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Minha convidada de hoje é uma ‘malabarista’ das artes: Flavia Souza Lima

Chico Vartulli 19 de junho de 2025 6 minutes read
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Minha entrevistada de hoje é a poeta e produtora cultural Flávia Souza Lima.  Ela é intensa, apaixonada e perfeccionista, se divide entre a poesia – lançou na semana passada mais uma obra “Borda mais alguma poesia” – e o projeto “Terças no Ipanema” que trouxe de volta ao Teatro Ipanema as temporadas de shows. Além do Chiado Podcast e o Festival Poemúsica. Em nosso bate-papo ela fala da influência da música e da literatura em sua formação, dos poetas com os quais de identifica e muito mais. Confira!

JP – O amor é um tema muito presente no livro. Como lida com esse limiar entre o entusiasmo e o luto pelo fim de uma relação?

Acho que, enquanto existir sentimento, vai existir poesia, vai existir a vontade de escrever um poema, assim como a vontade de publicar e de se fazer livros. Não tem como não citar Fernando Pessoa no poema sobre as cartas de amor. Ele diz que só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas. E o ”Borda” é uma carta de amor de maneira geral. Não somente do amor romântico, mas também das percepções da vida, do amor da vida. Nenhum sentimento é mais revolucionário do que o amor. Sobre o entusiasmo, não acho que ele se encaixe como um sentimento, mas ele é válido quando, mais adiante, você percebe que a sua capacidade de amar permanece contigo. O amor é seu, o sentimento é seu e você o designa a quem quiser. E a poesia é essa imatéria que percebe todos esses sentimentos. E o Borda é o resultado disso tudo.

JP –  Você homenageia Adélia Prado, Antonio Cícero e Ledusha Spinardi. Quais poetas forjaram a poeta que você é hoje?

Quem escreve poesia carrega consigo uma espécie de mosaico das percepções da poesia que teve de tanta gente. E, além desses nomes, não posso deixar de citar Drummond, Gullar, Bandeira, Vinicius de Moraes e os poetas da canção: Gil, Caetano, Chico não necessariamente neta ordem. Dos mais canônicos, não dá para não citar Ana Cristina Cesar, Cacaso, Leminski… É uma quantidade imensa de poetas maravilhosos que a gente tem.

JP –  Rita Lee e Gal Costa são homenageadas também.  A música popular é tão importante quanto a literatura na tua formação?

A música é tão importante quanto a literatura na minha formação. Acho que temos grandes poetas na canção que estão aí: Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Ronaldo Bastos, Abel Silva, Arnaldo Antunes e os que citei anteriormente. Sem falar nas mulheres como Angela Ro Ro, Joyce Moreno e Adriana Calcanhotto. São grandes poetas que constroem o alicerce da canção brasileira. Já Rita e Gal não são necessariamente homenageadas ainda que mereçam todas as homenagens por serem dois grandes gênios da cena musical brasileira. Os poemas nos quais elas são citadas são um pequeníssimo desabafo quando a gente, e falo como país, pensa na falta delas e na dor pelas suas ausências. Acho que para homenagear dois nomes dessa grandeza é necessária uma obra, e o que faço são menções.

JP –  Com quais poetas da sua geração você se identifica?

Minha geração é uma geração que escreve e isso se dá cada vez mais. Há nomes que escrevem violentamente bem e isso é muito bonito de se perceber. E tem uma turma aí muito incrível. Ana Martins Marques é, para mim, o principal nome da poesia contemporânea. Estão aí Christovam de Chevalier, Maria Isabel Iório, Mar Becker, Alice Sant’Anna, Alexandra Maia, Bianca Ramoneda, Luiza Mussnich, Bruna Mitrano e Bruna Beber, Tom Grito, Patrícia Lino, Arthur Nogueira… Cito apenas alguns nomes dentro desse espectro que é imenso. Preciso citar também a Cris Lisboa que, ainda que não escreva no formato de poesia, faz poesia. E cito também Marília Garcia e Angélica Freitas, sem falar das portuguesas como Cali Boreaz, Matilde Campilho e Adília Lopes. É muita gente.

JP –  Você é curadora do “Terças no Ipanema”, que trouxe de volta ao Teatro Ipanema as temporadas de shows, com ingressos esgotados. O que te dá mais orgulho em relação a essa iniciativa?

O que me dá mais orgulho sem dúvida nenhuma é o fato de ter sido convidada pela Kati Almeida Braga para executar esse projeto. Tenho uma imensa alegria, honra, orgulho de ser parceira de trabalho dela nessa empreitada. Fora isso, poder mostrar a capacidade de coordenar um projeto, montar uma equipe sem esquecer um dado muito importante à música carioca que é o de poder levá-la de volta ao Teatro Ipanema. Estou muito feliz com isso e sinto um orgulho grande em todos os sentidos.

JP –  E o que podemos adiantar em relação às próximas atrações do projeto?

Vou buscar sempre um nome de relevância, alguém com uma estrada e uma história. Esse é, para mim, o ponto mais importante.

JP –  Você é responsável por iniciativas como o Chiado Podcast e o Festival Poemúsica. O que falta tornar realidade?

O Chiado foi criado como uma forma muito sutil, dentro do isolamento trazido pela pandemia. Foi uma forma “pequena” de documentar as falas de artistas que considero relevantes na música brasileira. Tenho vontade de retomá-lo e, para mim, ele tem vida longa, ainda que nesse momento meu tempo esteja escasso. Já o Poemúsica buscou a interlocução entre a poesia literária e a da canção, e fico muito orgulhosa de esse festival ter chegado à sua terceira edição. Quero fazer dele um festival anual, e quero também produzir, escrever bastante sobre música, lançar mais livros de poesia e me empenhar para continuar a fazer meu malabarismo com as palavras.

JP –  Você transita entre canções e poemas. Já é possível dizer que viva em estado de poesia?

Sim, vivo em estado de poesia. Gosto de ter o olhar sensível para o mundo, ainda que o mundo não tenha tempo para sutilezas e sensibilidades. Se eu não for assim, não serei eu. O estado de poesia abarca também a pintura ,a fotografia, observar a Natureza, esse estar entre belezas. Tudo isso é, para mim, estado de poesia e espero que o Borda leve às pessoas um pouquinho desse meu olhar.

Foto Cris Lopes

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