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Meu convidado de hoje é o maestro Ricardo Rocha que prepara concerto em homenagem aos 275 de Bach

Chico Vartulli 11 de setembro de 2025 13 minutes read
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Essa semana tive o prazer e a honra de conversar com o maestro Ricardo Rocha, que está completando 40 anos de carreira. Pós-graduado pela Escola Superior de Música da Universidade de Karlsruhe como Kapellmeister (Maestro de ópera e concertos sinfônicos), o mais alto título em Regência em países de língua alemã, é também mestre em Regência pela Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Na Alemanha, ao longo de 11 anos, criou o ciclo Brasilianische Musik im Konzert para a difusão da música de concerto brasileira, à frente de orquestras como a Sinfônica de Bamberg, as Filarmônicas da Turíngia e de Südwestfallen e a Sinfônica de Baden-Baden.

No Brasil, Rocha foi regente titular da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal de Mato Grosso (1992-94) e da Orquestra Sinfônica e Coro Estável da Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais (1994-96), onde também foi professor de Regência. Como convidado, regeu grandes orquestras brasileiras como a OSB, OSTMSP, OSMG, OPES, OSN-UFF, OSBJ e a OJB – Orquestra Jovem do Brasil, com a qual executou a Nona Sinfonia de Beethoven pelos 20 anos da Queda do Muro de Berlim.  Em nosso encontro, Ricardo Rocha falou, entre outras coisas,  sobre a montagem do concerto em homenagem aos 275 anos de vida póstuma de Bach. Confira! 

JP –  Como é completar 40 anos de trajetória, tendo executado inúmeras obras no Brasil e no exterior?

É a certeza de estar levando a cabo a um chamado vocacional desde criança, na medida em que venho traçando uma trajetória consequente como intérprete e representante da mais alta tradição musical na história da Humanidade, que é a música produzida pela Civilização Ocidental. Nada se compara ao que ela produziu e segue produzindo há pouco mais de dois mil anos.

 

JP –  Como será a montagem do concerto em homenagem aos 275 anos de vida póstuma de Bach (1750 – 2025)?

Uma grande noite, com direito à beleza e o brilho de uma música viva, com o calor e a chama de uma tocha sagrada que será acesa no palco.

 

JP –  Por que homenagear Bach?

Em primeiro lugar pelo fato dele estar completando, este ano, 275 anos do que chamo de “Vida póstuma”, já que, mesmo tendo deixado este planeta em 1750, sua obra está cada vez mais viva no mundo inteiro, em Sociedades Musicais com o seu nome, presentes e atuantes em capitais e outras cidades nos cinco continentes que trabalham voluntariamente na difusão de sua obra, pelo fato dela possuir algo tão profundamente belo que a torna atraente para as mais diversas culturas e gerações; isso também pelo fato de que sua música resiste a qualquer mudança de instrumentos nos quais ela é executada,  mesmo em meios eletrônicos, como um simples ringtone de celular, por exemplo, tocando o tema do Concerto de Brandemburgo n.3: sua música não só agrada a quem a ouve, como nela também o compositor é reconhecido como sendo Bach.

 

Em segundo lugar, pode-se discutir que foi o maior compositor da história da música, que para mim foi Bach, mas ninguém pode por em questão quem foi o mais importante, já que foi ele quem inventou o sistema tonal com a criação de 48 escalas maiores e menores,   que foram usadas por todos os compositores que vieram depois dele, inicialmente na Europa, depois em todo o mundo, na música erudita e de concerto até a popular. Se hoje,  no século 21, aqui no Rio, um músico de pagode avisa ao grupo a tonalidade que vau acompanhar uma cantora dizendo: “ em ré maior!”, isso é Bach, que foi quem criou e sistematizou esta e todas as outras tonalidades!

Por fim, sua música cumpriu e segue cumprindo função seminal, ou seja, influenciando diversos gêneros musicais, do folclore à música sinfônica, coral e instrumental, do chorinho brasileiro ao rock e,  confessadamente, por declaração de compositores  que vão dos Beatles ao heavy metal, que usaram seus temas com outra roupagem, mas cujos temas e  ideias musicais foram escritas à luz de vela, saindo do bico de pena de Bach, molhada no tinteiro.

 

JP –  O que mais lhe atrai na música de Bach?

Esta sua universalidade e poder seminal.

 

JP –  Qual é o contexto de produção das composições de Bach?

 

É o do Maniqueísmo europeu dos séculos XVII e XVIII, que viveu a polarização expressa em guerras religiosas, na disputa da primazia entre o Bem e o Mal, a Igreja e o Estado, entre a fé cristã em suas vertentes e a razão iluminista, que colocava sua esperança de salvação nos Homens, declarando a morte de Deus e estabelecendo a Natureza como criadora, ao invés de criatura do Criador.  Nesse contexto Bach foi uma caso extraordinário de barroco protestante, uma vez que ele era luterano e o Barroco foi um fenômeno estético exclusivamente católico e do sul da Europa, fortemente caracterizado pela representação plástica do sagrado, o que era considerado herético nas diversas denominações protestantes que foram aparecendo.

