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Bate-papo com Adyr Assumpção que comemorou 50 anos de estrada no palco

Luiz Claudio de Almeida 12 de setembro de 2024 7 minutes read
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Essa semana fui conversar com o ator de Teatro, diretor, dramaturgo e roteirista. Curador e produtor da Imagem dos Povos e do Festival Internacional de Arte Negra em Belo Horizonte, Ady Assumpção, que comemorou 50 anos de carreira com o ‘Leão Rosário’. Uma adaptação do clássico ‘Rei Lear’ de Shakespeare, transportado para a ancestralidade africana. A peça esteve recentemente em cartaz no CCBB.  Confira!

JP –  Olá Adyr! Você está comemorando cinquenta anos de carreira. Qual é a avaliação que você nos apresenta da sua trajetória como profissional do Teatro?

Acho que as datas redondas são uma oportunidade para nós fazermos balanços, imaginar cenários futuros e avaliar situações vividas. A minha geração teve a oportunidade, nessas últimas décadas, de ver uma grande mudança nas relações, na tecnologia, nas relações sociais, enfim. Porém, ao fim de todo esse avanço voltamos às origens do fazer teatral artesanal como uma necessidade de uma relação mais direta entre humanos. Então, se ao mesmo tempo que todo esse avanço tecnológico dominou a pauta das últimas décadas, talvez a pauta atual seja o retorno o simples, ao essencial. Seja o nosso encontro aquela velha frase antiga que resume  o teatro em duas tábuas e uma paixão.

JP –  Como surgiu o projeto da peça teatral Leão Rosário?

Existem alguns textos, algumas propostas que sempre rondam a nossa vida, nosso imaginário de pessoas do teatro. E os textos de Shakespeare vão e voltam, cada vez de uma maneira. Eu fico imaginando que talvez eu não seja mais um ator com um perfil que possa fazer o Hamlet ou outro personagem mais jovem da galeria dos personagens shakespearianos. Mas, por outro lado, posso caminhar tranquilamente entre os personagens mais velhos. E, sem sombra de dúvidas, o Lear é um grande desafio, porque ele traz essa qualidade que Shakespeare deu ao seu teatro, de que os homens se transformam. Que a natureza se transforma, então ele traz essa qualidade de um ser, de um personagem clássico que pode mudar, que pode inclusive refletir sobre os próprios atos. É fascinante poder fazê-lo.

JP –  Quando se deu o seu interesse em representar?

Eu fui uma criança fascinada por histórias, eu aprendi a ler sozinho, folheando revistinhas, depois livros de aventuras, mas não conhecia o teatro, e quando eu  o conheci na adolescência foi aquela coisa do amor à primeira vista, que eu entendi que ali estava a melhor maneira de poder contar histórias, ou a maneira   melhor de viver histórias. Então não sei exatamente o momento que isso se dá, mas isso é bem lá no início da juventude, e o que faz a partir daí eu não sair mais desse labirinto mágico que é a caixa cênica.

JP –  Como se deu a sua formação como ator? Quando foi a sua estreia nos palcos de teatro? Qual foi o texto? Qual foi a importância para a sua trajetória?

Eu estreei fazendo o Puck de Sonho de Uma Noite de Verão, do Shakespeare, num teatro emblemático que é a Casa da Ópera de Ouro Preto,  o teatro mais antigo em atividade de toda a América. Então acho que eu tive essa oportunidade quase mágica de estrear em um espaço com essa força, essa magia. E fui dirigido pela Haydée Bittencourt. Ela foi uma diretora muito importante para o teatro de Minas Gerais e também do Brasil. Ela foi a primeira diretora do Teatro Universitário, que foi a minha primeira escola de teatro, o Teatro Universitário da UFMG. Eu acho que tudo o que eu sei da encenação teatral eu aprendi com ela, eu aprendi a partir dela, ela me deu as primeiras noções, ela me ensinou os primeiros passos e foi lindo fazer essa estreia que me marca até hoje.

JP –  Quais são as suas referencias (teóricas e práticas) no campo teatral?

As minhas referências são múltiplas. Eu, como um bom geminiano, gosto de me informar por todos os lados, mas sem sombra de dúvidas, do ponto de vista da encenação,  Bertolt Brecht, o escritor dramaturgo e diretor alemão, é a minha referência mais forte, junto com Shakespeare e Ésquilo, o dramaturgo grego. São três escritores, autores, diretores, que no seu tempo deixaram uma marca que me atrai muito. Acho que Chekov é um cara muito importante porque junto com Chekov vem o Stanislavski, e os dois, o Chekov escrevendo e o Stanislavski encenando dao início ao teatro moderno, a encenaçao moderna, a representação, e nessa linha eu acho que a grande síntese é Peter Brook, que é o diretor inglês, que também tem uma formação Shakespeareana, mas que vai ao encontro principalmente das expressões africanas, chegando num teatro bastante minimalista e muito exato, profundo. Leão Rosário, eu sinto, é uma síntese disso, desse caminho, Brecht, Shakespeare, Stanislaviski, Peter Brook.

JP –  Você participou do documentário sobre o Zé Celso Martinez Correa, fundador do Grupo Oficina. Como foi a sua participação? Você também trabalhou com o Zé Celso? Qual foi a importância dele para o teatro brasileiro?

Eu conheci o Zé Celso quando ele voltou do exílio em 1979, e então eu entrei para o grupo, para o Oficina, junto com outros atores que ele reuniu naquela época com o objetivo de retomar os trabalhos interrompidos com o exílio, o exílio do grupo. E nós trabalhamos durante quase dois anos juntos. Então eu me sinto partícipe do embrião de tudo o que o Oficina vai criar depois da volta do Zé. Nós, meu grupo, nós somos o grupo que demoliu o antigo teatro e lançou as bases para o teatro como ele é hoje, o Teatro Oficina Uzina Usona, a grande passarela do teatro brasileiro. O “Coro do Te-ato” é um filme feito pela Stella Oswaldo Cruz Penido, que participou do grupo junto comigo e registra esse período desse grupo, que foi o primeiro coro da reabertura, que reinicia os trabalhos do teatro e que naquele momento teve suas atividades interrompidas quando nós fomos presos e proibidos de trabalha juntos no ato violento da ditadura, mas que anunciava também a abertura democrática que veio depois. Hoje eu entendo que aquele é um momento muito importante, não só para a cultura brasileira, mas para o Brasil como um todo, e isso tem se comprovado pela repercussão que o filme tem tido em todas as plateias, não só na plateia especificamente de teatro.

JP –   Quais são os seus projetos futuros?

Atualmente, eu estou trabalhando em dois projetos diferentes, o Tan Dudu Itan –  Espalhando Histórias Pretas, que reuni uma série de trabalhos entre eles, o Leão Rosário, que falam universo do teatro, da expressão dramática negra,  colocando eles em circulação pelo Brasil. E um segundo que é a produção de uma série para televisão que eu escrevi, inspirada na história do Benjamin de Oliveira, um grande palhaço brasileiro, que além de ser um super palhaço, foi também cineasta, compositor, músico. Artista, filho de escravizados  nascido ainda no século XIX, e que foi uma das glórias da cena brasileira no início do século 20.

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