se que Gal Costa foi apenas uma das maiores cantoras brasileiras será pouco. A Gracinha de todos nós foi personagem contemporâneo do Brasil desde que surgiu em meados dos anos 60 no Rio de Janeiro. Deslumbrando o Brasil por inteiro. Falar de seus discos imortais, de seus shows, alguns dos melhores já montados no país, e de sua vivacidade ao escolher o repertório realçando e revelando sempre o melhor de seu tempo e de sua vivência será fundamental para bem apreciarmos o vulto gigantesco que nos fará tanta falta a partir de agora. Gal gravou no nosso Instituto para o especial de Chico Buarque ao lado de Djavan em 1993. Sempre foi nosso ícone.

No mesmo dia, atentem para o fatídico 9 de novembro, desaparece um pedaço vigoroso do canto uterino das profundezas, Rolando Boldrin. Praticamente nocauteado pela morte de Gal Costa, só soube do desaparecimento do gênio Boldrin algumas horas depois de chorar a enorme cantora neste lúgubre dia. Devo registrar – e o faço com orgulho – que o nosso Dicionário da MPB on-line sempre distinguiu os integrantes da vertente sertaneja, ou seja, a música essencial que brota do Brasil profundo, o país dos sertões, dos grotões, da simplicidade, da encantadora ingenuidade possível a um povo miscigenado e por vezes toscamente alimentado pela chamada cultura formal. Rolando Boldrin, fulgurante representante da verdade dessa magia caipira, nos deixa aos 86 anos, singrando uma trajetória de beleza e de encantamento com seus “causos” e sua genial “conversa ao pé do ouvido” através de presença constante em televisões e rádios.

Nesta mesma semana, comemorei no programa “Carioquice”, que apresento na Roquette Pinto, os 90 anos de outro ícone do melhor da cultura popular, o Zé Katimba.
Katimba é bem um fenômeno deste país mestiço. Semianalfabeto dos sertões cearenses, pensa e fala, insisto fala, como um acadêmico de melhor estirpe. Não à toa sempre foi viva admiração não somente minha, mas de gente como Martinho, Paulinho, Beth e Clara, além de Tom Jobim e Jorge Amado.

Outra luz que acendeu fortíssimo clarão nesses últimos dias foi Milton Nascimento. Em estádio monumental de Belo Horizonte no domingo, o amado Bituca teve a coragem de realizar “a última sessão de música”. Isso significou sua despedida dos palcos em shows, com que ele encantou o Brasil e o mundo desde 1966, quando arrebatou o 2º Festival Internacional da Canção Popular (o FIC) concorrendo com três músicas, das quais Travessia foi a vencedora moral, até porque tirou apenas o segundo lugar. Nunca me esqueço do meu entusiasmo no corpo de jurados. A tal ponto torcedor do Milton que o diretor do Festival, Augusto Marzagão, me convidou a subir ao palco para lhe entregar seu Galo de Ouro. – “Milton, eu torci para você ganhar o primeiro, não o segundo lugar!”. E ele modestamente – “mas com três músicas no Maracanãzinho, isso já é até demais”. E puxou seu acanhado smoking como querendo se livrar de adereço tão solene.
Agora quando do seu derradeiro show, estava em Juiz de Fora a convite do belíssimo Museu Mariano Procópio e por um triz não rumava a “Beagá” para assistir ao encerramento de suas apresentações públicas. E só não fui por receio das fortes emoções. O que de fato ocorreu na solidão de minha casa na Urca, quando ele entoou Travessia – “solto a voz nas estradas/já não posso parar/meu caminho é de pedra/como posso sonhar”. Milton em meio do palco, sentado, imóvel e envergando sóbria bata africana, parecia um Soba, um rei d’África, com movimentos mínimos apenas nas mãos. Uma solenidade real de fato invadia o palco e comovia a todos.

Na mesma noite, Paulinho da Viola e o Brasil celebravam os 80 anos do exemplar filho do grande músico César Faria, do conjunto Época de Ouro do Jacob do Bandolim. De imediato me dei conta que conheci Paulo César Faria aos vinte e poucos no Teatro Jovem, acompanhando as deusas Clementina de Jesus e Aracy Cortes em Rosa de Ouro. Para em meio século se erguer como um dos mais refinados interpretes do velho samba, alçando-se a uma corte real também centrada aqui pelo Bituca.

E falando em corte, minha última estrela a ser citada aqui será uma antecipação. Isso porque a rainha dos auditórios da antiga Rádio Nacional, Marlene, a eterna Rainha do Rádio, cumpriria cem anos de idade no próximo dia 22 de novembro.
A minha estimada Victória Bonaiutti de Martino, amiga pessoal queridíssima e a quem perfilei dezenas de homenagens (além de lhe ter escrito e dirigido sete shows individuais), será reverenciada na próxima terça-feira, dia 22, com missa na Igreja Santa Luzia, ao meio dia. E quem comanda a celebração? A Associação Marlenista, é isso mesmo que você leu, o fidelíssimo Fan Clube que idolatra a estrela por 70 anos ininterruptos.

Amor é isso, é constância e permanência. Desse modo, recebendo tais reverências, as estrelas incrustradas no coração do público jamais morrerão.

 

Foto O Globo

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