Bach era um homem culto, professor de latim e profundamente religioso, um compositor que sempre compôs representando plasticamente o sagrado em suas criações musicais, pela poderosa atração que sempre sentiu pela música católica, inicialmente através do primeiro grande compositor alemão nascido 100 anos antes dele, Heinrich Schütz, um luterano que passou anos estudando com Giovanni Gabrielli em Veneza, de quem recebeu uma herança de mil anos de música italiana, sacra, sendo que, depois de retornar à Alemanha e ter trabalhado como Mestre Capela em Copenhage, voltou à Itália para estudar com nada menos que Claudio Monteverdi.

Já na sua época, passou a sua vida, não importava a cidade onde estava trabalhando, visitando sempre que podia a Biblioteca de Weimar, onde copiava literalmente temas e formas musicais de Antonio Vivaldi, padre veneziano contemporâneo seu que nunca conheceu pessoalmente. Uma informação importante é a de que, por vários momentos de sua vida, tentou trabalhar como organista e compositor em diferentes cortes católicas, tanto em Dresden, que possuía grandes compositores e mestres no contraponto, como mesmo na corte do Rei da Polônia.

 

Quem conta melhor um pouco disso tudo é James R. Gaines, em seu espetacular livro “Uma noite no Palácio da Razão!”(Evening in the Palace of Reason na tradução de Antonio Braga, Record RJ, 2007), que fala do encontro de Bach, dois anos depois de sua morte, e Frederico, o Grande, na era do Iluminismo. Nele o autor descreve as histórias de duas Alemanhas convivendo numa mesma época, sendo uma central entre a Turíngia e a Saxônia, profunda e religiosa, que é a de Bach, e a prussiana da Corte do Rei Frederico em Berlin, que apesar de monárquica, convivia com o ateísmo e as ideias republicanas em gestação na França.  Da infância à morte, cada capítulo conta a vida de cada um deles, comparativa e criticamente, como quadros pintados para a ilustração de uma Aula Magna de história do que se passava na Europa naquele momento, do ponto de vista político, social e econômico, como do filosófico e religioso. Leitura imperdível, obrigatória para quem quiser começar a compreender quem foi Bach.

JP –  Quais são as suas composições preferidas de Bach?

Nas obras instrumentais, a Arte da Fuga, O Cravo bem temperado, os Concertos de Brandemburgo,  as Suítes para Violoncelos e as Aberturas Orquestrais, a Chaconna, as sonatas para flauta e cravo, e os concertos para violino solo, o para dois violinos que executaremos agora e o com oboé;

Nas obras coro-orquestrais, cerca de 21 Cantatas que mais gosto entre as mais de 200 que ele escreveu, as Paixões Segundo São João e São  Mateus, o Magnificat e, claro, a sua obra-testamento e a mais importante do ponto de vista oficinal estético e confessional, a sua monumental H-mol Messe, ou Grande Missa em si menor, um autorretrato musical que ele foi escrevendo ao longo de 25 anos, quase que secretamente, sem que tivesse sido encomenda, o que foi um dos raros casos de sua imensa produção.

 

JP –  Além de Bach, quais outros compositores você admira?

Inúmeros!  De Guillaume de Machault, da Escola de Notre Dame,  a Guillaume Dufay, da Escola Borgonhesa; Palestrina e Monteverdi entre a Renascença e o Barroco; os compositores da Corte de Dresden (onde Bach recebeu o título de Compositor da Corte Real a partir de 1736), em especial Jan Dismas Zelenka.  Depois os três da Primeira Escola de Viena, Haydn, Mozart (última fase) e Beethoven, como também Brahms, na Alemanha.  Do norte da Europa, Grieg e Sibelius; na Rússia, Rimsky-Korsakov, Tchaikovsky e, mais tarde, Stravisnky;  França, Debussy e Ravel; da Boêmia, Dvorák e Martinu, da Hungria, Béla Bartók, da Estônia, Arvo Pärt. Dos Estados Unidos, Samuel Barber e Philip Glass; da América Latina, Carlos Chávez e Silvestre Revueltas, do México, e Alberto Ginastera da Argentina.  Do Brasil são dezenas , muitos mesmo, eu apontaria, da Colônia aos nosso dias, só citando os já falecidos, para não criar problemas, José Maurício Nunes Garcia,  Alberto Nepomuceno,    Villa-Lobos, Guerra-Peixe, Edino Krieger.  Porém essa lista é injusta, por ter deixado de fora muitos outros compositores que gosto demais!

 

JP –  Quais os seus projetos futuros?

 

No que diz respeito à música, quero muito registrar, gravadas em vídeo, coleções de obras cujos volumes da série eu já regi em diferentes ocasiões e locais, mas nunca  juntos numa montagem única, com um mesmo conjunto. Do repertório de concertos sinfônicos, as Nove Sinfonias de Beethoven. cuja análise estrutural completa eu publiquei num Livro-Atlas em 2013, do primeiro compasso da Primeira Sinfonia ao último da Nona, trabalho que me custou 25 anos de trabalho;  também a coleção das Nove Bachianas Brasileiras, de Villa-Lobos. as Quatro Sinfonias de Brahms, os quatro Concertos para Violino (incluído o duplo) e Bach; os três poemas sinfônicos de Leopoldo Miguez e os três grandes balés russos de Stravinsky – O Pássaro de Fogo, Petruschka e a Sagração da Primavera.

Do repertório Coral-Sinfônico, a grande Missa em si menor, de Bach; os Réquiem de Mozart, Fauré e Brahms; e um grande painel sinfônico de cinco suítes, cinco aberturas, cinco grandes sinfonias (incluindo brasileiras), cinco concertos solistas e cinco poemas sinfônicos.

Já como escritor, tenho três livros com mais de dois terços prontos, faltando apenas tempo e dinheiro para terminá-los e publicá-los:  como docente, meu segundo livro sobre regência, complementando o  que lancei em primeiro em 2004, “Regência, uma Arte Complexa”, complementando com várias reflexões e técnicas que amadureci ao longo dessas 21 anos após seu lançamento; o outro, sobre Formas Musicais, com a análise estrutural dessas 25 obras  acima citadas (Suites, Aberturas, Sinfonias , Concertos Solistas e Poemas Sinfônicos);

O último é um que venho escrevendo há cerca de 30 anos, é  intitulado “O Sagrado na Origem da Música/e a Música como expressão da potência da sacralidade na história do Ocidente, com duas teses sobre a origem do fenômeno musical e sua expressão no civilização ocidental, num recorte histórico de Pitágoras no século V a.C à primeira metade do século XX, terminando com o que está acontecendo hoje no planeta com a produção musical, asfixiada pelo crescente materialismo contemporâneo, que vai extinguindo pouco a  pouco a pouco a produção de ritmos e cantos.  Para tanto foram mais de 15 anos em pesquisas e anotações sobre a criação musical do Ocidente em seu contexto social, político, econômico, filosófico e religioso. É obra de fôlego que poderá ser lida em diferentes línguas. Enfim, o sonho é que possa fazer tudo  isso antes de morrer, né?    rsrsrsrsrs!

 

JP –  Qual é o recado que deixaria para aqueles que desejam seguir uma carreira dentro da música de concerto?

 

Para o músico e o não músico, o primeiro passo é sempre o de conhecer a si mesmo, suas habilidades e potências, assim como suas fraquezas e limites. Ao reconhecer em si determinados talentos, precisa saber em que nível eles se expressam, ou seja, se é o do prazer, pela inclinação natural e a facilidade que tem na execução de determinadas atividades, ou se eles estão a serviço de um chamado interno e inevitável, que é o da vocação. O talento sem vocação é o cultivo de um hobby que dá prazer ao seu possuidor, que poderá viver sem depender dele para o exercício  da sua profissão. Já no caso do vocacionado, o talento é apenas o meio, o instrumento para um fim vitalício e maior, que aparece em representantes de áreas ancestrais como a do médico, a do militar, a do professor, do sacerdote e, entre outros, a dos artistas em geral.  Entre esses, o músico é um caso muito específico, por várias razões que não cabem aqui, seja ele o da música popular ou, mas difícil ainda, o da música culta,  ou erudita, que chamamos ‘de concerto’.

 

O que deseja seguir uma carreira  dentro da música de concerto precisa passar pelo rito de passagem para conhecer a si mesmo e, neste processo, reconhecer suas capacidades, ao discernir se o caso dele é vocacional ou não, porque, se for, ele terá de atender ao seu chamado, por amor ou pela dor. Ele não terá escolha e só será feliz passando a vida e envelhecendo na oficina da efetuação da sua vocação.

 

Dito isso, creio que posso responder à sua pergunta dizendo, por experiência própria: escolha a opção de seguir por amor, porque a dor da sua efetuação é grande, mas virá com frutos redondos, com cores e perfume próprios, malgrado todas as tribulações. É que, de uma maneira ou de outra, o que foi chamado terá de atender à sua vocação. E no processo da sua realização, o prazer estará presente, só que vestido de alegria genuína, quando o tempo for de colheita, celebração e dança.

 

O recado é: vá em frente: estude, pesquise, aprenda sempre e como puder, caia e levante, exercitando o fazer bem feito e não aceitando o mais ou menos ou o “aproximadamente” bom.

Se o que fez não está ao alcance do que pode fazer, descarte-o e comece de novo evitando os erros velhos. Vá em frente, envelheça na sua oficina musical até que, nela, você alcance a excelência.

 

Quem tem talento, tem habilidade; mas quem tem vocação traz uma tocha sagrada que será acesa nos momentos da sua efetuação. E nesta, o talento, ou os talentos, terão representado, apenas, o meio de uma inevitável expressão.

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Chico Vartulli

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